O Globo
Brasileiro se despede da ONU após 15 anos à
frente de comissão que investiga crimes de guerra na Síria
Em março de 2011, a Primavera Árabe chegou à
Síria com manifestações pacíficas pelo fim da ditadura de Bashar al-Assad. O
regime reprimiu os protestos com violência, e o país mergulhou numa sangrenta
guerra civil.
Em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos da ONU acionou um brasileiro para observar o conflito. “No início, os refugiados queriam saber em quantos dias os filhos poderiam voltar à escola. Pensavam que a guerra não iria durar muito. Durou quase 14 anos”, espanta-se Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Investigação Internacional Independente sobre a Síria.
No primeiro relatório, o órgão denunciou
abusos dos dois lados em confronto. “O regime nunca mais me deixou entrar no
país. Só consegui voltar em 2025, depois da queda de al-Assad”, diz o cientista
político. Ele também desagradou as potências ocidentais ao criticar as sanções
econômicas e o envio de armas a grupos rebeldes. “Sempre defendi que as sanções
punem o povo, não os governos”, sustenta.
Impedido de pousar em Damasco, Pinheiro
continuou a peregrinar pelo Oriente Médio para ouvir exilados e militares
sírios. “Produzimos uma infinidade de documentos sobre todo tipo de violação de
direitos humanos: execuções, detenções arbitrárias, tortura, deslocamento
forçado, extermínio de minorias”, enumera. “Às vezes me perguntam: ‘Paulo, será
que alguém lê todos esses relatórios?’. Não sei, mas tenho certeza de que eles
são importantes para as famílias das vítimas”, afirma.
Em março, Pinheiro publicou informe sobre a
violência na província de Suwayda. Listou crimes contra civis drusos e beduínos
e condenou os bombardeios de Israel. A guerra civil acabou, mas a instabilidade
continua. “A Síria vive uma das transições mais complexas do mundo. Apesar dos
desafios, vejo progressos”, diz o professor.
Na segunda-feira, ele apresentou sua carta de
renúncia. Aos 82 anos, disse não ter mais energia para a rotina de reuniões e
voos internacionais. A Síria foi a última escala do globetrotter dos direitos
humanos, que já havia representado a ONU em conflitos no Burundi, Myanmar, Togo
e Timor Leste.
“Sempre atuei pro bono, sem receber um tostão”,
orgulha-se o carioca, que também integrou a Comissão Nacional da Verdade e foi
ministro do governo Fernando Henrique Cardoso. “As pessoas pensam que fiz tudo
por coragem. Na verdade, foi um misto de curiosidade com irresponsabilidade”,
brinca.

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