sexta-feira, 5 de junho de 2026

O globetrotter dos direitos humanos, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Brasileiro se despede da ONU após 15 anos à frente de comissão que investiga crimes de guerra na Síria

Em março de 2011, a Primavera Árabe chegou à Síria com manifestações pacíficas pelo fim da ditadura de Bashar al-Assad. O regime reprimiu os protestos com violência, e o país mergulhou numa sangrenta guerra civil.

Em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos da ONU acionou um brasileiro para observar o conflito. “No início, os refugiados queriam saber em quantos dias os filhos poderiam voltar à escola. Pensavam que a guerra não iria durar muito. Durou quase 14 anos”, espanta-se Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Investigação Internacional Independente sobre a Síria.

No primeiro relatório, o órgão denunciou abusos dos dois lados em confronto. “O regime nunca mais me deixou entrar no país. Só consegui voltar em 2025, depois da queda de al-Assad”, diz o cientista político. Ele também desagradou as potências ocidentais ao criticar as sanções econômicas e o envio de armas a grupos rebeldes. “Sempre defendi que as sanções punem o povo, não os governos”, sustenta.

Impedido de pousar em Damasco, Pinheiro continuou a peregrinar pelo Oriente Médio para ouvir exilados e militares sírios. “Produzimos uma infinidade de documentos sobre todo tipo de violação de direitos humanos: execuções, detenções arbitrárias, tortura, deslocamento forçado, extermínio de minorias”, enumera. “Às vezes me perguntam: ‘Paulo, será que alguém lê todos esses relatórios?’. Não sei, mas tenho certeza de que eles são importantes para as famílias das vítimas”, afirma.

Em março, Pinheiro publicou informe sobre a violência na província de Suwayda. Listou crimes contra civis drusos e beduínos e condenou os bombardeios de Israel. A guerra civil acabou, mas a instabilidade continua. “A Síria vive uma das transições mais complexas do mundo. Apesar dos desafios, vejo progressos”, diz o professor.

Na segunda-feira, ele apresentou sua carta de renúncia. Aos 82 anos, disse não ter mais energia para a rotina de reuniões e voos internacionais. A Síria foi a última escala do globetrotter dos direitos humanos, que já havia representado a ONU em conflitos no Burundi, Myanmar, Togo e Timor Leste.

“Sempre atuei pro bono, sem receber um tostão”, orgulha-se o carioca, que também integrou a Comissão Nacional da Verdade e foi ministro do governo Fernando Henrique Cardoso. “As pessoas pensam que fiz tudo por coragem. Na verdade, foi um misto de curiosidade com irresponsabilidade”, brinca.

 

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