Fundo eleitoral e emendas distorcem a competição política
Por Folha de S. Paulo
Partidos, que receberão R$ 4,9 bi em dinheiro
do contribuinte, deveriam buscar na sociedade seu sustento
Volta de doações de empresas seria um
primeiro passo; parlamentares decidem cada vez mais o destino dos impostos, mas
de forma degradada
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou a
divisão de recursos do fundo eleitoral entre os partidos políticos. Como já era
sabido, vultosos
R$ 4,9 bilhões foram destinados no Orçamento para financiar
campanhas neste ano.
Agremiações com desempenho eleitoral melhor na disputa mais recente por vagas no Congresso Nacional levam as maiores fatias desse Fundo Especial de Financiamento de Campanha. O PL, de Jair Bolsonaro, ficou com a maior parcela, R$ 881,6 milhões, seguido pelo PT, de Luiz Inácio Lula da Silva, com R$ 615,3 milhões.
O anúncio do TSE serve para lembrar ao
público que a atividade partidária vem sendo estatizada, na prática. Uma
leitura apressada dos achados da Operação Lava
Jato e uma controvérsia constitucional duvidosa levaram o
Supremo Tribunal Federal (STF) a proibir
que empresas financiassem partidos, em 2015.
Assim, a política partidária desobrigou-se,
na contabilidade oficial, de convencer a sociedade a financiar seus programas
ou projetos de poder; não há sinais, além disso, de que a corrupção tenha
diminuído.
A partidarização indevida do Orçamento
avançou também. Deputados e senadores passaram a decidir cada vez mais o
destino dos impostos arrecadados, mas de forma degradada, quando não irregular.
As emendas orçamentárias são, no mais das vezes, orientadas pelo interesse
particular de parlamentares, não por diretrizes de política pública.
No ano passado, reservaram-se R$ 48 bilhões
para emendas; neste
2026, R$ 61 bilhões.
O sucesso em direcionar dinheiro para bases
eleitorais eleva as chances de eleição ou de reeleição de políticos
estabelecidos e bem relacionados. O fundo de campanha e o fundo partidário,
bancados também por impostos, facilitam o financiamento de campanhas, com o que
se tem acesso a mais fundos públicos, de emendas a verbas de gabinete. É quase
um círculo vicioso.
O esquema tende a diminuir a competição
política e incentiva comportamentos particularistas dos congressistas.
É preciso também considerar que o dispêndio
com fundos partidários é excessivo. Os R$ 4,9 bilhões destinados aos gastos
eleitorais de 2026 podem parecer pouco diante do gasto federal não financeiro,
na casa dos R$ 2,6 trilhões. No entanto, quase 92% dessa despesa primária é de
execução obrigatória, restando cada vez menos para outras finalidades, como
investimentos e custeio da máquina pública.
O governo federal já bloqueou R$ 23,7 bilhões
em recursos neste ano, com o objetivo de cumprir os limites fiscais. Alguns
órgãos perderam poucas dezenas de milhões de reais, o suficiente, porém, para
prejudicar serviços.
O financiamento de campanhas eleitorais não
deve ser uma prioridade do Estado. A volta das
doações de empresas, com tetos de valores, seria um primeiro passo
para que os partidos busquem na sociedade o seu sustento.
Lobby do agro avança sobre o Orçamento
Por Folha de S. Paulo
Projeto de renegociação de dívidas rurais
oferece condições favorecidas bancadas por recursos públicos
São diminutas as chances de desaprovação no
Senado, dado o oportunismo da bancada ruralista ao impulsioná-la em um momento
pré-eleitoral
Não é de hoje que os cofres federais absorvem
os riscos e o endividamento de setores da economia favorecidos por renúncias
fiscais e subsídios no Orçamento, não raro por ação de lobbies poderosos e sem
avaliação transparente de custos e benefícios para a sociedade.
Mais um exemplo dessa socialização espúria se
vê na tramitação de um projeto de lei para a renegociação da dívida do agronegócio pelo Senado.
O texto
aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado não
apenas deixa em aberto o volume de recursos públicos a serem mobilizados no
socorro às empresas inadimplentes como também avança sobre fundos
constitucionais como as fontes de sua salvação.
A proposta ainda será submetida ao plenário
da Casa. São diminutas, de todo modo, as chances de desaprovação, dado o
oportunismo da bancada ruralista ao impulsioná-la em um momento pré-eleitoral.
Numa tentativa de conciliação, o governo Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
enviou uma proposta mais contida à comissão, mas os senadores tinham seus
próprios planos.
O relatório de Renan
Calheiros (MDB-AL)
respeitou a necessidade de comprovar perdas de, no mínimo, 30% da renda bruta
em duas safras de 2019 a 2025, desde que desencadeadas por eventos climáticos
extremos e/ou queda de preços de comercialização.
Entretanto, elevou o teto da dívida a ser
refinanciada de R$ 4 milhões, como defendia a Fazenda, para R$ 10 milhões. Para
as cooperativas e associações, o limite será de R$ 50 milhões. Os futuros
acordos abarcarão taxas de juros de 3,5% a 7,5% ao ano e prazos de dez anos,
com três de carência.
Não bastasse, há precedentes temerários. O
projeto prevê o uso de recursos de fundos constitucionais e do Fundo Social do
Pré-Sal para cobrir as renegociações com bancos e outras instituições. Também
permite ao devedor agregar ao pacote suas dívidas não financeiras.
Há, ao que parece, enorme incerteza sobre o
valor total da dívida rural a ser renegociada e seu impacto nas contas
públicas. A Fazenda chegou a estimar um
custo fiscal de R$ 830 bilhões em 13 anos, dado o passivo
trilionário do campo. Já a comissão calcula R$ 100 bilhões em dez anos, com
base em uma carteira estressada de R$ 180 bilhões.
Uma discrepância de tais proporções deveria bastar para acender alertas e levar a um debate mais aprofundado do texto. Além de reduzir o volume de subsídios a setores influentes, o poder público precisa eliminar a prática de distribuí-los de maneira opaca.
Violações de robôs de IA despertam reação
global
Por O Globo
São bem-vindas as iniciativas para conter
rapina indiscriminada de conteúdo protegido por direito autoral
Tem crescido a pressão sobre empresas
digitais para que remunerem os produtores pelo uso de seu conteúdo no
treinamento dos modelos de inteligência
artificial (IA), um roubo em escala sem precedentes, nas palavras do
presidente do New York Times, Arthur G. Sulzberger. Empresas como OpenAI,
Anthropic, Meta e Google têm copiado e usado sem autorização tudo o que
encontram nos sites da imprensa profissional, de editoras, instituições
acadêmicas, produtores de música ou vídeo e outros detentores de direitos
autorais. Além de a cópia não autorizada ser crime, a apresentação de resumos
por mecanismos de busca e robôs de IA reduz o tráfego nos sites noticiosos, com
impacto nas receitas de publicidade e assinaturas.
Na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil
estão em curso iniciativas regulatórias e judiciais para deter a violação
sistemática. O último lance ocorreu no Reino Unido, onde a Autoridade de
Concorrência e Mercados (CMA) estabeleceu na semana passada que proprietários
de páginas da internet podem impedir que seu conteúdo seja usado no treinamento
de modelos. No mês passado, a Corte de Justiça da União Europeia (UE)
referendou a posição da autoridade italiana de telecomunicações, que impôs à
Meta o pagamento de direitos autorais em virtude do uso sem permissão de
conteúdos produzidos por editores e empresas jornalísticas do país. Nos Estados
Unidos, editoras e autores de livros também processam a Meta por desrespeito
aos direitos autorais no treinamento de modelos. No Brasil, o Cade abriu
processo contra o Google pelo mesmo motivo.
A UE, por meio da Lei de Serviços Digitais
(DSA), está na vanguarda na fiscalização das plataformas. Além da questão dos
direitos autorais, o bloco acusa a Meta de permitir o acesso de menores de 13
anos a Instagram e Facebook. “As medidas implementadas pela empresa para fazer
cumprir essas restrições não parecem eficazes”, afirma a Comissão Europeia (CE).
No mês passado, autoridades europeias lançaram um aplicativo de verificação de
idade. Na ocasião, Ursula von der Leyen, presidente da CE, declarou que agora
as plataformas “não têm mais desculpas” para deixar de vigiar a idade de quem
trafega em suas redes.
A UE converteu-se na fronteira mais avançada
no enfrentamento às plataformas por ter legislação mais dura e agir com
rapidez. Nos últimos anos, o Google teve de desembolsar € 8 bilhões em
penalidades por desobedecer à legislação antitruste, a Meta pagou multa de €
1,2 bilhão por transferir dados de europeus aos Estados Unidos, e a Apple foi
multada em € 1,8 bilhão por sabotar a concorrência no mercado de música. Por
tradição, o mercado é menos regulado nos Estados Unidos, mas lá também as
plataformas respondem a processos e têm sido punidas com multas de centenas de
milhões de dólares por infrações diversas, do descuido com privacidade infantil
a manobras no mercado de anúncios.
Em vez de adotar atitude razoável com o
advento da IA, empresas digitais persistem na rapina sistemática de conteúdo. O
desenvolvimento e a atualização dos robôs dependem do fluxo constante de
textos, imagens e sons. As empresas de comunicação devem, portanto, poder
barrar o acesso dos modelos de IA a seus arquivos e têm direito a ser
remuneradas para autorizá-lo. Ao mesmo tempo, a vigilância das autoridades
sobre as plataformas deve ser contínua no mundo todo.
Brasil e Estados Unidos devem trabalhar em
conjunto contra o tráfico
Por O Globo
Em vez de se perder em embate estéril contra
americanos, governo Lula tem de aprofundar cooperação
É preciso superar a designação do Comando
Vermelho e do PCC como
organizações terroristas pelo governo americano para tratar dos efeitos
práticos. O Brasil pode aproveitar a legítima preocupação americana com o
tráfico de drogas para obter apoio no enfrentamento às facções criminosas.
Passam pelo território brasileiro rotas relevantes de escoamento de cocaína.
Para enfrentar essa realidade, a cooperação externa é bem-vinda.
Brasil e Estados Unidos já
mantêm acordos de cooperação que podem ser ampliados ou complementados. A
pressão americana, ainda que contaminada pelo calendário eleitoral, pode ser
usada para aproximar os dois países e tornar mais eficaz o combate ao crime
organizado. Ambos podem trabalhar juntos em prol de interesses comuns.
A Receita Federal já mantém cooperação com
sua congênere americana, o IRS, como
relatou ao GLOBO o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas.
Uma missão do Fisco brasileiro está prestes a embarcar para os Estados Unidos
para ampliar a troca de informações. Na aproximação recente, Luiz Inácio Lula da
Silva repassou a Donald Trump informações
sobre um esquema de lavagem de dinheiro que se aproveita da legislação
benevolente do estado americano de Delaware para abrir empresas que mantêm o
nome dos sócios sob sigilo para, se falirem, não pôr o patrimônio deles em
risco.
O dinheiro passa por diversos fundos de
investimento no Brasil até seguir para Delaware na forma de empréstimos de
fachada. Depois de passar por outras empresas nos Estados Unidos, o capital
volta ao Brasil limpo, na forma de investimento externo. As facções criminosas
brasileiras, de acordo com Barreirinhas, lançam mão desse esquema, esmiuçado
recentemente na operação que teve como alvo a Refit. Um dos primeiros
desdobramentos da nova fase de cooperação deveria ser a desmontagem do circuito
conectado a empresas laranjas abertas em Delaware.
Uma inspiração para o Brasil está no México.
Ao assumir seu segundo mandato, Trump classificou seis cartéis mexicanos do
narcotráfico como organizações terroristas e declarou emergência na fronteira
mexicana, ameaçando intervenção. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, ao
mesmo tempo que declarava não admitir intervenção estrangeira, reforçou a
vigilância, manteve-se em contato com Trump e soube aproveitar o canal de
diálogo.
A troca de informações permitiu avanços na repressão ao tráfico, desbaratando laboratórios clandestinos de fentanil, opiáceo responsável por uma epidemia de mortes por overdose nos Estados Unidos. Em janeiro do ano passado, nota oficial do Departamento de Estado anunciou a formação de um grupo bilateral de segurança. O exemplo mexicano mostra que, em vez de perder tempo num embate estéril que não interessa a ninguém, o melhor é trabalhar lado a lado.
‘Roubo descarado’
Por O Estado de S. Paulo
Duro discurso do publisher do ‘NYT’ chama a
atenção para a captura ilegal de conteúdo jornalístico por empresas de IA e
serve como reflexão sobre o futuro da imprensa e da democracia
Há poucos dias, o publisher do The New York Times, A. G.
Sulzberger, fez um discurso na abertura do congresso anual da Associação
Mundial dos Editores de Notícias (WAN-IFRA, na sigla em inglês) que entrará
para a história como um dos mais contundentes manifestos em defesa do
jornalismo profissional. As empresas de inteligência artificial (IA), disse
Sulzberger, “são parasitas, e não parceiras”, dos jornais. O modelo de negócios
dessas empresas baseia-se no que ele chamou de “roubo descarado” de conteúdos
jornalísticos para treinar chatbots e, assim, auferir bilhões de dólares sem
que os produtores desse riquíssimo material sejam devidamente remunerados. De
fato, não há outro nome para isso senão roubo.
A questão é muito simples: levar informação
de qualidade aos cidadãos, húmus das sociedades livres, custa muito caro. Uma
enorme quantidade de dinheiro é investida pelas empresas de comunicação na
formação de equipes, no investimento nas redações e na manutenção de uma estrutura
de governança que sustente a independência editorial. Ciente disso, Sulzberger
não vituperou contra o progresso tecnológico – o que seria uma tolice –, mas
sim lançou luz sobre um problema muito específico: a “apropriação sistemática”
de conteúdos de terceiros sem a devida autorização, sem remuneração justa e sem
respeito às mais elementares regras de proteção da propriedade intelectual.
Há anos, a relação entre as chamadas big
techs e as empresas de comunicação tem sido marcada por um desequilíbrio gritante.
Contudo, antes do advento da IA generativa, ao menos havia algum grau de
reciprocidade. Ferramentas de busca e mídias sociais, por exemplo, apropriam-se
de parcela crescente das verbas publicitárias que outrora eram destinadas aos
jornais, mas ainda direcionam parte de seu público para os portais
jornalísticos. Já o modelo das empresas de IA é escandalosamente predatório.
Usuários de chatbots já recebem conteúdos na íntegra, sem precisar consultar a
fonte da informação.
Se as empresas de IA não apenas se apropriam
do jornalismo profissional, como também sequestram sua audiência, reduzindo
page views, assinaturas, publicidade e relacionamento direto entre jornais e
seus leitores, uma pergunta se impõe: se as empresas de IA matarem de vez o
jornalismo profissional, quem haverá de alimentar suas ferramentas? Os
produtores de desinformação que infestam as redes sociais? O risco apontado por
Sulzberger não é trivial. Se a produção de informação original deixar de ser
economicamente viável, a única matéria-prima confiável que ainda alimenta os
sistemas de IA começará a escassear e a desordem informacional será a nova
ordem.
As empresas de IA dependem totalmente do
jornalismo profissional para oferecer respostas confiáveis e contextualizadas a
seus usuários. Ao mesmo tempo, seu modelo de negócios destrói os meios que
tornam possível a existência desse mesmo jornalismo. Essa dinâmica perversa não
ameaça apenas a sustentabilidade das empresas de comunicação – inclusive as
gigantes do setor, como o The
New York Times. Ao fim e ao cabo, o que está sob ataque é a
qualidade do ecossistema informacional como um todo, e, consequentemente, a
força da democracia.
A solução, obviamente, não é rejeitar a
inovação, o que Sulzberger nem sequer sugeriu. A IA deve ser incorporada ao
jornalismo profissional de maneira transparente e responsável – e limitada a
atividades muitíssimo específicas –, além de ser sustentada por relações
comerciais honestas. Se empresas de IA utilizam conteúdos produzidos pelas
empresas de comunicação para desenvolver e aprimorar seus produtos, nada mais
justo do que repassar uma parte de suas receitas a quem realizou o trabalho
original. Isso é o mínimo que se pode pedir, comercial, jurídica e moralmente.
Desenvolvimento da IA e fortalecimento do jornalismo
profissional não são ideias antitéticas. Muito ao contrário. Quanto mais
sustentáveis forem as empresas de comunicação, melhores serão as bases sobre as
quais as ferramentas de IA poderão operar. Essa relação não só pode, como deve
ser de cooperação. E cooperação implica respeito aos direitos de quem produz
conteúdo e valorização dos altos custos envolvidos nessa produção.
A arte parlamentar de não deixar vestígios
Por O Estado de S. Paulo
Sem critérios claros, a votação simbólica,
mecanismo criado para agilizar consensos no Congresso, virou escudo para
ocultar votos em pautas contrárias ao interesse público
A votação simbólica talvez seja hoje um dos
instrumentos mais convenientes da política brasileira para diluir
responsabilidades individuais dentro do Congresso Nacional. Criado para
acelerar deliberações consensuais e destravar a pauta legislativa em matérias
de baixa controvérsia, o mecanismo vem sendo progressivamente banalizado como
uma espécie de zona de conforto institucional para parlamentares que desejam
aprovar projetos polêmicos sem deixar registrada a própria digital política.
Em tese, o modelo tem utilidade legítima. Em
votações simbólicas, o presidente da sessão pergunta aos parlamentares
favoráveis que permaneçam como estão, sem registro individualizado dos votos.
Quando há amplo acordo em torno de determinada proposta, o rito ajuda a
conferir celeridade ao funcionamento das Casas legislativas. Não faria sentido
transformar toda deliberação em longos processos nominais quando há evidente
convergência política ou matérias meramente procedimentais.
O problema começa quando aquilo que deveria
ser exceção operacional passa a funcionar como escudo político. Reportagem
publicada pela Folha de
S.Paulo mostrou que a prática se tornou dominante nas duas
Casas legislativas. Na Câmara, em 2025 (até novembro), houve 420 votações
simbólicas, ante 215 nominais. No ano anterior, foram 369 simbólicas, ante 150
nominais. No Senado, a diferença também chama a atenção: 126 votações
simbólicas e apenas 25 nominais em 2025. Em 2024, foram 175 simbólicas, ante 41
nominais. Para um Congresso tão afeito à liturgia da exposição pública em
períodos eleitorais, chama a atenção o apreço quase monástico pelo anonimato
quando determinados temas chegam ao plenário.
Entre as propostas aprovadas de forma
simbólica pelos deputados neste ano está o projeto de minirreforma eleitoral
que flexibiliza regras de prestação de contas de partidos e campanhas, limita
punições financeiras e amplia a proteção ao uso dos fundos partidário e
eleitoral.
Os regimentos da Câmara e do Senado
estabelecem situações em que a votação nominal é obrigatória, mas não criam um
critério geral que imponha esse tipo de votação para matérias de maior
relevância política ou impacto social. Na prática, fora das hipóteses regimentais
específicas, prevalece ampla margem de decisão política da Presidência da
sessão e das lideranças partidárias sobre a adoção do voto simbólico ou
nominal. O resultado é um sistema bastante flexível, que permite a aprovação de
temas altamente controversos sem que o eleitor identifique com clareza a
posição individual de cada parlamentar.
Não se trata de detalhe burocrático. O voto
parlamentar é parte essencial da representação democrática. Deputados e
senadores não foram eleitos apenas para ocupar cadeiras, negociar cargos ou
participar de articulações internas. Foram escolhidos justamente para assumir
publicamente posições políticas diante da sociedade. A lógica da representação
pressupõe responsabilidade, transparência e capacidade de prestação de contas.
Sem isso, enfraquece a própria relação entre eleitor e eleito.
A banalização das votações simbólicas vai na
direção oposta do discurso que domina as campanhas eleitorais. Em períodos de
eleição, candidatos se apresentam como defensores intransigentes de princípios,
valores e agendas públicas. Gravam vídeos, produzem peças publicitárias,
publicam manifestos e fazem questão de vocalizar posicionamentos sobre
praticamente todos os temas nacionais. Já dentro do Parlamento, muitos dos
mesmos políticos passam a se esconder atrás de mecanismos regimentais que
evitam exposição pública em votações potencialmente desgastantes.
O resultado é um ambiente de conveniência
coletiva. Aprova-se o projeto, distribuem-se os benefícios políticos internos,
preserva-se o interesse corporativo da classe e, ao mesmo tempo, dilui-se o
custo individual perante a opinião pública. É improvável, contudo, que o
próprio Congresso avance espontaneamente para restringir esse expediente.
A democracia representativa exige mais do que
discursos em campanha. Exige coragem institucional para sustentar publicamente
os próprios votos. Quem legisla em nome da população não deveria temer deixar
registrado aquilo que decidiu aprovar.
O dano colateral do Novo Fundeb
Por O Estado de S. Paulo
Estudo do FGV Ibre associa mudança no fundo à
alta de professores temporários
Um estudo publicado no blog do Instituto
Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) apresentou um
diagnóstico intrigante do impacto do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da
Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) sobre o
perfil dos professores. Criado para incrementar a remuneração e valorizar os
docentes, o Fundeb pode ter tido um efeito colateral adverso, impulsionando uma
espécie de precarização do magistério nas redes municipais, com o incentivo da
contratação de professores temporários.
Os pesquisadores Rafael Barros Barbosa,
Antonia Amanda Araujo e Yves Miguel Barbosa Sousa, com base em dados do
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), associam o
aumento da contratação dos temporários à entrada em vigor das regras do chamado
Novo Fundeb, em 2021. Naquele ano, ficou determinado que a complementação da
União para abastecê-lo, então de 10%, subiria de maneira gradual até chegar a
23% este ano. Já o montante dos recursos recebidos pelos prefeitos que devem
ser gastos com a remuneração dos professores passou de 60% para 70%.
Desde então, o número de professores
temporários só cresceu, saltando de 296 mil para 471 mil, uma alta de 58% em
apenas três anos. Para Barbosa, Araujo e Sousa, embora mais análises sejam
bem-vindas para explicar o fenômeno, esse recente movimento não é aleatório:
trata-se de uma decisão política. Como são obrigados a gastar mais com
remuneração, aos prefeitos não restou alternativa a não ser contratar
professores temporários para evitar o aumento dos gastos permanentes, como os
reajustes de salários e a contratação de professores efetivos.
Os gestores públicos municipais, a bem da
verdade, estão certos, haja vista que o Fundeb é uma cesta composta por
impostos cíclicos, como o ICMS, o IPVA e o IPI-Exportações, cuja arrecadação
depende do vigor da economia. Ou seja, se a atividade econômica se retrai, as
receitas caem. Logo, aumentar os salários dos professores já contratados ou
contratar novos professores efetivos são decisões de elevado risco, e, para os
gestores públicos, nada melhor do que a prudência com os gastos públicos,
comprometendo-se com a responsabilidade fiscal.
De um lado, há uma legítima preocupação com
as contas públicas e, de outro, há a necessidade de oferecer educação básica de
qualidade. E a contratação de professores temporários em nada ajuda. Ao
contrário: esses profissionais têm formação de baixa qualidade, são menos
experientes, não criam vínculos com a comunidade escolar e não executam o
projeto pedagógico de forma continuada. E tudo isso prejudica o nível de
aprendizagem dos alunos.
Os achados de Barbosa, Araujo e Sousa revelam um dilema: uma política pública mal desenhada pode degradar, em vez de melhorar, a educação básica no Brasil. Novos estudos podem indicar a solução do problema, mas o que já se pode afirmar é que políticas públicas devem ser elaboradas com base em evidências, para que sejam eficazes, e estar sujeitas a constantes revisões, para que sejam corrigidas. E, ao que tudo indica, o Novo Fundeb precisa de ajustes urgentemente.
Recuo da CVM sobre informe de
sustentabilidade é nocivo
Por Valor Econômico
A defesa de regras de sustentabilidade por boa parte das empresas indica que estão dispostas a agir para combater um cenário hostil à vida humana no planeta
Além dos melhores rivais que terão de encarar
nos gramados, as seleções de futebol que disputarão a Copa do Mundo a partir de
quinta-feira enfrentarão outro inimigo poderoso, contra o qual nada poderão
fazer: o aquecimento global. As temperaturas estão subindo, com um ano recorde
atrás do outro, a ponto de a Organização das Nações Unidas advertir, pela
primeira vez no evento, que pelo menos um quarto das partidas do maior torneio
futebolístico do planeta poderá se deparar com uma situação contra a qual não
há ataque ou defesa possível: jogadores e torcidas serão afetadas pelo estresse
térmico. Entre elas, a partida final em Nova York.
Os efeitos do aquecimento global tornaram-se
riscos generalizados, cada vez mais ameaçadores, e o Brasil tem tomado
iniciativas importantes para evitar seu agravamento e se proteger deles. Há
retrocessos imprevisíveis, no entanto, como a resolução de 29 de maio da
Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que revogou a obrigatoriedade da
divulgação de informações financeiras sobre sustentabilidade pelas empresas de
capital aberto.
Cada vez mais as mudanças climáticas
interferem nas atividades humanas e os esportes dependem de ambiente adequado
para sua prática. O painel de mudanças climáticas da ONU (UNFCCC) realizou
pesquisas e concluiu que 75% dos atletas de alto rendimento afirmam que elas já
afetam seu desempenho. Na avaliação dos estádios nos quais será disputada a
Copa do Mundo, pelo menos 14 de 16 não têm parâmetros seguros de abrigo para
calor extremo, chuvas intensas ou enchentes. Como em vários outros setores de
atividades, a infraestrutura para os esportes terá de ser modificada para se
adaptar a condições cada vez mais adversas.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM)
alertou que prevê temperaturas médias globais em níveis próximos dos recordes
nos próximos cinco anos. Em seu mais recente relatório “Atualização Global
Anual-Decenal”, de fim de maio, a OMM projeta 86% de chance de que um ano entre
2026 e 2030 ultrapasse 2024 como o mais quente já registrado desde 1850, o que
pode acontecer em 2027, com a combinação das mudanças climáticas e do novo El
Niño.
Enquanto governo e entidades da sociedade
civil se preparam para se defender de um El Niño que pode ser severo, e
comemoram a redução do desmatamento, a CVM recuou de uma diretriz de 2023, a
resolução 193, que trazia regras para a elaboração e a divulgação de relatórios
de sustentabilidade alinhados aos padrões globais IFRS S1 e S2, da base do
International Sustainability Standards Board (ISSB), com informações integradas
de cunho financeiro e ESG.
Em 2024 e 2025, a apresentação dos informes
foi voluntária, e, a partir do exercício fiscal deste ano, passaria a ser
obrigatória. No início do ano, a CVM havia reafirmado a resolução em resposta à
manifestação da Associação Brasileira das Empresas de Capital Aberto (Abrasca),
que pedia o fim da regra ou seu adiamento por três anos, entre outras motivos
pelo alto custo para cumprimento das exigências. A reviravolta da CVM
surpreendeu entidades do mercado de capitais e o governo. A secretária
extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, Cristina Reis,
classificou a mudança como “indigna”, com potencial de trazer “quebra de
credibilidade” para a autarquia e afetar investimentos nas companhias (Valor, 1/6). A secretaria e a
Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) analisam se a mudança seguiu os
ritos necessários e se os órgãos poderiam atuar no caso.
Em comunicado conjunto, a Federação
Brasileira de Bancos (Febraban) e a Associação Brasileira das Entidades dos
Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) defenderam a divulgação de
informações relacionadas à sustentabilidade “consistentes, comparáveis e
alinhadas às melhores práticas internacionais”. Também se manifestaram contra o
recuo da CVM a Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), a Associação
dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais (Apimec), o Conselho
Federal de Contabilidade (CFC), o Instituto de Auditoria Independente do
Brasil, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e Associação
Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, assim como
empresários e centenas de associações civis, como o Instituto Clima e Sociedade
e o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).
A massiva reação evidencia que as companhias
em toda a indústria financeira, incluindo gestoras de recursos e
securitizadoras, já vinham se adaptando à exigência, como parte de uma agenda
para dar mais transparência e tornar comparáveis os informes de companhias que
são emissoras de dívida ou ações, para dar mais segurança para o investidor. A
defesa de regras de sustentabilidade por boa parte das empresas indica que
estão dispostas a agir para combater um cenário hostil à vida humana no
planeta.
A CVM poderia escalonar a entrada em vigor das exigências, das menos às mais complexas, e estender o horizonte em que serão plenamente vigentes. A simples revogação é incompreensível e deletéria.
Brasil precisa ter atenção integral às
estradas
Por Correio Braziliense
Paralelamente à questão humanitária, as
rodovias federais consolidam-se como vias de escoamento para as facções em
diversas frentes
No Brasil, as estradas são a rota logística e
a espinha dorsal da integração. Por razões históricas e políticas, o país
concentrou capital nesse meio de transporte e, hoje, essa escolha carrega
desafios tão grandes quanto a extensão do território nacional por onde passa o
asfalto.
O Produto Interno Bruto (PIB) pulsa pelas
rodovias, fazendo delas artérias vitais para o desenvolvimento econômico e
social. Quase a totalidade da riqueza depende das pistas para chegar aos portos
e centros de consumo. Sem viajar sobre rodas, a produção trava e não atinge o
fim do ciclo — seja para exportação, seja para o abastecimento local. E, nesse
percurso, encontra, entre os obstáculos, a imprudência e a criminalidade.
Levantamento mais recente da Polícia
Rodoviária Federal (PRF), referente a 2025, acende o sinal de alerta para o
comportamento dos motoristas no que diz respeito à imprudência. No ano passado,
foram 72.529 acidentes nas estradas federais, com 83.550 feridos e 6.043
mortes. O relatório ainda mostra que o volume de multas ultrapassou a marca de
10,2 milhões de registros, com o excesso de velocidade atingindo o alarmante
recorde histórico de 7.237.407 autuações.
A infraestrutura segue ditando a gravidade
das ocorrências, já que os números revelam 4.143 óbitos nas pistas simples,
contra 1.603 nas duplas. O maior motivo são as colisões frontais causadas por
ultrapassagens malsucedidas.
Fica claro que a combinação de risco assumido
e falta de investimento é determinante para os desastres noticiados
diariamente. O desrespeito às leis por parte dos condutores, a passividade da
sociedade diante de tamanha tragédia e a morosidade do poder público em
implantar soluções resultam em sofrimento e prejuízo irreparáveis.
O drama viário brasileiro também avança na
esfera da criminalidade. Segundo o anuário da PRF, o seu braço de inteligência
tem sido cada vez mais acionado para ocorrências de combate ao tráfico, danos
ambientais e desarmamento. Em 2025, a interceptação de entorpecentes pelos
agentes ultrapassou 760 toneladas. Na área ambiental, o destaque ficou com o
recolhimento histórico de 103kg de ouro ilegal, de uma só vez, em Boa Vista
(RR) — no consolidado do ano, foram encontrados 213,68kg do precioso minério
sem comprovação legal. E um arsenal acabou apreendido: 1.124 armas, incluindo
63 fuzis de alto calibre e mais de 59 mil munições.
As informações comprovam que, paralelamente à
questão humanitária, as estradas federais consolidam-se como vias de escoamento
para as facções em diversas frentes. Enfrentar essa realidade exige ir muito
além da tradicional fiscalização. A modernização tecnológica e o policiamento
orientado são medidas indispensáveis, mas ineficazes se operarem isolados.
Assim como quem está ao volante, o Brasil precisa ter atenção integral nas estradas. É necessário escolher a prudência e o investimento na segurança, em um caminho que leve ao fim das perdas humanas e financeiras. Nas rodovias brasileiras, a rapidez deve estar nessa busca. Afinal, chegar ao destino — das viagens e do desenvolvimento — é o principal objetivo da jornada das pessoas e da nação.
Reforço da segurança nas eleições
Por O Povo (CE)
É usual que o Tribunal Regional Eleitoral
(TRE-CE) delibere sobre a necessidade ou não de reforço na segurança durante o
pleito eleitoral, de modo que nada há na atitude que devesse produzir disputas
políticas. Trata-se de ato burocrático, institucional, diante do qual os
desembargadores ponderam se é o caso de solicitar envio de tropas federais.
Considerando que a resposta do colegiado seja
positiva, então o tribunal a chancela, encaminhando a demanda para apreciação
do Governo do Estado, que a acata ou a rejeita. Em caso de acolhimento, cabe ao
chefe do Executivo acionar o TSE, que de pronto se põe a avaliar o pedido.
Note-se que, entre a intenção e o feito,
passa-se de um órgão para outro, de um poder para outro poder, quando
finalmente se decide se é razoável deslocar contingente militar e para onde, ou
seja, para quais municípios do estado.
Neste ano não se faz qualquer movimento
diferente do que já se viu em anos anteriores, quando os magistrados, por
entenderem que é mais inteligente se antecipar aos acontecimentos do que
esperá-los, aprovaram solicitação desses agentes a fim de assegurar que o
processo eleitoral transcorra da maneira mais segura.
É o que defende O POVO, isto é, que esse
trâmite seja visto como corriqueiro, não se contaminando politicamente, e que o
TSE compreenda que já existem razões pelas quais seria prudente exigir que as
forças extras se somem ao aparato local para garantir que a campanha e o dia da
votação no Ceará passem sem qualquer tipo de sobressalto.
E, na hipótese de um, que o Estado consiga
responder rápida e prontamente ao tamanho dos desafios que se colocam ao
exercício democrático da vontade do eleitor, como infelizmente tem se tornado
frequente em todo o País.
Fora desse enquadramento, tudo o mais é
retórica eleitoral, que é natural numa disputa, mas não a ponto de atrapalhar a
capacidade de julgamento das cortes, de maneira que se sintam pressionadas a
tomar uma ou outra decisão.
Afinal, um cenário está se desenhando desde
há muito. Nele, os grupos criminosos se projetam como desafio à democracia por
si, como se vê nos inúmeros julgamentos que resultam na cassação de prefeitos e
parlamentares por fundamentados vínculos com facções.
Esse é um dado da realidade - não cabe
ignorá-lo ou amplificá-lo. Considerar o problema sob esse ângulo, aliás, não
significa trivializar a violência, mas agir para atacá-la sem demagogia e
sensacionalismo, conferindo ao fenômeno a exata dimensão que ele tem.
Logo, que o TRE-CE, se assim o entender,
aprove o uso especial das forças no Ceará nas eleições, com o Governo Estadual
assentindo para essa possibilidade sem receio de prejudicar eventuais
interesses eleitorais de quem quer que seja.
Não custa repisar: a segurança é tema por demais importante para que dele a coletividade se ocupe apenas sob a ótica da dinâmica das eleições, merecendo consideração política e técnica sobretudo quando os holofotes não incidem sobre ele.

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