Folha de S. Paulo
Foi buscar bênção política de Trump, mudar a
pauta e exibir ao bolsonarismo que ainda tem os ouvidos do imperador
A estratégia funciona para os convertidos,
mas pode soar como vassalagem para o eleitorado amplo
O que Flávio
Bolsonaro foi fazer na Casa Branca?
A resposta simples: foi atrás de uma fotografia. A completa: foi tentar mudar a
pauta desfavorável da mídia, receber a bênção de Trump, o grão-sacerdote da
nova direita mundial, reanimar a base com o tema da repressão ao crime, dar um
verniz internacional a uma pré-candidatura desacreditada e mostrar que não é só Lula quem
tem acesso ao governo americano.
A foto com Trump não resolveu seus problemas jurídicos ou as explicações que deve sobre o caso banco Master, mas foi um recurso extremo para estancar a sangria de sua popularidade e manter sua candidatura respirando.
Em política nem sempre se responde a um
escândalo com explicações. Muitas vezes tenta-se responder com outro enredo.
Sai de cena o candidato constrangido por perguntas incômodas, entra o homem
recebido por Trump, supostamente para falar de crime
organizado e terrorismo.
Para a base bolsonarista, a operação faz
sentido. Trump não é apenas o presidente dos Estados
Unidos. É o patriarca da nova direita, o restaurador imaginário de
uma justiça que as instituições nacionais já não podem oferecer. Quando um
Bolsonaro aparece ao lado dele, a mensagem à militância é quase sacramental: se
o líder do Ocidente nos reconhece e nos escuta, as mesquinhas acusações locais
não importam.
A classificação do PCC e
do Comando
Vermelho como organizações terroristas ofereceu à viagem o
troféu narrativo. Flávio Bolsonaro pôde dizer que fez, em poucos dias, aquilo
que o governo não teria feito em anos. A segurança pública, tema em que Lula
costuma caminhar mal, virou vitrine para a velha promessa bolsonarista do punho
firme. Não importa que crime organizado, terrorismo, narcotráfico e soberania
sejam problemas diferentes. A comunicação de nicho precisa apenas de contraste
moral, imagem forte e inimigo reconhecível.
Há uma segunda camada. A família Bolsonaro
não busca em Trump apenas apoio. Busca autoridade emprestada. Como está por
baixo, tenta importar de Washington o poder que já não possui em Brasília. A
cena comunica aos aliados que ainda há padrinho poderoso, aos adversários que a
família tem canais fora do país e às instituições que qualquer movimento contra
o clã terá um preço diplomático.
A história conhece bem esse expediente. O
intermediário local oferece ao centro imperial a garantia de alinhamento do
país e, ao mesmo tempo, vende o império à própria base. A intimidade com o
império, então, vira prova de força. Somoza fez isso na Nicarágua, exibindo o
patrocínio de Washington como escudo contra opositores. Carlos Lacerda
transformou seu trânsito americano em credencial moral contra o nacionalismo
varguista e o trabalhismo. Quem não consegue autoridade plena em sua casa tenta
exibi-la como chancela estrangeira: os Bolsonaros precisam dessas fotos ao lado
do trono do imperador.
Essa estratégia tem nome antigo: vassalagem
apresentada como virtude. O que, na gramática da soberania, pareceria
subordinação a potência estrangeira, no vocabulário bolsonarista aparece como
"alinhamento" moral, de valores e de agenda. O Brasil fica acima de
tudo, desde que abaixo de Trump.
Há diferenças. Lacerda falava a uma classe
média letrada, por jornais e diplomacia. O bolsonarismo fala à tribo digital.
Os Bolsonaros, diferentemente de Lacerda, não buscam reconhecimento do
establishment americano, mas o selo de uma facção: Trump, Maga, Marco Rubio, JD
Vance. Não é diplomacia de Estado, mas diplomacia de clã.
Para o núcleo duro, funciona. A base se vê
como maioria vitimizada: conservadores, cristãos, pagadores de impostos e
"gente de bem" expropriados por PT, imprensa, STF e
elites progressistas. Nessa psicologia do ressentimento, qualquer pedido de
socorro externo é visto como tábua de salvação e qualquer gesto de Trump vira
promessa de reparação.
Mas e fora da bolha? Eleição majoritária não
se ganha apenas com os fiéis e convertidos. Para o eleitor de centro e para a
direita não tribalizada, a cena pode produzir o efeito inverso. O candidato que
pretendia parecer estadista e forte mostra-se frágil e dependente. O altivo
patriota virou o soldadinho local de um poder estrangeiro.
Trump não tem amigos, tem interesses. O colo imperial desaparece quando o protegido vira estorvo. A história está cheia de intermediários locais que confundiram proximidade com garantia e se viram sem nada. A base pode até pensar que Flávio voltou de Washington maior. Para o eleitorado amplo, voltou menos candidato a presidente do Brasil e mais despachante de uma causa estrangeira.
*Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”

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