quarta-feira, 24 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

BC peca por falta de clareza em decisão sobre juros

Por O Globo

É defensável evitar flutuação abrupta na Selic, mas faltou transparência à forma como Copom se justificou

Depois da reunião na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) anunciou o terceiro corte consecutivo da taxa básica de juros, a Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano. A decisão era esperada, mas o comunicado divulgado em seguida gerou ruído. Mudanças na Selic são extremamente importantes para as projeções e expectativas do mercado financeiro, mas não têm consequências imediatas na economia. Quando muda a Selic, o Copom calcula os efeitos num período conhecido como “horizonte relevante”, intervalo de 18 meses, hoje com duração até o quarto trimestre de 2027. Ao mencionar o primeiro trimestre de 2028, porém, o comunicado causou estranheza. Por que a autoridade monetária teve de alongar o prazo de modo a justificar o corte nos juros? Teria sido falta de cautela com a inflação?

Ante os questionamentos, aumentou a expectativa com a ata da reunião, divulgada nesta terça-feira. O texto da ata não desfez as interrogações do mercado sobre o rumo da política monetária. Para os analistas, ficou difícil prever se na próxima reunião o Copom manterá a Selic em 14,25%, interrompendo o atual ciclo de queda, ou se prosseguirá nos cortes dependendo das condições.

Desde o ano passado, a meta de inflação passou a ser avaliada pelo IPCA acumulado em 12 meses. Ela só é considerada descumprida se o índice ficar por seis meses consecutivos fora do intervalo de tolerância — a faixa de 1,5% a 4,5%, com centro em 3%. Atualmente, esse índice está em 4,72%, e a última previsão dos economistas ouvidos pelo BC o situa em 4,15% no final de 2027. Por isso alguns analistas esperavam que não houvesse corte na Selic.

Na ata, o Copom reconhece a deterioração inflacionária, mas descreve um quadro ligeiramente diferente. Com base nas projeções para 2028, argumenta que, pelos seus cálculos, a inflação acumulada no quarto trimestre de 2027 estará em 3,7%, mais perto do centro da meta. Por isso afirma ter julgado “como mais adequadas, neste momento, trajetórias de Selic menos discrepantes” das preconizadas pelo mercado “por evitarem induzir volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros e agregados macroeconômicos”. Defende não reagir “integralmente a variações de preços decorrentes de choques de oferta, que no momento atual incluem incertezas relevantes”. E cita o conflito no Oriente Médio e o fenômeno climático El Niño.

Embora o próprio Copom reconheça a nova realidade inflacionária, aparentemente julgou prematuro anunciar o fim do ciclo de queda, diante da incerteza que poderia justificar novo corte mais diante. É perfeitamente defensável, como argumenta a ata, evitar flutuações abruptas na Selic. Faltou, porém, mais transparência à forma como o Copom justificou a decisão. A mensagem parece defender uma convergência mais lenta à meta, daí o “horizonte relevante” ter se estendido além dos 18 meses de praxe. Só que a justificativa não ficou explícita. Nada disso significa que o BC tenha se tornado mais leniente com a inflação ou sido motivado pelo calendário eleitoral. Apenas que pecou por falta de clareza. Para reduzir os ruídos, o Copom terá doravante de ser mais explícito sobre como vê a política monetária com “momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração”.

Adesão do Rio ao Propag deve trazer esperança, mas inspirar cautela

Por O Globo

Renegociação da dívida liberará recursos para investimentos, mas não é salvo-conduto para gastança

O Rio precisa aproveitar com sabedoria a adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Como já aconteceu em 1993, 1997 e 2016, o Propag promove alívio nas dívidas dos estados com a União. Em troca de contrapartidas como cessão de ativos e investimentos sociais obrigatórios, o estado deixará de pagar juros sobre a dívida e obterá redução substancial tanto no valor total quanto nas parcelas mensais. O pior que pode acontecer é a folga aberta no caixa ser usada para ampliar gastos sem controle, como no passado.

Pelo Regime de Recuperação Fiscal (RRF) — a que o Rio aderiu em 2022 e que abandonará agora no fim deste mês—, o estado devia R$ 210 bilhões, que deveriam ser pagos até 2052 em parcelas corrigidas pela inflação, mais 4% de juros ao ano. Tal critério, embora mais brando que o vigente antes do RRF, ainda tornava a dívida impagável — diante do crescimento exponencial, as parcelas tiveram de ser congeladas pelo Supremo em R$ 436 milhões. Pelo novo Propag, o Rio, graças à entrega de vários ativos à União, passará a dever R$ 168,5 bilhões, que deverão ser pagos até 2056 em parcelas mensais de R$ 119 milhões corrigidas apenas pela inflação. No RRF, o gasto com as parcelas seria de R$ 5,2 bilhões neste ano. Se voltasse ao regime anterior, seriam R$ 9,5 bilhões. Com o Propag, serão R$ 3,3 bilhões — uma redução substancial.

Duas condições, contudo, são fundamentais para o Propag ser bem-sucedido. A primeira é os governantes evitarem cair na tentação criada por todo programa de redução de dívidas: acelerar os gastos e voltar a endividar-se, apostando em novo alívio mais adiante. O estado não pode depender eternamente da União, e não há como reduzir o endividamento a patamar razoável sem cuidar da saúde fiscal. O governador em exercício, Ricardo Couto, teve o bom senso de adotar um plano de 30 metas para zerar o déficit estimado em R$ 18,9 bilhões, ante receita de R$ 108 bilhões. São necessárias medidas estruturais para garantir redução consistente de gastos ao longo do tempo.

A segunda condição para o êxito do Propag é assegurar a aplicação virtuosa dos recursos destinados à área social como contrapartida para a redução de juros. Ao todo, o estado se comprometeu a investir em saúde, educação e segurança 1% do saldo devedor todo ano, ou mais de R$ 900 milhões em 2026 e R$ 2,2 bilhões em 2027. O governo fala em destinar a maior parte dos recursos ao ensino profissionalizante, uma área estratégica. É fundamental zelar pela gestão competente de tais investimentos, para que o dinheiro não seja desperdiçado nos desvãos da máquina estatal e, em vez disso, resulte em políticas públicas de eficácia comprovada, monitoradas com frequência.

Toda renegociação de dívidas deve inspirar cautela, mas trazer esperança. Cautela, para que não sirva de estímulo à gastança que cria novas dívidas à espera da próxima renegociação. Mas esperança de que o fim da asfixia financeira libere recursos para investimentos essenciais, de que nenhum estado pode abrir mão. Ambas as atitudes são recomendáveis diante do Propag.

Proposta de Gilmar contra pauta-bomba é avanço

Por Folha de S. Paulo

Ministro do STF apresenta texto para conter criação de gastos sem indicar custos ou fonte de receita

Providência não deve ser vista como panaceia; assim como o Congresso, Executivo distribui benesses driblando restrições orçamentárias

Merece apoio a proposta do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para o controle de projetos que elevem gastos ou subsídios tributários sem obedecer às exigências da legislação —como aqueles que, no jargão de Brasília, tornaram-se conhecidos como pautas-bomba.

O magistrado submeteu ao exame da corte o entendimento de que deve ser declarado inconstitucional qualquer ato, nos três níveis de governo, "que crie ou altere despesa obrigatória, conceda benefício fiscal ou implique renúncia de receita sem prévia estimativa de impacto orçamentário e financeiro, bem como sem a indicação das respectivas medidas compensatórias".

Não se trata de regras tiradas da cartola. Elas vigoram, ao menos no papel, há longos 26 anos, estabelecidas pelos artigos 14 a 17 da Lei de Responsabilidade Fiscal. Há uma década, a exigência de cálculo dos custos fiscais foi inscrita na Constituição pela emenda que impôs o já revogado teto de gastos federais.

O que a proposta de Gilmar busca é estabelecer uma súmula vinculante —vale dizer, uma orientação a ser seguida obrigatoriamente por todos os órgãos do Judiciário e entes da Federação. Com isso, seria agilizado o exame e a derrubada de medidas que avançam sobre o dinheiro do contribuinte ao sabor do oportunismo político e eleitoral.

A inobservância desses princípios básicos, afinal, está na origem das pautas-bomba. Aparentes bondades são oferecidas a setores da sociedade —mais salários ou transferências de renda, menos impostos, empréstimos a juros baixos, perdões de dívida— sem que se saiba o tamanho da conta e como ela será paga.

Tudo isso considerado, a aprovação de uma súmula vinculante, embora sem dúvida positiva, não deve ser encarada como panaceia. Não foram panaceia, aliás, os dispositivos há muito tempo incluídos na lei e na Carta.

A iniciativa de Gilmar foi instigada pela reação do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a projetos perdulários que avançam no Congresso Nacional, casos da renegociação de dívidas do agronegócio e da ampliação da isenção tributária das igrejas. No entanto o Executivo, e não apenas nas gestões petistas, é também useiro e vezeiro em distribuir benesses driblando restrições orçamentárias.

Artifícios para tanto são bem conhecidos. Os impactos orçamentários dos projetos podem ser subestimados, bem como podem ser superestimadas as fontes de receita e as medidas compensatórias indicadas. Quando estão em jogo temas de apelo popular, como a redução do Imposto de Renda ou os subsídios aos combustíveis, a disposição para questionamentos é mínima.

É de esperar que aperfeiçoamentos legais e jurídicos contribuam para o aprendizado, em atraso na política e na sociedade, sobre a importância da saúde das contas públicas. Aqui, ela só tem recebido a devida atenção nos momentos de crise.

Lugar de vacina também é na escola

Por Folha de S. Paulo

Políticas que articulam o SUS à rede de ensino mostram-se eficazes para alavancar cobertura da imunização

Taxas começaram a cair em 2016 e ainda mais na pandemia; em 2025, a cobertura vacinal no Paraná contra o HPV ficou acima da média nacional

A Covid-19 acentuou o movimento de queda da imunização infantil no Brasil verificado anos antes da pandemia. A cobertura vacinal contra doenças como tuberculose, poliomielite, difteria, tétano e coqueluche, que desde o início do século rondava 99%, começou a cair para 95% (o índice adequado) e ainda menos a partir de 2016.

As taxas despencaram para a faixa dos 60% em 2021, quando o Brasil figurou na lista dos 20 países com maior número de crianças não vacinadas, elaborada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Unicef.

Em 2024, o país saiu da lista, mas retornou em 2025. As taxas, que se referem ao ano anterior da publicação do ranking, subiram, mas ainda não superaram 95%.

Para melhorar os indicadores, estados, por meio de articulações com municípios e o Ministério da Saúde, têm desenvolvido programas voltados para solucionar dificuldades locais. Não basta apenas adquirir os imunizantes, é preciso usar recursos de forma estratégica para garantir distribuição e aplicação eficazes.

Na semana passada, 109 experiências exitosas nesse sentido foram apresentadas em uma mostra promovida pelo Conselho Nacional de Secretarias de Saúde, na sede da Organização Pan-Americana da Saúde, em Brasília.

A iniciativa do Paraná é relevante porque evidencia a importância de programas integrados com o setor de educação.

Em 2018, uma lei estadual passou a exigir a apresentação da carteira de vacinação para que alunos possam frequentar as redes pública e privada. A medida não proíbe a matrícula, mas impõe o acionamento do Conselho Tutelar e do Ministério Público, no caso de falta do documento.

A ação também estabelece parcerias para realizar imunização nas escolas, o que exige orientação de funcionários e professores e conscientização de pais para que autorizem a prática.

O programa se mostrou exitoso especialmente no estrato de crianças mais velhas e de adolescentes, que tendem a frequentar menos os serviços de saúde.

Em 2024, o Paraná obteve as maiores taxas de cobertura da década entre os estados brasileiros. Em 2025, a da vacina contra o HPV na faixa de 9 a 14 anos foi de 91,5% entre meninos e de 98,9% entre meninas —acima da meta de 90% e das médias nacionais de 74,5% e 86%, respectivamente.

A iniciativa expõe o potencial da alocação técnica de recursos e de políticas públicas integradas às redes de ensino para que o Brasil retorne aos patamares de excelência em vacinação anteriores à pandemia.

Um prêmio à truculência

Por O Estado de S. Paulo

Ao anistiar multas aplicadas a caminhoneiros que bloquearam rodovias após eleição de 2022, Câmara sinaliza que categorias capazes de causar danos ao País podem barganhar suas punições

Poucas categorias conseguem extrair tantas vantagens do poder público quanto os caminhoneiros. Desde a greve que paralisou o País em 2018, conquistaram um cartel do frete chancelado pelo Estado, receberam subsídios diversos, obtiveram sucessivas concessões e seguiram sendo tratados como um grupo ao qual o Congresso e o governo federal parecem dever satisfações permanentes. Como se nada disso bastasse, os caminhoneiros acabam de ser agraciados com uma anistia de multas.

A Câmara dos Deputados decidiu desta vez anular multas aplicadas aos participantes dos bloqueios de rodovias em protesto ao resultado da eleição de 2022. O perdão foi incluído como um “jabuti” pelo relator da medida provisória sobre o piso do frete, deputado Zé Trovão (PL-SC), e aprovado sem debate compatível com a gravidade do tema. Segundo seus defensores, as penalidades teriam sido excessivas e acabaram recaindo sobre trabalhadores que apenas exerciam seu direito de manifestação.

O discurso é conveniente, mas omite o essencial. As sanções não foram aplicadas porque caminhoneiros expressaram opiniões políticas. Foram impostas porque rodovias foram bloqueadas após a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas, interrompendo a circulação de pessoas e mercadorias em diversas regiões do País, ademais em desafio a decisões judiciais que determinavam a imediata desobstrução das estradas. As multas, portanto, prestavam-se a reafirmar um princípio elementar de qualquer democracia digna do nome: o inconformismo político não autoriza ninguém a paralisar o País nem a impor custos à coletividade.

A tentativa de apagar as consequências dos bloqueios de 2022 apenas reforça um padrão que se consolidou ao longo dos últimos anos. A greve dos caminhoneiros de 2018 foi um dos exemplos mais eloquentes da incapacidade do Estado de fazer valer sua autoridade diante de grupos organizados e dispostos a explorar sua capacidade de pressão. Se é verdade que “sem caminhão o Brasil para”, como se lê em carrocerias Brasil afora, essa realidade econômica nem remotamente pode servir como uma espécie de imunidade política e jurídica.

Durante dez dias, naquele fatídico maio de 2018, o País sofreu com o desabastecimento de combustíveis, alimentos e insumos essenciais à saúde e ao agro. Empresas interromperam operações, cadeias produtivas foram desorganizadas e os prejuízos econômicos alcançaram cifras bilionárias. O então presidente Michel Temer poderia ter sido mais duro para restaurar a normalidade jurídica e econômica, mas cedeu à pressão do momento. E daquela decisão surgiu o tabelamento do frete, uma intervenção incompatível com os princípios da livre iniciativa e da livre concorrência consagrados pela Constituição.

Ao fim e ao cabo, uma concessão apresentada à época como excepcional acabou transformada em política permanente. O que deveria ter sido uma resposta emergencial a uma crise converteu-se em regra. Desde então, governos de diferentes orientações político-ideológicas preferiram administrar a distorção em vez de corrigi-la, consolidando o que pode muito bem ser lido como um prêmio a uma categoria que não titubeia em usar a truculência como arma de negociação.

Não por acaso, os caminhoneiros continuaram a ocupar posição privilegiada na política nacional. Vieram subsídios ao diesel, programas especiais de financiamento de veículos, benefícios regulatórios e sucessivos gestos de acomodação. Recentemente, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva destinou bilhões de reais a uma nova linha de crédito voltada à renovação da frota. As justificativas mudam conforme a conjuntura. A lógica permanece a mesma: evitar atritos com uma categoria cuja capacidade de mobilização continua a causar arrepios em Brasília.

A Câmara dos Deputados não apenas perdoou as multas justamente aplicadas aos caminhoneiros que, irresignados com a vitória de Lula, resolveram impor os custos de seu inconformismo ao País. A Casa relativizou a aplicação da lei, abrindo um precedente perigoso, sobretudo quando dirigido a uma categoria que, mais de uma vez, já demonstrou que usa a pressão pela força como meio de satisfação de seus interesses.

Estratégia perigosa

Por O Estado de S. Paulo

Governo admite aumentar limite de enquadramento dos MEIs para tentar barrar o reajuste do teto do Simples, mas Congresso pode fazê-lo ter de arcar com os custos das duas medidas

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o governo pretende enviar um projeto de lei ao Legislativo propondo o aumento do limite para enquadramento no regime tributário do Microempreendedor Individual (MEI). O teto atual, em vigor desde 2018, é de um faturamento anual de até R$ 81 mil. A proposta do Executivo é elevá-lo gradualmente a R$ 130 mil ao longo dos próximos dois anos.

A correção do teto do MEI é demanda antiga do setor e ressurgiu durante os debates sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais sem redução de salários. Para os parlamentares, seria uma maneira de compensar os empresários pelo aumento dos custos decorrentes da promulgação da PEC. Uma coisa não tem nada que ver com a outra, mas a urgência de Lula em arranjar uma bandeira eleitoral criou as condições ideais para o oportunismo.

Foi nesse contexto que os deputados aprovaram um requerimento de urgência para o Projeto de Lei Complementar (PLP) 108/2021, de iniciativa do Senado e já aprovado na Casa. A proposta reajusta o teto do MEI, mas também amplia os limites para enquadramento no Simples Nacional. Para microempresas, o teto do faturamento anual passaria de R$ 360 mil para R$ 800 mil, e para empresas de pequeno porte, de R$ 4,8 milhões para R$ 8 milhões.

Como se sabe, regimes simplificados de tributação implicam perda de arrecadação. E, no caso do PLP 108/2021, não se trata de uma renúncia qualquer, mas de cerca de R$ 50 bilhões anuais, sendo R$ 2 bilhões apenas com o MEI. Foi o que motivou o Ministério da Fazenda a incluí-lo na lista de nove pautas-bomba que estavam em discussão no Legislativo.

Uma semana depois, no entanto, Durigan mudou de ideia. O ministro, agora, apoia o aumento do teto do MEI, mas num novo projeto a ser elaborado e enviado pelo governo ao Legislativo. Já o aumento dos limites do Simples “está fora de questão”, segundo o volúvel ministro. Durigan não descartou nem mesmo a possibilidade de permitir que os MEIs possam contratar mais funcionários – hoje, podem empregar um.

De fato, no Orçamento deste ano o gasto tributário com o MEI é de R$ 11,3 bilhões, uma fração da estimativa de perdas com o Simples Nacional, de R$ 134,3 bilhões. Como estratégia de redução de danos do PLP, pode até fazer sentido, mas o ministro parece superestimar sua capacidade de negociação com o Congresso.

Dificilmente os parlamentares aceitariam priorizar o projeto que o governo pretende enviar, em detrimento da proposta que já está pronta para ser submetida ao plenário. E, ainda que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), faça um acordo para pautar o texto do governo, basta que um deputado apresente uma emenda para incluir a majoração do teto do Simples no texto – o Executivo, afinal, não dispõe de maioria para barrá-la.

Entre especialistas, não há dúvida de que os custos de regimes como o Simples e o MEI são maiores que seus benefícios. Os tetos atuais já são bastante generosos, maiores que os praticados em economias desenvolvidas. Ampliá-los é uma maneira de manter distorções e ineficiências na economia e ampliar o déficit da Previdência. Em vez de formalizar pequenos negócios e trabalhadores de baixa renda, os programas acabaram por incentivar a migração de regime por empresas que já existiam e a “pejotização” de profissionais qualificados que antes trabalhavam como celetistas, tudo para pagar menos impostos.

Um governo preocupado com o futuro do País trabalharia pela correção das distorções geradas por regimes simplificados – não simplesmente pela arrecadação maior, mas, sobretudo, pelo incremento da produtividade da economia. Afinal, é por causa de políticas como essas que o País cresce pouco e de maneira tão errática há décadas.

Mas o governo Lula não parece preocupado com o futuro do País. Seu horizonte vai somente até outubro, e sua prioridade é conquistar a maior quantidade de votos possíveis até lá. Em uma jogada perigosa, decidiu aceitar as perdas que virão do reajuste dos limites do MEI na expectativa de impedir uma renúncia ainda maior com a ampliação do teto do Simples. Ao fim, pode ter de arcar com os custos das duas medidas.

O colapso dos trabalhistas

Por O Estado de S. Paulo

Renúncia de Starmer expõe a tibieza de progressistas que prometem Estado social sem coragem para reformá-lo

A renúncia de Keir Starmer encerrou um dos governos mais breves e desmoralizados da história recente do Reino Unido. Menos de dois anos após uma vitória esmagadora, o líder trabalhista deixou o cargo de primeiro-ministro, anteontem, rejeitado pelo eleitorado e isolado em seu próprio partido.

Esse desfecho era previsível. Depois de 14 anos de governos conservadores marcados por escândalos, turbulência econômica e os duros efeitos do Brexit, os eleitores estavam exaustos. Muitos votaram menos a favor dos trabalhistas do que contra os conservadores. Starmer e seu partido, contudo, interpretaram esse repúdio como um mandato para a retomada de sua velha cartilha estatista.

Starmer foi acusado de não ter determinação ou visão. Mas a direção era clara – e equivocada. O governo aumentou impostos numa economia de crescimento anêmico, expandiu regulações, reforçou sindicatos e recuou diante de qualquer política de contenção de gastos. No dilema entre criar e distribuir riqueza, inclinou-se obstinadamente para a segunda opção – e acabou apenas gerindo a escassez.

A bem da verdade, os desafios do Reino Unido não começaram com Starmer. O crescimento é fraco há mais de uma década. A produtividade decepciona. A população envelhece. O sistema de saúde consome recursos crescentes. O Brexit reduziu margens comerciais que governos posteriores herdaram sem poder ignorar.

A crise, ademais, revela uma dificuldade estrutural da social-democracia europeia. Seus líderes prometem proteger o Estado de bem-estar, fortalecer serviços públicos e aliviar o custo de vida. O problema surge na hora de financiar essas promessas em economias que crescem pouco e acumulam dívida. A centro-esquerda quer preservar o Estado social, mas mostra pouca disposição para reformá-lo.

O impasse explica o avanço populista. Governos respondem por resultados; movimentos insurgentes, por expectativas. Um governo precisa explicar restrições fiscais e escolhas difíceis. Um demagogo pode prometer crescimento maior, imigração menor e novos benefícios – simultaneamente. É nesse ambiente que o Reform UK cresce e a fragmentação política britânica se aprofunda.

Andy Burnham, o favorito para assumir o governo, herdará a mesma economia, a mesma desconfiança dos mercados e as mesmas limitações orçamentárias que culminaram no enfraquecimento político e na renúncia de Starmer. Se responder ao fracasso deste intensificando a agenda trabalhista, descobrirá mais cedo do que tarde que entusiasmo político não altera aritmética fiscal.

O Reino Unido continua sendo uma democracia sólida e um país capaz de se reformar. A questão que se impõe ao sucessor de Starmer é menos partidária do que nacional: o que os britânicos estão dispostos a sacrificar para voltar a prosperar? Sem essa resposta, novos líderes continuarão chegando ao número 10 de Downing Street com promessas grandiosas e saindo dele carregando a mesma frustração.

BC indica ciclo de cortes com pausas para ‘calibragem’

Por Valor Econômico

Apesar de uma ata que sugere contradições, o BC não parece ter se desviado de parâmetros técnicos e de perseguir seu mandato de cumprir a meta de inflação

O Banco Central descolou-se das expectativas do mercado e deu a entender que a taxa de juros atual é tão contracionista que será possível atingir a meta de inflação de 3% mesmo com cortes modestos na Selic, como os que foram feitos até agora. O Comitê de Política Monetária (Copom) não explicitou quais trajetórias alternativas de juros utilizou que levariam o IPCA a se situar abaixo de 3% no primeiro trimestre de 2028, principal justificativa para sustentar o corte da Selic para 14,25%. A maior parte da argumentação da ata parece justificar uma elevação dos juros básicos, que no final não ocorreu.

O Copom apontou que não reagirá “integralmente à variação de preços decorrentes de choques de oferta”, seguindo o que diz serem “as melhores práticas de política monetária”. Os choques incluem tanto os que já aparecem nos preços, como o do petróleo, causado pelo conflito no Oriente Médio, quanto os possíveis que ainda não ocorreram, como os impactos do El Niño, que poderão ou não ser muito relevantes. Isso significa que os juros não precisarão seguir a trajetória indicada pelo Focus e que há um “adicional” de juros na atual taxa que oferece margem de ação.

O linguajar obscuro e a não abertura de quais são as trajetórias alternativas de juros utilizadas dificultam a compreensão de aonde o BC quer chegar. No entanto, a ata sugere o método: “Essas trajetórias contemplavam cenários com combinações de diferentes momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração. Nesse caso, as flutuações de produto se mostraram menores, com a inflação convergindo para a meta no primeiro trimestre de 2028”. O BC diz ter testado várias hipóteses que não estavam no horizonte, mas resolveu por fim traçar rumos para a Selic que não fossem muito distintos do Focus ou do questionário pré-Copom, com o temor de provocar “volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros e agregados macroeconômicos”, contraproducentes ao atingimento da meta de inflação.

O que o Banco Central parece dizer com tudo isso são duas coisas. A primeira é que dado o alto nível de incertezas, as projeções feitas pelo Focus também são afetadas por elas e estão sujeitas a erros. A segunda é que o BC deixou de contemplar reduções uniformes e constantes, e que optará por pausas de calibragem sem abandonar o horizonte relevante de política monetária. Nada impede assim, por exemplo, que o BC chegue ao fim de 2026 com a Selic acima dos 12% projetados pelo Focus — o que contribuiria para o mesmo resultado, IPCA na meta no primeiro trimestre de 2028. Há combinações possíveis ao longo do tempo entre os 14% de juros estimados pelos investidores para a Selic ao fim de 2026, os 12% de 2027 e os 10% de 2028.

Isso pressupõe uma interrupção dos cortes em algum momento, que está próximo, porque, antes de tudo, o balanço de riscos tornou-se assimétrico “altista” — há mais probabilidades de a inflação subir do que cair. A mudança do balanço de riscos, curiosamente não mencionada no comunicado divulgado logo após a reunião do Copom, decorre da incorporação ao cenário prospectivo dos efeitos do festival de estímulos, em especial creditícios, do governo Lula com objetivos eleitorais, embora a ata não dê nome aos bois.

Além disso, o IPCA e as medidas subjacentes de inflação aceleraram, superando o intervalo superior da meta, de 4,5%. Para piorar o cenário, “as expectativas de inflação, medidas por diferentes instrumentos e obtidas de diferentes grupos de agentes, permanecem acima da meta de inflação em todos os horizontes”, e, entre as duas reuniões do Copom, houve desancoragem adicional das expectativas. Os números da inflação ao consumidor e ao produtor mostraram os efeitos da guerra no Oriente Médio “em valores significativamente acima dos inicialmente esperados”.

Não há problemas em o BC não se guiar apenas pelas expectativas de mercado e é importante que assim seja. Em outubro de 2016, quando dirigido por Ilan Goldfajn, o Copom decidiu dar início ao ciclo de baixa da Selic, de 14,25% para 14%, mesmo com projeções do Focus apontando desancoragem da meta, cujo centro então era de 4,5%. O BC estava correto, e duas reuniões depois acelerou os cortes para 0,5 ponto percentual.

Mas há riscos nessas apostas. A economia em 2016 exibia grande grau de ociosidade e não, como agora, crescendo acima de seu potencial por três anos consecutivos, com um governo cuja política fiscal é hostil à política monetária. A calibragem é delicada, e se o BC for seguir a ata à risca há uma pausa marcada para breve. Ao que tudo indica, a taxa Selic permanecerá mais alta do que se previa no segundo semestre e ao longo de parte de 2027, para depois ser reduzida com mais vigor. Nesse contexto, a indicação de passos futuros será provisoriamente deixada de lado, para decisões dependentes unicamente de dados, como é conveniente em um período eleitoral agitado.

Apesar das surpresas e tons obscuros de uma ata que sugere contradições, o BC não parece ter se desviado de parâmetros técnicos e de perseguir seu mandato de cumprir a meta de inflação. Se eles recomendarem corte de juros, serão feitos. Caso contrário, não.

Calor recorde na Europa é sintoma do novo futuro

Por Correio Braziliense

A mitigação total do Acordo de Paris falhou. As políticas públicas precisam migrar urgentemente para a adaptação e a minimização de danos.

A Europa enfrenta, neste início de verão, o reflexo mais violento de uma crise que há muito deixou de ser uma projeção de futuro. Desde 18 de junho, a França contabiliza ao menos 40 mortes por afogamento, fruto da busca desesperada de cidadãos por alívio em rios e mar diante de temperaturas sufocantes. Nessa terça-feira, o país registrou a madrugada mais quente de sua história, com os termômetros sustentando marcas acima dos 25°C em pleno período noturno. O fenômeno não é isolado: Reino Unido, Itália, Espanha e Bélgica também operam sob alerta máximo, paralisados por uma massa de ar quente que desafia a infraestrutura urbana e a saúde pública do continente.

O cenário atual enterra o ceticismo e consolida o "novo normal" da crise climática. A recorrência e a intensidade dessas ondas de calor sinalizam que a humanidade provavelmente ultrapassou o ponto de não retorno das mudanças climáticas, falhando em cumprir as metas do Acordo de Paris, que pretendia limitar o aquecimento global a níveis "bem abaixo" de 2°C, em relação aos níveis pré-industriais. Agora, a discussão não gira mais em torno de como conter o aumento das temperaturas globais, mas de como gerenciar as consequências de um ecossistema já desestabilizado.

Os números dão dimensão ao que os termômetros apenas sugerem. A onda de calor de 2003 matou mais de 70 mil pessoas na Europa em questão de semanas — um marco que, à época, parecia excepcional. Duas décadas depois, eventos de intensidade equivalente tornaram-se rotina de verão, ainda que não na magnitude de mortes. Sistemas de saúde projetados para outras realidades climáticas entram em colapso operacional: hospitais lotados, serviços de emergência saturados e redes elétricas que cedem sob a demanda de ar-condicionado, que, por sua vez, aquece ainda mais as cidades. A infraestrutura urbana europeia, construída para um clima que não existe mais, virou um passivo em tempo real, e o custo de adaptá-la cresce a cada verão que passa sem resposta à altura.

Diante dessa realidade, a reação dos governos permanece marcada por lentidão crônica. As cúpulas climáticas e os discursos diplomáticos continuam distantes da velocidade exigida pelos fatos. Enquanto líderes debatem prazos de transição energética para as próximas décadas, o impacto é sentido agora, na pressão sobre as redes elétricas, na quebra de safras agrícolas e na mortalidade da população mais vulnerável, que, historicamente, arca com os maiores custos de uma industrialização da qual pouco se beneficiou.

O veredito é pragmático e desconfortável: a mitigação total do Acordo de Paris falhou. As políticas públicas precisam migrar urgentemente para a adaptação e a minimização de danos. Celebrar promessas de descarbonização futura enquanto as capitais europeias registram recordes térmicos é uma hipocrisia que o pragmatismo econômico e social não pode mais tolerar. 

Além disso, o que ocorre na Europa não é um alerta distante. O Brasil entra neste segundo semestre sob a ameaça de um Super El Niño, com o Sul exposto a chuvas devastadoras e o Norte e o Nordeste caminhando para secas severas. Se o calor europeu não foi suficiente para acelerar o planejamento preventivo, que as imagens de Paris sufocada sirvam ao menos para lembrar que o clima não aguarda o calendário político.

Aumenta a violência contra idosos

Por O Povo (CE)

As denúncias são apenas a "ponta do iceberg", pois uma parte expressiva dos casos de violência não chega às plataformas de denúncia

A manchete da edição desta terça-feira, "Ceará tem mais de três mil denúncias de violência contra idosos", expõe uma chaga que desafia autoridades e também a sociedade para um problema que tende a aumentar, principalmente porque o Brasil vive um processo de envelhecimento de sua população.

Nos seis primeiros meses, o Ceará somou 3.408 denúncias de violência contra a pessoa idosa, aumento de 6% ante o mesmo período do ano passado, com 3.187 registros, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC). O crescimento dos registros de violência ocorre em todo o Brasil. Nos quatro primeiros meses de 2025 foram anotadas 75.700 denúncias em todo o País, aumento de 29,85% em comparação com o mesmo período deste ano, com 58.296 registros.

O problema tende a se agravar devido ao envelhecimento da população brasileira. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), levantados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), a população jovem, pessoas com menos de 30 anos, caiu de 49,9% para 41,4% entre os anos de 2012 e 2025 em todo o País.

Quanto ao percentual de idosos, pessoas a partir dos 60 anos, subiu de 11,3% para 16,6% no mesmo período. Também houve aumento na população de 30 a 59 anos, chegando a 58,6% do total de habitantes em 2025, percentual que superou os 50,1% registrados em 2012. No Ceará, o percentual de idosos é de 15%, sendo o nono estado brasileiro com mais casos de violência contra essa faixa etária em 2026. A maioria das denúncias está na Região Metropolitana de Fortaleza.

A situação é ainda mais grave do que a representada pelos números de registros. Segundo especialistas, as denúncias são apenas a "ponta do iceberg", pois uma parte expressiva dos casos de violência não chega às plataformas de denúncia, como o Disque 100, pelo qual o MDHC monitora os alertas de maus-tratos.

As observações indicam que o problema atinge os setores mais vulneráveis da sociedade. Segundo o promotor de Justiça do Idoso, Alexandre Alcântara, em um ambiente familiar "estressado", devido a "questões de pobreza desigualdade e deficiência habitacional", cria-se um "ambiente propício e desencadeador de violências físicas e psicológicas". Para o promotor, a violência tem de ser entendida em "um contexto mais geral de violência estrutural e institucional".

E esse não é apenas um problema cearense ou brasileiro, ocorrendo em todo o mundo. Por isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Rede Internacional de Prevenção à Violência à Pessoa Idosa, instituíram o Junho Violeta, uma campanha de conscientização para prevenir agressões contra a pessoa Idosa.

Diante dessa realidade, é preciso avançar em políticas de apoio à pessoa idosa, principalmente para os segmentos mais vulneráveis desse segmento.

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