quinta-feira, 18 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Permanência de Ciro Nogueira no Senado ficou insustentável

Por O Globo

Se parlamentares continuarem inertes ante novas evidências da relação com Vorcaro, serão cúmplices

São estarrecedoras as novas revelações da Polícia Federal (PF) sobre a relação de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e artífice de fraudes multibilionárias, com o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas (PP). É inaceitável a promiscuidade de líderes graduados do Congresso com um corruptor contumaz. À medida que o inquérito sobre corrupção e lavagem de dinheiro se aprofunda, acumulam-se evidências contra Nogueira. Torna-se a cada dia mais insustentável sua permanência no Senado. O que se sabe até o momento já é suficiente para abertura de processo de cassação por quebra de decoro, independentemente de decisão da Procuradoria-Geral da República sobre denunciá-lo.

Mensagens revelam que Vorcaro pagou hospedagem a Nogueira e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), no hotel cinco estrelas Four Seasons de Lisboa. Relatório de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) corrobora, segundo a PF, “achados referentes às vantagens indevidas recebidas pelo senador”. Em maio, a PF já revelara mensagens segundo as quais Vorcaro pagava a Nogueira mesada de R$ 300 mil, depois reajustada para R$ 500 mil. De acordo com a investigação recente, o senador montou uma rede para ocultar os valores ilícitos.

Quanto a Motta, as evidências são menos eloquentes, mas não menos constrangedoras. Ele tratou a ida a Lisboa com naturalidade e declarou não ver problema nas diárias pagas. De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, há no celular de Vorcaro pedido de Motta por liberação de empréstimo à empresa de uma cunhada — ele afirmou que a operação “está dentro da legalidade”. Suas explicações são insuficientes. O presidente da Câmara não pode receber nenhuma vantagem de alguém com interesses em projetos na Casa, muito menos de uma figura como Vorcaro. Motta deveria prestar esclarecimentos sobre suas interações com o banqueiro e seus intermediários, além de tornar públicas todas as hospedagens e caronas em jatinhos recebidas no exercício do mandato.

Sobre a relação entre Nogueira e Vorcaro, restam poucas dúvidas. Antes de ser liquidado pelo Banco Central (BC), o Master oferecia papéis com retorno muito acima do praticado no mercado, usando como chamariz a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a aplicações até R$ 250 mil. Em junho de 2024, Nogueira viajou para Lisboa por conta de Vorcaro. Dois meses depois, quando os apuros do banco eram conhecidos, apresentou proposta redigida pelo próprio Master aumentando a garantia do FGC para R$ 1 milhão.

Em janeiro de 2025, viajou para Courchevel, nos Alpes Franceses, onde foi fotografado aos abraços com Vorcaro. Em setembro daquele ano, em meio ao cerco do BC às fraudes e diante do veto à venda do Master ao Banco de Brasília, aliados de Nogueira na Câmara assinaram requerimento de urgência para projeto estipulando exoneração de diretores do BC pelo Congresso.

Enquanto defendia os interesses do Master no Congresso, Nogueira se deixou fotografar com Vorcaro, pegou carona em seus jatinhos e desfrutou o luxo propiciado por ele em Nova York, Lisboa, Paris e nos Alpes. Tamanha desfaçatez mostra como confiava na impunidade. Se os parlamentares permanecerem inertes ante tantas evidências, serão cúmplices de qualquer crime por que venha a ser condenado.

Remuneração de bolsistas no exterior deve trazer ganhos para a sociedade

Por O Globo

Há mérito na queixa por reajuste de bolsas, mas é preciso assegurar que conhecimento seja útil ao país

A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) publicou carta aberta criticando o congelamento das bolsas de estudos no exterior em US$ 1,3 mil mensais (cerca de R$ 6,6 mil) desde 2010. Para conseguir sobreviver, bolsistas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) se veem obrigados a contar com auxílio da família, de amigos ou a encontrar alguma forma de complementar a renda sem prejudicar os estudos.

A formação de mão de obra qualificada no exterior é uma estratégia importante para o país promover um salto em seu estágio de desenvolvimento. Um exemplo citado com frequência é a Embrapa. Criada em 1973, a empresa manteve desde o início um programa de envio de pesquisadores para cursar pós-graduação em países de ponta. Com a volta deles ao Brasil, a Embrapa pôde desenvolver projetos que deram sustentação ao crescimento da agropecuária, transformando o país num dos maiores exportadores de alimentos do mundo.

A China é um caso bastante conhecido de país que enfrentou o subdesenvolvimento tendo como base políticas de formação de profissionais em centros de ensino no exterior. Com a chegada de Deng Xiaoping ao poder, em 1978, o governo chinês começou a abrir o mercado interno enquanto enviava estudantes a grandes centros de ensino no Ocidente. Como resultado do conhecimento acumulado, deixou de ser uma economia rural para se tornar uma potência industrial, centro de inovação e segunda maior economia do mundo. Roteiro similar foi seguido por Coreia do Sul, Taiwan e Cingapura.

Uma diferença entre esses países e o Brasil é a pequena concentração de bolsistas nas áreas mais críticas para o desenvolvimento econômico — ciência, tecnologia, engenharia e matemática, designadas pelo acrônimo em inglês Stem. Na China 40% dos universitários formam-se em áreas Stem, segundo dados da OCDE e da Universidade Georgetown referentes ao período de 2000 a 2023. Na Alemanha são 35%, na Índia 32% e na Coreia do Sul 31%. No Brasil? Apenas 16%. Por isso as bolsas de estudos para o exterior concedidas pela Capes e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ainda mantêm concentração em cursos relacionados a educação, ciências sociais, Direito ou humanidades de modo geral. Não que sejam irrelevantes, mas é sobretudo do conhecimento nas áreas Stem que depende o salto no estágio de desenvolvimento.

A formação no exterior deveria ser uma política de Estado, independente das mudanças de governo. Há mérito na reivindicação por reajuste no valor das bolsas. Mas o governo também precisa assegurar que a sociedade receba valor em troca do que investe. Isso significa assegurar que os bolsistas retornem ao Brasil depois de adquirir conhecimento no exterior e que esse conhecimento seja relevante para o desenvolvimento do país, e não apenas para satisfazer às demandas e carências da comunidade acadêmica.

Desfecho da Lava Jato alerta para impunidade no Master

Por Folha de S. Paulo

Crítica de Gilmar a Mendonça ignora risco do conluio entre poderosos para sepultar responsabilizações

Pelas apurações policiais e jornalísticas do escândalo já passaram juízes do Supremo, ministros de Estado, governadores e parlamentares

A Operação Lava Jato, conjunto de iniciativas que a partir de 2014 investigaram esquemas bilionários de corrupção envolvendo agentes políticos e empresários próximos do poder, voltou a ser tema de um acalorado debate entre ministros do Supremo Tribunal Federal.

A discussão se deu na sessão da Segunda Turma que avaliou a manutenção das prisões preventivas de Henrique e Felipe Vorcaro, respectivamente pai e primo do ex-controlador do Banco Master Daniel Vorcaro, também preso.

O ministro Gilmar Mendes, ao divergir do voto do relator André Mendonça pela sustentação da detenção cautelar, acusou o colega de reeditar métodos abusivos da Lava Jato. As prisões de parentes do líder do bando responsável pelo maior desfalque financeiro da história nacional seriam, segundo Mendes, meios de coagir Daniel a fazer delação.

De fato, medidas cautelares como a prisão preventiva, decretadas antes e a despeito da formação de culpa, deveriam ser deferidas com extrema parcimônia e em estreita ligação com os casos previstos em lei. São remédios para situações em que a liberdade do implicado põe em risco a própria investigação ou a sociedade.

Mendonça respondeu no mérito ao desafio do decano. No caso em tela, disse, "há contornos de crime organizado mafioso, de fuzis, de metralhadoras, de armas raspadas, de infiltração no sistema policial". A organização que pai e primo do ex-banqueiro são suspeitos de integrar não cuida de amenidades, e sim de coação, espionagem e ameaças a quem se ponha no seu caminho.

Aplicados ao escândalo do Master, os ensinamentos da Lava Jato —já que Gilmar Mendes a mencionou para criticar o colega— recomendam cautela não só com o risco de abuso das autoridades incumbidas de investigar e processar. É preciso cuidado com as tramas de gabinete destinadas a enterrar operações que se aproximam de figurões de Brasília.

Pelas apurações policiais e jornalísticas do caso já passaram juízes do Supremo, ministros de Estado, governadores, parlamentares e servidores de alto escalão. Essa relação tem tudo para crescer e se adensar se não houver o tipo de interferência indevida que sepultou a Lava Jato.

Enquanto a Procuradoria-Geral da República (PGR) se recolhe numa brandura que não demonstra em outros casos, a caça aos pretextos que poderiam varrer as responsabilizações pelo escândalo do Master para debaixo do tapete continua entre os potenciais implicados e suas redes de proteção. Felizmente as delações seletivas que Daniel Vorcaro planejou fazer, poupando seus cúmplices influentes, foram recusadas.

A máfia dos regabofes comprou algumas das mais altas autoridades da República. Não há pacto de impunidade que possa apagar esse fato iluminado pela imprensa profissional e testemunhado pela sociedade brasileira. O que se exige é um final diferente do da Lava Jato, em que os culpados paguem por seus crimes.

Suíços rejeitam xenofobia tresloucada

Por Folha de S. Paulo

Consulta derruba proposta da direita que limitaria população do país a 10 milhões de habitantes até 2050

Envelhecido, mundo rico precisará importar trabalhadores nos próximos anos; 31% dos residentes da Suíça nasceram em outros territórios

A direita radical suíça bem que tentou promover a versão helvética do Brexit, mas, felizmente, fracassou. Por 55% dos votos, o eleitorado nacional rejeitou em consulta popular uma proposta, impulsionada pelo Partido Popular Suíço (SVP), que limitaria a população do país a 10 milhões de habitantes até o ano 2050.

As implicações de uma medida tresloucada assim não seriam triviais. Colocariam a confederação alpina em conflito potencial com a União Europeia, daí o paralelo com o Brexit —e o oportuno apelido de Schwexit (o nome do país, em alemão, é Schweiz).

A Suíça não é membro da UE, mas integra o Espaço Schengen, que prevê livre circulação de pessoas, e é signatária de uma série de acordos com o bloco.

Se a proposta bancada pelo SVP tivesse sido aprovada, à medida que a população se aproximasse dos 10 milhões (são pouco mais de 9 milhões hoje), as autoridades teriam de adotar políticas de controle que fatalmente violariam os compromissos firmados.

Na prática, a Suíça teria de renunciar a esses tratados, que, por força de uma cláusula específica, só podem ser negociados em bloco —por isso a comparação com o Reino Unido, que, após desastrada consulta popular em 2016, decidiu se retirar da UE, com enormes prejuízos econômicos.

Os eleitores helvéticos, contudo, foram mais sábios do que os britânicos. Fizeram as contas e viram o quanto a cooperação econômica com a UE beneficiou o país. Nas últimas duas décadas, a população residente na confederação aumentou em 22%, ante uma média de 5% na UE.

Os novos migrantes incluem quadros europeus altamente qualificados que vieram para trabalhar em setores de ponta como o farmacêutico e o biotecnológico. Hoje, 31% dos habitantes da Suíça não nasceram no país. Dos fundadores de novas empresas suíças, 39% são estrangeiros.

Um estudo da BAK Economics estimou que a revogação dos tratados subtrairia 7,1 pontos percentuais de crescimento do PIB entre 2028 e 2045. Alguns efeitos deletérios, como cortes de investimentos, viriam ainda antes.

Os suíços responderam com maturidade a uma das questões que assolam o mundo desenvolvido. A queda da fecundidade em muitos países ameaça, além da atividade econômica, a viabilidade de sistemas previdenciários e de outros serviços públicos.

A saída é importar trabalhadores. O discurso xenófobo de certa direita, porém, faz com que a solução seja percebida como o maior dos problemas, o que torna politicamente custoso adotá-la.

Mais um desfecho amargo

Por O Estado de S. Paulo

Condenação de Eduardo Bolsonaro era juridicamente inevitável, mas presença de Moraes como vítima e julgador voltou a lançar dúvidas desnecessárias sobre a imparcialidade do STF

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) a 4 anos e 2 meses de prisão, além de multa, pelo crime de coação no curso do processo. Não se podia esperar outro desfecho para alguém que, orgulhosa e confessadamente, agiu desde os EUA para tentar mudar o curso da Ação Penal 2.668 por meio de ameaça aos ministros envolvidos no julgamento de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Debalde. O STF não se curvou e Jair Bolsonaro hoje cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.

Poucas vezes na história do processo penal brasileiro um réu produziu tantas provas contra si mesmo como Eduardo Bolsonaro. Suas mídias sociais foram a expressão do iter criminis. O ex-deputado registrou uma espécie de diário de seus movimentos em Washington para viabilizar sanções políticas e econômicas contra ministros do STF, entre outras autoridades, e medidas hostis aos interesses nacionais, como o “tarifaço” imposto ao Brasil pelo governo de Donald Trump. Essas ações extrapolaram, e muito, tanto a atividade parlamentar quanto o sagrado direito de espernear contra decisões judiciais, desbordando para o terreno criminoso.

A condenação, portanto, foi juridicamente correta. E é importante afirmá-lo, considerando que a família Bolsonaro sempre fez da alegação de “perseguição” o eixo de sua estratégia de ação política. Noutras palavras: Eduardo não é vítima de um “sistema” que o persegue por suas opiniões. Demonstrando profundo desrespeito pelas instituições republicanas, o ex-deputado nem se dignou a constituir defesa e se apresentar perante o STF, coisa que até seu pai fez.

Nada disso, porém, elimina um problema de fundo que a Corte insiste em ignorar e que, ao fim e ao cabo, tisna uma decisão judicial que, no mérito, é inquestionável. O relator da ação penal contra Eduardo, o ministro Alexandre de Moraes, foi o alvo mais atingido pelo crime atribuído ao réu pela Procuradoria-Geral da República. É fato que, em maior ou menor grau, outras autoridades foram sancionadas. Mas Moraes era uma espécie de troféu entre aqueles que Eduardo procurava afetar, sobretudo com as sanções no âmbito da Lei Global Magnitsky. Não obstante, o ministro não só participou do julgamento, como o relatou.

Ademais, a ação contra Eduardo foi distribuída por prevenção ao gabinete de Moraes tendo como origem o famigerado inquérito das “fake news”. Eis aí mais um desfecho amargo para um julgamento do STF que poderia ter sido exemplar. É lícito inferir que o mesmo resultado, vale dizer, a condenação de Eduardo, teria sido alcançado sem que a Corte fosse exposta a mais um desgaste provocado pelo voluntarismo do sr. Moraes.

O problema não é novo. A recente decisão da Corte de Cassação da Itália no caso da também ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP) é outro exemplo eloquente de como uma decisão judicial correta no mérito pode ser maculada por erros evitáveis do órgão julgador. Os magistrados italianos não questionaram as razões que levaram à condenação da sra. Zambelli no Brasil. Limitaram-se a examinar as condições em que ela foi julgada. Só isso. E consideraram ter havido uma “violação ao princípio da imparcialidade e da independência do juiz”, apontando o acúmulo, na figura de Moraes, dos papéis de vítima e julgador.

Ao insistir nesse modo de agir, em que a veleidade de alguns de seus membros se sobrepõe aos princípios básicos do Estado de Direito, o próprio STF alimenta o discurso político contra sua legitimidade como corte imparcial. E, mais uma vez no caso de Eduardo, de forma desnecessária. Como foi dito, era possível condenar o vulgo “Zero Três”, haja vista a profusão de provas que ele mesmo produziu, preservando a integridade do resultado. Bastaria Moraes se afastar de um julgamento no qual figurou, a um só tempo, como alvo primaz da conduta do réu e seu julgador. O resultado decerto seria o mesmo. A diferença estaria na força moral da decisão.

Eduardo foi condenado porque cometeu um crime. Mas o STF voltou a oferecer ao bolsonarismo aquilo de que ele mais precisa para sustentar sua força política: a oportunidade de criar confusão entre “perseguição” e devida responsabilização jurídica.

O risco da autonomia financeira do BC

Por O Estado de S. Paulo

Problema da falta de recursos não será resolvido com a criação de mais um orçamento paralelo, a exemplo do que acontece no Judiciário, que converte essa independência em penduricalhos

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65, que dá autonomia financeira, orçamentária e administrativa ao Banco Central (BC). Há dois anos na comissão, o texto ganhou força nas últimas semanas na esteira das ameaças de novas sanções comerciais pelos Estados Unidos com base em investigações que mencionaram expressamente o Pix.

O tarifaço ainda não foi aplicado, mas os senadores aproveitaram o ensejo trumpista, a proximidade das eleições e a popularidade do meio de pagamento eletrônico instantâneo criado e desenvolvido pelo Banco Central para se ufanar. Por meio da PEC, querem incluir o Pix na Constituição, supostamente uma forma de blindá-lo de pressões internacionais.

Fazer política, afinal, também é ter senso de oportunidade. A diretoria do Banco Central, que já trabalhava pela aprovação da proposta havia meses por razões que nada têm a ver com o Pix, soube explorar a ocasião a seu favor. Já a equipe econômica do governo Lula, que tinha bons motivos para se opor à PEC, mais uma vez mostrou não ter tino político e agora terá o desafio de convencer o plenário do Senado a ajustar o texto para evitar problemas para si mesma.

O Banco Central já conta com autonomia operacional há cinco anos. A Lei Complementar 179/2021 garantiu mandatos fixos e escalonados para seus diretores, com duração de quatro anos, e mandatos não coincidentes entre o presidente do BC e o presidente da República, uma forma de impedir que a condução da política monetária sofresse interferências políticas.

Vale para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e valeu para seu antecessor, Jair Bolsonaro, que viu a Selic subir de 2% ao ano no início de 2021 para 13,75% ao ano às vésperas da eleição em 2022 sem nada que fazer senão espernear. É para isto que serve a autonomia operacional: para garantir que o BC fará tudo para cumprir sua missão, ou seja, não perder o controle da inflação e preservar o poder de compra da moeda, ainda que juros elevados atrapalhem os planos do governo de plantão.

Para o País, foi um avanço e tanto; para o BC, parece ter sido insuficiente. O órgão diz não ter verba para fiscalizar o sistema financeiro, que cresceu exponencialmente desde o advento das fintechs – e as falcatruas do Banco Master servem como argumento válido para reforçar a necessidade de fortalecer a supervisão bancária. Ainda segundo o Banco Central, os salários no serviço público não são páreo para a remuneração paga por instituições privadas.

Tais alegações, essencialmente, valem para todo e qualquer órgão público. Todos, ou quase todos, têm menos recursos do que gostariam e sofrem as consequências de bloqueios de um Orçamento cronicamente deficitário. Agências reguladoras também precisam de mais dinheiro para fiscalizar usinas, barragens e aeronaves cuja má conservação pode custar vidas, e seus melhores profissionais são igualmente assediados pelo setor privado.

Problemas dessa natureza não serão resolvidos por meio da criação de diversos orçamentos paralelos. É justamente a autonomia financeira e orçamentária que tem garantido a profusão de penduricalhos no Judiciário, no Ministério Público e no Legislativo, em desrespeito ao teto remuneratório estabelecido na Constituição. É o princípio da unicidade orçamentária que tem limitado a propagação de práticas como essa também no Executivo.

A equipe econômica, no entanto, cochilou e perdeu o timing para barrar a proposta. Embora o texto tenha o potencial de afetar profundamente o resultado primário ao reclassificar o fluxo entre o Tesouro e o BC, os ministros da Fazenda, Dario Durigan, e do Planejamento, Bruno Moretti, só apresentaram alternativa um dia antes da votação na CCJ. Com um prazo tão apertado, o relator, Plínio Valério (PSDB-AM), se sentiu à vontade para ignorá-los.

Esse é só mais um episódio a refletir a fraqueza da equipe econômica e o amadorismo da articulação política do governo Lula no Congresso. O Banco Central apenas se aproveitou do oportunismo patriótico do Senado em defesa do Pix para obter um privilégio e tratamento especial para os seus. A esta altura, tudo indica que conseguirá.

O oxímoro de Durigan

Por O Estado de S. Paulo

Ministro da Fazenda do perdulário governo Lula defende, sem corar, moderação nas despesas

Em recente entrevista ao Estadão/Broadcast, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu, sem corar, que haja moderação na pressão das despesas obrigatórias, sob pena de inviabilizar o País. Considerando que Durigan é ministro de um governo notoriamente perdulário como o de Luiz Inácio Lula da Silva, trata-se de rematado cinismo.

Recorde-se que Lula conseguiu a façanha, inédita na história do País, de patrocinar uma elevação de gastos da ordem de R$ 168 bilhões no Orçamento antes mesmo de tomar posse. Em geral, presidentes em início de mandato, graças ao apoio das urnas, têm força política para cortar gastos e equilibrar as contas. Mas Lula fez o inverso: pisou no acelerador da gastança logo de cara.

O prometido arcabouço fiscal começou mal. Com a retomada da vinculação dos pisos constitucionais da Saúde e da Educação às receitas, a âncora foi esvaziada antes mesmo de começar a funcionar, e assim seguiu ao longo do governo, com todo tipo de despesa classificada como extraordinária devidamente retirada do alcance do arcabouço.

Mas o arcabouço, para Durigan, “veio para ficar”. “Dá para discutir parâmetros, mas não acabar com o arcabouço”, afirmou. Ora, se as metas foram cumpridas e a trajetória da dívida não foi contida, parece claro que a âncora não foi capaz de cumprir seu objetivo. Ajustar seus parâmetros, portanto, deveria ser mandatório, e não uma possibilidade.

Nem Durigan nem seu antecessor, Fernando Haddad, jamais apresentaram uma proposta clara de redução de despesas – e é fácil entender a razão. Ao participar da reunião mais recente do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão, o presidente Lula disse que um déficit primário na casa dos 0,20% do PIB não faria “cair o mundo”.

A equipe econômica não faz o menor esforço para conter o uso escancarado da máquina pública pelo presidente, mas não poupa o Congresso de críticas às chamadas pautas-bomba. Lula ao menos é mais sincero. Disse que Durigan “flexibilizou o bolso” e “já não tem tanta dificuldade de liberar um dinheirinho”.

Os números dão razão ao presidente. A despesa primária cresceu 14% em termos reais nos quatro primeiros meses deste ano, segundo relatório do BTG Pactual, e houve ainda aumento de cerca de R$ 275 bilhões em crédito subsidiado desde meados do ano passado, o que classificou como “uma expansão sem precedentes das operações parafiscais no atual mandato”.

Durigan diz que “2027 tem de ser diferente de 2023”, mas não explica como isso poderá ocorrer. A inflação, segundo o ministro, está elevada por causa da guerra no Oriente Médio, e a dívida pública sobe por causa da taxa básica de juros – nada que ver com os gastos do governo. Nem mesmo com uma reforma administrativa o ministro conseguiu se comprometer.

É óbvio que o País precisa urgentemente conter as despesas obrigatórias, e é papel do ministro e do governo que ele representa listar o que considera prioritário e o que deveria ser revisto. Dizer que o Orçamento está direcionado para os mais pobres não cola mais. É preciso dizer exatamente o que será feito para não inviabilizar o País.

Fed sinaliza que juros vão subir e Copom segue com cortes

Por Valor Econômico

O Banco Central do Brasil indicou que não pretende apertar a política monetária, mas pode ser levado a fazê-lo no futuro

O Federal Reserve (Fed) se inclina por um aumento da taxa de juros, mas a manteve inalterada na reunião de ontem, entre 3,5% e 3,75%, e retirou o trecho do comunicado que poderia indicar afrouxamento adicional da política monetária. Mais do que avaliar o estado da economia, o novo presidente do banco central dos EUA, Kevin Warsh, se empenhou em dizer o que quer mudar nas práticas da instituição e começou por uma das mais importantes: o comunicado do Fomc, comitê que decide o rumo dos juros, não deu qualquer sinal de seus próximos passos (“forward guidance”), uma prática que, a depender dele, será extinta. O texto se encerra com um seco e óbvio compromisso de assegurar a “estabilidade dos preços”. O Banco Central do Brasil não pretende apertar a política monetária, mas pode ser levado a fazê-lo no futuro. Ontem, fez novo corte de 0,25 ponto, para 14,25%, e indicou que poderá continuar com as reduções, dependendo dos dados.

Warsh foi escolhido pelo presidente Donald Trump para reduzir a taxa de juros. Em sua estreia no comando do Fed, teve de deixar de lado provisoriamente suas crenças não só a respeito da queda dos juros, contra a qual praticamente a metade dos membros do Fomc se manifestou nas projeções de pontos, como também sobre a necessidade de redução do balanço do banco. No segundo parágrafo de um comunicado drasticamente reduzido em relação aos anteriores, consta que o comitê “reafirma sua política de manter amplas reservas no sistema bancário”.

Warsh resumiu seus pontos de vista ao comunicado, que traça apenas descrições básicas. Nele, a economia manteve “ritmo sólido”, apesar das instabilidades produzidas em parte pelo conflito no Oriente Médio, e a taxa de desemprego praticamente não se moveu, com a oferta de empregos acompanhando a expansão da força de trabalho. A produtividade e os investimentos estão “fortes”. A inflação, porém, continua elevada em relação à meta de 2%, o que é atribuído, em parte, aos “choques de oferta” em alguns setores, como o de energia.

Um resumo mais amplo de para onde o Fed pode caminhar pode ser vislumbrado nas projeções de 18 membros do comitê de mercado aberto — Warsh não apresentou as suas por ser crítico da forma com que são feitas. Para o ano corrente, só um membro acha que o juro será reduzido em 0,25 ponto. Oito deles esperam que a taxa será mantida, enquanto outros três preveem uma alta de 0,25 ponto, cinco, duas altas, e um, três elevações.

O motivo para isso está no desempenho da inflação, que, medida pelo índice de preços ao consumidor, ultrapassou em maio o dobro da meta do Fed, chegando a 4,2% anuais. Nas métricas preferidas pelo banco, as dos gastos pessoais de consumo, as previsões subiram muito em relação às da reunião de março, quando a guerra dos EUA contra o Irã mal havia começado. Esse índice deve fechar 2026 em 3,6% (a projeção anterior era de 2,7%) e seu núcleo, em 3,3% (ante 2,5% antes). A economia se mantém em expansão próxima à de seu potencial (2,2%, perto dos 2%), e o desemprego até cairá um pouco em 2026 e nos dois anos seguintes (4,3%, diante de 4,4% da estimativa anterior). Ainda assim, a mediana das projeções dos membros do comitê aponta a taxa dos fed funds entre 3,75% e 4% no fim do ano. A perspectiva é idêntica à dos investidores, que veem a primeira elevação de juros em outubro.

Como a inflação só voltará exatamente à meta em 2028, o gráfico de pontos praticamente não contempla grandes mudanças nos juros. A mediana para 2027 é de 3,5% a 3,75% (com oito membros prevendo taxa acima disso), e de 3,25% a 3,5% em 2028. Olhando o ponto de partida, os juros devem recuar, vistos de hoje, apenas 0,25 ponto percentual no período.

Warsh criou cinco grupos de trabalho para mudar o modus operandi do banco. O primeiro é o de comunicação, sobre a qual sua predileção é deixar de indicar os próximos passos do Fed, reduzir as entrevistas, feitas após as reuniões, e acabar com, ou mudar, a divulgação dos gráficos de pontos. O segundo tratará do balanço da instituição, que pretende reduzir. Ele quer modernizar o sistema de dados que abastece o banco, pois considera as estatísticas atuais defasadas, além de criar outro grupo para avaliar produtividade e crescimento (ele crê que a inteligência artificial irá reduzir a inflação). Por último, o quinto grupo estudará toda a “estrutura da inflação”, objetivo nebuloso que, no entanto, não envolve, como ressaltou, a mudança da meta do Fed.

Para o BC do Brasil, houve piora no cenário prospectivo, com aceleração da inflação e das medidas subjacentes, e um ritmo mais intenso da atividade econômica no primeiro trimestre. No entanto, o Comitê de Política Monetária não modificou o balanço de riscos, que continua apontando iguais chances de a inflação cair como subir, e indicou “diferentes trajetórias” dos juros que assegurariam a convergência da inflação à meta. Em uma delas, a inflação no horizonte relevante da próxima reunião, o primeiro trimestre de 2028, ficaria “abaixo da meta”. Foi isso que assegurou a continuidade da “calibração”, sem indicações explícitas de que o ciclo de queda poderia sofrer uma pausa.

Guerras sem tiros nem vitrine

Por Correio Braziliense

A preocupação levada ao G7 pelo governo brasileiro expõe uma das faces da fissura entre as potências econômicas dominantes e o numeroso bloco de países hoje identificado sob a etiqueta de Sul Global

A reunião de cúpula do G7 em Évian, na França, colocou aos olhos de quem acompanha o noticiário internacional um punhado de conflitos que, na ausência de bombardeios, destruição e mortes desfilando pelas telas, acaba passando algo despercebido. E, em muitos casos, é nessas disputas que se desenha o futuro da humanidade, quando se pensa no longo prazo.

A ameaça ambiental, concentrada no impacto devastador das mudanças climáticas, frequenta há algum tempo as atenções da mídia e dos governantes. Neste ano, porém, a pauta das grandes economias industriais foi tomada de assalto pelo tema premente da revolução digital, com suas incógnitas e desafios. Até pelas afinidades com a ficção científica — a vida tem o costume arraigado de imitar a arte —, as discussões públicas em torno do assunto se concentram na inteligência artificial (IA).

Por trás dela, no entanto, trafega um tanto ofuscada a queda de braço sobre a regulamentação das big techs, as gigantes do setor, cuja riqueza e influência econômica e sociopolítica avançam talvez com rapidez maior que a exibida pelos supercomputadores e data centers. Foi nelas que o presidente Lula focalizou seu discurso, na qualidade de convidado do anfitrião, Emmanuel Macron. "O primeiro trilionário do mundo é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial", comparou.

A preocupação levada ao G7 pelo governo brasileiro expõe uma das faces da fissura, que se aprofunda e se alarga, entre as potências econômicas dominantes e o numeroso bloco de países hoje identificado sob a etiqueta de Sul Global. Não por acaso, em mais de um tópico, a fala de Lula encontrou eco nas posições colocadas pela China. Segunda economia do planeta, a caminho de disputar com os Estados Unidos o alto do pódio, o gigante comunista levou a Évian sua plataforma para um reordenamento da governança global.

É, em boa parte, na abordagem dessas questões que se demarcam os campos na arena internacional. Em particular, é com os Estados Unidos de Donald Trump que se concentram as divergências e disputas — desde logo, pela afinidade pública e notória do presidente com os principais executivos das big techs, como Elon Musk, Tim Cook e Jensen Huang, que o acompanharam na recente visita a Pequim.

Ademais de prevenir a exposição generalizada dos usuários aos crimes digitais — especialmente, de crianças e adolescentes —, a posição assumida na França pelo Brasil aponta para os riscos da interferência descontrolada dos gigantes da IA na vida doméstica dos países. Desde logo, nos processos eleitorais, como o que se avizinha por aqui, com a disputa pelo Planalto e a renovação do Congresso.

Garantir que os destinos de uma nação se definam pelo pronunciamento livre e consciente da sociedade, moldado no debate democrático de ideias e expresso na instituição insuperável do voto, é o desafio que se apresenta. Para agora, enquanto é tempo para manter confinadas ao leito natural as águas de um rio que se avoluma e, em algum momento, não mais respeitará margens nem limites.

Um resultado esperado, e justo

Por O Povo (CE)

Mesmo sob pressão, o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de sua Primeira Turma, condenou por unanimidade, na terça-feira, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro por coação no curso do processo,

Já era esperado que Eduardo Bolsonaro fosse condenado na ação penal na qual é acusado de atuar nos Estados Unidos para prejudicar os interesses do Brasil. Mas a expectativa de sua condenação não derivou de uma suposta perseguição que a família Bolsonaro estaria sofrendo no Brasil.

A certeza de que seria condenado é resultado de uma grande quantidade de provas produzidas pelo próprio réu. Eduardo explicitou em declarações públicas e postagens em redes sociais que o seu objetivo era obter apoio do governo dos Estados Unidos para sancionar o Brasil e também ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes, aplicando contra eles a lei Magnitsky. O propósito de Eduardo era anular o processo e livrar o pai da cadeia. Para executar esse plano, ele aliou-se a uma potência estrangeira para prejudicar o próprio País.

Mesmo sob pressão, o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de sua Primeira Turma, condenou por unanimidade, na terça-feira, o ex-deputado por coação no curso do processo, no qual Jair Bolsonaro, foi responsabilizado por tentativa de golpe de Estado.

Uma linha do tempo explica a movimentação de Eduardo para interferir no processo, começando pelo "tarifaço" imposto ao Brasil pelos Estados Unidos, para usá-lo como objeto de troca para livrar o pai da cadeia.

Em julho de 2025, Trump anunciou a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, vinculando a suspensão da medida ao encerramento dos processos contra Bolsonaro. Em declarações e postagens em redes sociais, o ex-deputado incentivou punições econômicas contra o Brasil, deixando claro o seu alinhamento com os interesses americanos.

Em seu voto, o ministro relator Alexandre de Moraes resumiu os crimes praticados por Eduardo Bolsonaro, incluindo a entrega de documentos sigilosos para o governo americano para favorecer os interesses da família. "A ligação (com os EUA) era clara. Foram aplicadas sanções ao Brasil, e as declarações do réu, dizendo que isso seria um efeito colateral. O que importava era a luta que estavam fazendo, mesmo que milhões de brasileiros fossem prejudicados pelas tarifas e outras sanções", escreveu Moraes.

Quanto à Magnitsky, que impunha uma série de restrições econômicas, financeiras e diplomáticas aos atingidos, Flávio escreveu em uma rede social: ""Agradeço ao presidente Donald Trump pela revogação dos vistos de oito ministros do STF. Isso é só o começo, tem muito mais por vir."

Por fim, os advogados do ex-deputado pediram que o STF adiasse a apreciação do processo. Eduardo disse que o julgamento era "sem pé nem cabeça", cujo objetivo seria impedi-lo de participar da eleição de outubro.

O fato é que, mesmo uma análise superficial chegará à conclusão que o resultado do julgamento foi irretocável, inclusive porque o próprio réu ofereceu elementos de prova que o levaram à condenação.

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