Folha de S. Paulo
Sanções eleitorais ajudam a explicar por que
a participação cresce com a escolaridade
Punições afetam mais a classe média escolarizada, para quem passaporte, concurso e CPF regularizado importam diretamente
A obrigatoriedade do voto no Brasil talvez
funcione menos como instrumento de inclusão democrática do que como filtro
burocrático de classe. Essa é uma das conclusões mais provocativas do novo
livro de Jairo Nicolau, "O
País Dividido: Duas Décadas de Eleições Presidenciais no Brasil".
Nicolau usa dados de comparecimento, abstenção e justificativa de ausência para recolocar a discussão sobre voto obrigatório. No debate brasileiro, a defesa do voto facultativo costuma vir acompanhada de um argumento elitista: a democracia melhoraria se eleitores mais pobres deixassem de votar. A ciência política, por sua vez, parte da premissa oposta: o voto obrigatório impediria a exclusão dos mais pobres das urnas. Seria, portanto, um instrumento para mitigar o risco de que a desigualdade econômica se traduza também em desigualdade política.
Nicolau nos mostra que o Brasil frustra essa
expectativa. Mesmo sob voto obrigatório, o comparecimento cresce quase
linearmente com a escolaridade. A diferença de participação entre analfabetos e
eleitores com diploma universitário chega a 37 pontos percentuais.
A explicação não está na mobilização política
nem na consciência cívica. A multa por ausência, de R$ 3,51, sem reajuste desde
1993, perdeu capacidade de coerção. O que pesa são as sanções associadas à
falta de quitação eleitoral: dificuldade para tirar ou renovar passaporte ou
tomar posse em concurso público, por exemplo.
Essas punições afetam mais a classe média
escolarizada, para quem passaporte, concurso e CPF regularizado importam
diretamente. Para os mais pobres, a ameaça é menos concreta. Quem falta a três
eleições seguidas sem justificar nem pagar multa pode ter o título cancelado.
Para muitos, porém, essa é uma punição quase invisível no cotidiano.
Os dados da eleição de 2022 evidenciam essa
assimetria. Entre os
eleitores que faltaram ao primeiro turno, apenas 17% daqueles com ensino
fundamental incompleto justificaram a ausência. O índice sobe para 31% entre os
que completaram o ensino médio e chega a 47% entre os universitários. São estes
que recorrem ao e-Título
para evitar as sanções do Estado.
O comportamento por idade reforça a hipótese.
Jovens de 16 e 17 anos e idosos acima de 70, dispensados da obrigação,
comparecem menos. Mas os jovens de 18 a 29 anos, já sujeitos à obrigatoriedade,
registram a maior abstenção entre as faixas obrigadas a votar.
Para Nicolau, a variável decisiva não é a
idade, mas a escolaridade. São as condições sociais do eleitor que definem se
as sanções burocráticas terão efeito prático sobre sua vida.
Se essa leitura estiver correta, o debate
sobre o fim da obrigatoriedade precisa ser refeito. O temor de que o voto
facultativo entregaria as urnas a uma elite ilustrada ignora que essa elite já
é quem mais comparece, justamente porque é ela que mais tem a perder quando
fica em débito com a Justiça Eleitoral.
A defesa tradicional do voto obrigatório
sempre se apoiou numa imagem invertida da realidade: sem ele, os de baixo
desapareceriam das urnas e os de cima votariam sozinhos. Para os defensores
dessa visão, os dados reunidos por Nicolau sugerem algo mais incômodo: livres
das sanções, talvez os eleitores mais escolarizados sejam os primeiros a
abandonar as urnas.
*Professora na Escola de Economia de São Paulo (FGV-EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo IESP-UERJ

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