segunda-feira, 22 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso deve ao país respostas sobre o caso Master

Por Folha de S. Paulo

PF avança em investigações que mostram relações de Ciro Nogueira e Jaques Wagner com a rede de Vorcaro

Presidente da Câmara recebeu favores, enquanto o do Senado tem seu estado envolvido; regulação do lobby seria medida moralizadora básica

A semana que passou trouxe novas e chocantes evidências do envolvimento de parlamentares na rede de influência do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, sem que as lideranças do Congresso Nacional tenham esboçado uma reação à altura do escândalo.

O caso em apuração mais avançada pela Polícia Federal é o do senador Ciro Nogueira (PP-PI), cujas relações com o ex-controlador do Master eram conhecidas desde antes da quebra do banco.

As investigações mostram não só favores recebidos pelo expoente do centrão, como viagens suntuosas e até a suspeita de uma mesada de centenas de milhares de reais, mas também contrapartida na forma de ação legislativa.

É de Ciro, afinal, o texto apresentado em 2024 para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura individual para investimentos protegidos pelo Fundo Garantidor de Créditos, instrumento fundamental para o esquema de Vorcaro.

Se a proposta tivesse sido aprovada, a conta deixada pelo Master superaria em muito os R$ 60 bilhões hoje estimados, já o maior prejuízo da história do FGC.

A novidade mais rumorosa da semana, contudo, foi a operação da PF que mirou o líder do governo no SenadoJaques Wagner (PT-BA), de próximas relações com Luiz Inácio Lula da Silva.

Aqui, o padrão de presentes nababescos se repete, bem como as suspeitas de atuação em favor dos interesses do Master —além do apoio ao texto de Ciro, uma proposta para ampliação do crédito consignado.

Diante dos fatos, a conduta dos principais dirigentes do Congresso é vexatória. Quanto ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), soube-se que ele próprio, ao lado de Ciro, desfrutou de hospedagem paga por Vorcaro em Lisboa para participação no sempre badalado e controverso fórum jurídico promovido pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

Já o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que barrou tentativas de instalação de uma CPI sobre o Master, desta vez preocupou-se mais em manifestar solidariedade a Jaques Wagner. O governo de seu estado, ao qual é aliado, é investigado por generosos depósitos do fundo de previdência dos funcionários na instituição de Vorcaro.

A poucos meses das eleições, será ingenuidade esperar que o Legislativo se mobilize para dar as respostas que deve ao país a respeito do envolvimento de seus membros no caso. Essa dívida, contudo, não se dissipará.

Embora desejável, uma comissão parlamentar de inquérito não é a única providência a tomar. Câmara e Senado não precisam aguardar denúncias da Procuradoria-Geral da República (PGR) para deliberar sobre desvios éticos.

E uma legislação que regulamente o lobby, incluindo limites para presentes e favores recebidos por agentes públicos, seria uma medida moralizadora básica, a exemplo do código de ética que o ministro Edson Fachin procura implantar no STF.

Cuba faz reforma tardia em meio à ruína econômica

Por Folha de S. Paulo

Mudança responde à crise causada pelo fim do fornecimento de petróleo venezuelano após a prisão de Maduro

Pacote inclui autorização para grandes empresas privadas; décadas de políticas estatistas sob regime ditatorial produziram um desastre

As reformas econômicas aprovadas pela Assembleia Nacional de Cuba, as mais amplas desde a Revolução de 1959, representam tanto rendição quanto resposta à realidade de aprofundamento da crise na ilha, que decorre do esclerosado modelo comunista e da arbitrária pressão americana.

Sob Donald Trumpas sanções à ilha foram radicalizadas, sobretudo após a derrubada do ditador Nicolás Maduro e o corte do fornecimento de petróleo da Venezuela. Na prática, está em vigor um embargo energético efetivo.

As consequências se mostram implacáveis para os cubanos: apagões de até 20 horas, inflação próxima de 30% anuais, escassez crônica e êxodo de mais de 1 milhão de pessoas em poucos anos —cerca de 10% da população.

O bloqueio comercial de seis décadas também serve de pretexto para o regime culpar Washington por todos os males. Mas seria erro grave minimizar a responsabilidade central da ditadura cubana. A rigidez ideológica, o controle absoluto do Estado e a resistência histórica a mudanças substantivas produziram um desastre econômico e social.

Reformas anteriores —como a autorização para micro, pequenas e médias empresas a partir de 2021— trouxeram alívio parcial. Surgiram negócios privados e algum dinamismo em setores como gastronomia e serviços. Entretanto as travas políticas impediram escala suficiente para estancar a decadência.

O escopo das medidas agora se anuncia mais amplo. Embora tenha classificado o embargo como "bárbaro", o próprio presidente Miguel Díaz-Canel culpou a burocracia que barra quem quer produzir e afirmou que a realidade "impõe mudanças urgentes".

O pacote inclui alterações radicais para o padrão cubano: fim da obrigatoriedade de investidores estrangeiros se associarem a empresas estatais; autorização para grandes empresas privadas (com mais de cem empregados); bancos privados; participação de capital estrangeiro e de cubanos no exterior em condições de igualdade.

Somam-se a isso permissão para importação e exportação direta por municípios e empresas; transformação de estatais em sociedades anônimas ou de capital aberto; redução de atividades proibidas ao setor privado.

Para os cubanos, a miséria produzida pelo status quo vai se tornando insustentável, e a ditadura não tem escolha a não ser aceitar a abertura econômica. No entanto os caminhos possíveis para o resgate após décadas de asfixia ainda estão sujeitos a inúmeras incertezas e desafios.

Risco da IA gera apreensão entre líderes globais

Por O Globo

Em meio a promessas de organismo multilateral, governo americano não se furta a impor regras próprias

É sintomático que tenham comparecido ao encontro do G7 na semana passada em Évian, na França, os três protagonistas na corrida da inteligência artificial (IA): Dario Amodei (Anthropic), Sam Altman (OpenAI) e Demis Hassabis (Google DeepMind). Os três almoçaram com os líderes das sete democracias mais ricas, além de União Europeia e convidados. A conversa revelou a apreensão dos poderosos diante do impacto da IA na economia e na segurança global. Também deixou claro que, entre todos os presentes, apenas os Estados Unidos detêm poder de influir nesse destino — e não têm se furtado a exercê-lo.

Em fevereiro, a Anthropic — cujos modelos de IA têm se revelado os mais sofisticados para uso por empresas e governos — foi banida pelo Pentágono de fazer qualquer negócio com o governo americano, por se recusar a aceitar que seus sistemas pudessem ser usados em vigilância ou armas autônomas. Amodei se transformou numa espécie de profeta dos riscos da IA. Sua pregação dentro e fora da empresa defende a regulação e a imposição de limites ao avanço da tecnologia. No almoço em Évian, ele exortou os presentes a trabalhar em conjunto e a “resistir à tentação de se dividir”. Foi, ao menos no discurso, secundado por Altman e Hassabis.

Empresas americanas estão na vanguarda do desenvolvimento da IA, já mais eficaz que humanos na confecção de trabalhos jurídicos ou na programação de computadores. Descobertas científicas impressionantes têm sido registradas em áreas como química ou matemática. É crível uma sucessão de novas conquistas, com cura para doenças hoje intratáveis, alternativas nunca pensadas para problemas como aquecimento global ou combate ao crime. A melhora exponencial dos modelos permite supor que um dia ultrapassem a capacidade intelectual humana. Tudo isso também traz riscos.

Em abril, a Anthropic anunciou um modelo capaz de encontrar vulnerabilidades em softwares, o Mythos — nas mãos erradas, ele permitiria a criminosos invadir sistemas de bancos ou empresas. Para encontrar fragilidades, abriu-o a testes restritos antes de oferecê-lo ao mercado. Em 9 de junho, lançou uma versão batizada Fable. Três dias depois, a Casa Branca, alegando risco à segurança nacional, proibiu que fosse usada por estrangeiros, mesmo morando nos Estados Unidos. A Anthropic então tirou o Fable do ar.

A maior preocupação do governo americano não parece estar no uso desses modelos, militar ou civil, mas em sua captura por potências estrangeiras, sobretudo pela China. Os chineses conduzem as únicas iniciativas capazes de alcançar o desempenho das americanas. Mas adotaram outra estratégia. Acreditando que no futuro modelos estarão facilmente disponível, apostam em versões mais baratas para aplicações específicas, com menor consumo de energia. É difícil saber qual estratégia será bem-sucedida, mas é fácil imaginar o poder do primeiro país que obtiver uma IA com recursos militares ou de vigilância robustos.

Na declaração final, os países do G7 afirmaram “trabalhar em conjunto com empresas líderes para acelerar a implantação segura e benéfica” da nova tecnologia. Avança a ideia de criar, para a IA, um organismo nos moldes da Agência Internacional de Energia Atômica. Não deveria ser necessário a IA demonstrar que tem poder de destruição equivalente ao das armas nucleares para isso acontecer.

Realidade mostra que conservar florestas não prejudica agronegócio

Por O Globo

Período de maior queda no desmatamento também registra aumento recorde na safra de grãos

Entre agosto de 2025 e maio passado, a área sob alerta de desmatamento na Amazônia diminuiu 37,5% ante o mesmo período de 2024 para 2025. Foram derrubados 2.189km², a menor área da série histórica da estatística, iniciada em 2016. No Cerrado, bioma que sofre pressão maior da fronteira agrícola, a redução foi de 8,2%, com a supressão da vegetação nativa alcançando 4.208km². Se a referência for apenas o mês de maio, as quedas são, respectivamente, de 61,4% e 12,2%. Ao mesmo tempo, a safra de grãos de 2024-2025 foi de aproximadamente 352 milhões de toneladas, e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), na sua previsão mais recente para a colheita de 2025-2026, estima o recorde de 359 milhões de toneladas. No período em que há grande redução no desmatamento, a produção agrícola continua a crescer.

Tal fato demonstra que é perfeitamente possível aumentar a produção sem agredir o meio ambiente. Basta investir em ganhos de produtividade, por meio de aperfeiçoamentos no plantio. Não é necessária nenhuma nova revolução para o Brasil conciliar aumento da produção e conservação. A principal deu-se a partir dos anos 1970 com a criação da Embrapa, centro de pesquisa responsável por adaptar diversas culturas ao solo brasileiro.

A tecnologia tem permitido índices de produtividade capazes de garantir o aumento de safra sem crescimento da área plantada ou ocupada por rebanhos. A evolução da produção de grãos atesta tal capacidade. Desde a safra 1976-77, a colheita anual cresceu 680%, e a área plantada aumentou apenas 125,6%. Se o país mantivesse a produtividade dos anos 1970, precisaria de 205 milhões de hectares a mais para colher a mesma safra, ou 24% do território nacional.

O aumento de produtividade foi alcançado não apenas na adaptação de culturas ao clima e ao solo brasileiros. A terra também passou a ser mais bem aproveitada, com mais de uma safra por ano. O melhor exemplo é o milho, até os anos 1980 plantado apenas para a safra de verão. Semeado de setembro a dezembro, era colhido de janeiro a maio. O avanço da soja, colhida em janeiro e fevereiro, permitiu o uso da mesma área para uma segunda safra de milho, a “safrinha” de inverno que, apesar do nome, representa mais de 75% da produção de 128 milhões de toneladas do grão. Na entressafra, o solo pode ser usado no cultivo de capim, que ajuda a regenerá-lo e serve de pastagem ao gado. Fecha-se, assim, o calendário agrícola, com aumento da lucratividade do produtor, sem que seja necessário avançar sobre áreas protegidas.

A ciência e a tecnologia têm permitido a convivência do agronegócio com políticas ambientais. A conservação das florestas é essencial para proteger o campo das mudanças no regime de chuvas e no clima. E também para blindar o produto nacional das acusações de grupos protecionistas que acusam o Brasil de desmatar florestas para expandir a agropecuária. Não há contradição entre proteção ambiental e avanço agrícola. Só ignorantes ou defensores do atraso insistem no contrário.

Um dique para o populismo fiscal

Por O Estado de S. Paulo

Ao propor súmula que exige compensação para novas despesas e renúncias fiscais, Gilmar Mendes resguarda a Constituição, a LRF e a sociedade contra pautas-bomba aprovadas no Congresso

O ministro Gilmar Mendes enviou ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, uma proposta de súmula vinculante para barrar medidas que criem despesas ou benefícios fiscais sem apresentar fontes de receita para custeá-las. A regra consolidaria uma jurisprudência para todo e qualquer projeto que venha a ser aprovado sem a devida compensação financeira e valeria para União, Estados e municípios. Não há dúvida de que a aprovação da súmula pelo plenário do STF seria extremamente positiva para o País.

Há alguns dias, o Senado avalizou uma série de pautas-bomba sem a menor preocupação com as contas públicas. A Comissão de Assuntos Sociais (CAS) aprovou o aumento do piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas para R$ 13.662, válido para as redes pública e privada. Não se discute o fato de que tais categorias mereçam reconhecimento, mas sim o impacto financeiro da medida, estimado pela equipe econômica em nada menos que R$ 8,4 bilhões por ano.

Com a desculpa de não onerar Estados e municípios, o Senado definiu que caberia à União complementar os recursos por meio do Fundo Nacional de Saúde (FNS). Ora, o fundo é custeado por impostos e tampouco tem dinheiro sobrando. Se a súmula proposta pelo ministro Gilmar Mendes já estivesse em vigor, os senadores, se realmente quisessem que o piso entrasse em vigor, teriam de propor alguma maneira de arranjar R$ 8,4 bilhões, seja por meio da elevação ou criação de tributos, seja por meio do corte de gastos.

No mesmo dia, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde, como salário integral e idade mínima menor para obtenção do benefício. A estimativa é de que a benesse consuma R$ 30 bilhões em dez anos. Novamente, não se questiona a importância do serviço prestado por esses profissionais, mas tais condições foram extintas há mais de 20 anos no serviço público e jamais existiram no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), cujo déficit, no ano passado, foi de R$ 321 bilhões.

Não é de hoje que o Congresso tem feito cortesia com chapéu alheio. É fácil aprovar bondades; o difícil é dizer claramente como elas serão financiadas. Dado que o Orçamento registra um déficit estrutural entre receitas e despesas há mais de dez anos, simplesmente repassar o gasto para a União não é uma solução. Afinal, isso aumenta a dívida pública e, consequentemente, a Selic, o que impede que o País possa ter uma taxa básica de juros em níveis civilizados.

Eis a relevância da súmula proposta pelo ministro Gilmar Mendes. Se a súmula for aprovada pelos ministros do STF, propostas como essas não terão mais respaldo. Parlamentares estão incomodados, mas não se pode dizer que o STF queira interferir nas prerrogativas de outros Poderes.

Em primeiro lugar, porque o Legislativo tem ignorado dispositivos estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) há 26 anos e pela Constituição há uma década. E em segundo lugar, porque a Suprema Corte com frequência é chamada a resolver essas controvérsias.

Foi o que ocorreu com o piso da enfermagem. Aprovado pelo Congresso em 2022 como uma maneira de reconhecer o trabalho da categoria durante a pandemia de covid-19, a proposta foi questionada no STF por meio de Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI). À época, o plenário decidiu que o pagamento do valor mínimo para a categoria não poderia ser exigido dos Estados e municípios se não houvesse apoio financeiro do governo federal.

Nada disso seria necessário se o Congresso assumisse sua responsabilidade e cumprisse seu dever. Propostas como essa jamais, por mais bem-intencionadas que fossem, teriam ido tão longe se comissões permanentes como a CCJ e a Comissão de Finanças e Tributação fizessem seu trabalho e averiguassem se seus dispositivos violam a Constituição e a LRF.

Fachin deu andamento à proposta de Gilmar Mendes e pediu que os interessados se manifestem sobre o tema. Se o País precisa de uma súmula vinculante para reafirmar o óbvio e barrar pautas-bomba, que assim seja. Não seria uma vitória do governo Lula, mas da sociedade brasileira.

Justiça Eleitoral e a tentação de vigiar

Por O Estado de S. Paulo

Ao ampliar o monitoramento de redes sociais, a Justiça Eleitoral precisa demonstrar que o combate à desinformação não ameaça as liberdades fundamentais dos cidadãos

A Justiça Eleitoral existe para organizar eleições, garantir sua integridade e julgar conflitos relacionados ao processo eleitoral. Não existe para vigiar permanentemente o debate público. A distinção parece óbvia, mas volta a merecer reflexão diante da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de contratar uma empresa especializada em inteligência cibernética e monitoramento digital para acompanhamento do tribunal.

Reportagem do Estadão revelou que a Corte prepara uma licitação para contratar uma empresa capaz de monitorar redes sociais, produzir relatórios de inteligência, acompanhar atores políticos e subsidiar ações de combate à desinformação. Segundo o tribunal, o objetivo é prevenir ameaças cibernéticas, proteger autoridades e enfrentar campanhas de desinformação.

Os documentos que embasam a contratação ajudam a dimensionar o alcance da iniciativa. O TSE afirma que a empresa deverá monitorar continuamente conteúdos considerados desinformativos, acompanhar mídias sociais de atores políticos e influenciadores relevantes e fornecer relatórios a diferentes áreas da corte.

Mais do que isso, a contratada poderá interagir com os chamados “atores maliciosos” para coletar informações sobre ameaças em curso, vazamentos e vulnerabilidades. O próprio documento menciona a possibilidade de remoção de conteúdos falsos relacionados ao tribunal. Trata-se, portanto, de uma estrutura que vai além da proteção de sistemas computacionais e passa a atuar diretamente sobre o ambiente digital em que ocorre o debate político.

O estudo elaborado pelo próprio TSE reconhece alguns riscos. Entre as desvantagens apontadas está o fato de que a empresa responsável terá conhecimento dos temas monitorados e dos resultados produzidos por esse acompanhamento. O tribunal sustenta que o problema é mitigado porque as informações coletadas são públicas. A justificativa, contudo, não elimina as preocupações.

Especialistas lembram que ferramentas de inteligência baseadas em fontes abertas não apenas coletam informações disponíveis na internet. Elas produzem inferências, identificam padrões e estabelecem conexões entre pessoas e grupos. O risco não está apenas nos dados coletados, mas também nas conclusões extraídas a partir deles.

A preocupação se torna ainda mais relevante porque a nova estrutura deverá abastecer a Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação, órgão que ganhou protagonismo durante a gestão do ministro Alexandre de Moraes no TSE. Nas eleições de 2022, a corte ampliou significativamente sua atuação no ambiente digital, determinando remoções de conteúdos e perfis sob o argumento de combater campanhas de desinformação.

Não se trata de ignorar as ameaças reais representadas pela disseminação de notícias falsas nem de questionar a necessidade de fortalecer a segurança cibernética da Justiça Eleitoral. Proteger urnas eletrônicas, bancos de dados e sistemas estratégicos é uma obrigação elementar do Estado.

O problema surge quando a fronteira entre proteger a infraestrutura eleitoral e monitorar o espaço público digital começa a se tornar difusa. Combater a desinformação pode ser uma missão legítima. Transformar órgãos estatais em observadores permanentes da atividade política dos cidadãos é outra coisa.

Há ainda uma questão institucional particularmente sensível. O enfrentamento da desinformação não pode servir de justificativa para que a Justiça Eleitoral acumule funções cada vez mais amplas de supervisão do debate público. Democracias maduras sabem que boas intenções não bastam para justificar a expansão contínua dos mecanismos de vigilância. Toda estrutura criada para enfrentar ameaças reais tende, com o tempo, a reivindicar novas atribuições, novos instrumentos e novos alvos.

O TSE foi criado para organizar eleições, não para patrulhar o debate público. Se a democracia exige vigilância contra abusos, exige também vigilância contra o crescimento excessivo do poder daqueles encarregados de combatê-los. Afinal, uma pergunta continua tão atual quanto necessária: quem vigiará os vigilantes?

Promessa de paz no Bruno Covas

Por O Estado de S. Paulo

Integrar o parque ao programa de segurança estadual era medida urgente

Pedalar, correr ou andar a pé no Parque Linear Bruno Covas, localizado entre o Rio Pinheiros e a pista sentido zona sul da Marginal, é um ato de coragem. Não é de hoje que ciclistas e pedestres relatam episódios de violência, com casos de roubo, que ilustram bem o alto risco que correm ao ousar transitar por ali. Desde que essa extensa área verde foi inaugurada, em 2021, os frequentadores vêm reivindicando mais infraestrutura, guaritas e câmeras. O pleito por mais segurança, enfim, parece que será atendido.

A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) e a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) juntaram esforços para dar uma boa notícia aos paulistanos: o governo paulista e o parceiro privado vão investir R$ 24 milhões para a melhoria da segurança no parque, com a instalação de 22 câmeras inteligentes, em 19 pontos, ao longo de 12 quilômetros.

As câmeras serão integradas ao bem-sucedido Programa Muralha Paulista, o projeto do governo estadual que conecta milhares de câmeras, sensores e sistemas de inteligência artificial, na capital e no interior. A ideia do governo Tarcísio de Freitas é ainda mais ambiciosa: integrar todos os parques estaduais urbanos ao Muralha Paulista.

No projeto pioneiro no Bruno Covas, os equipamentos terão recursos avançados de monitoramento e de análise de imagens, compartilhando com a polícia imagens, alertas e informações de interesse da segurança pública, como fluxos de circulação de frequentadores e as áreas consideradas mais sensíveis. É a tecnologia a serviço da segurança pública.

Conforme afirmou ao Estadão o diretor-presidente da Emae, Rafael Strauch, “o foco é aumentar a segurança daquela área, no sentido amplo”, permitindo que os usuários do Bruno Covas ocupem o parque durante o dia e à noite, sem que sintam medo, para correr ou andar de bicicleta. Por isso, acertadamente, parte dos recursos financeiros será aplicada na instalação de cabines de policiamento e monitoramento, postes de iluminação, sinalização de pistas, gradis para separar a ciclovia do Rio e da Marginal Pinheiros, pavimentação e plantio de árvores.

Não menos importante, a intervenção no Parque Linear Bruno Covas integra uma ação ainda maior: o Programa IntegraTietê, iniciado em 2023 pelo governo estadual para revitalizar os rios paulistas. A ideia é acelerar a despoluição do Rio Pinheiros com a universalização da coleta de esgoto até 2029. E, para mudar esse cenário, nada melhor do que estimular a presença dos paulistanos na margem do rio, com sua revitalização e mais investimentos em infraestrutura e preservação ambiental.

O Parque Linear Bruno Covas pode ajudar a resgatar o Rio Pinheiros, mas, para isso, precisará antes resgatar a confiança de seus frequentadores, ciclistas e pedestres. Os investimentos em infraestrutura e segurança são um bom começo no árduo trabalho para tornar o parque mais agradável. Se cumprida a promessa, em poucos meses, ciclistas e pedestres se sentirão mais tranquilos para ocupar um espaço acolhedor, e não hostil, na metrópole.

Brasil busca mais acordos para reequilibrar seu comércio

Por Valor Econômico

Com todo o invejável avanço das exportações agrícolas e minerais, o Brasil tem hoje a mesma fatia do comércio mundial que tinha na década de 1980

Sob o choque tarifário do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que colocou em xeque a globalização com suas muralhas protecionistas, o Brasil se vê diante de grandes desafios. Um deles é o de como compensar as vendas externas para o país que é seu segundo parceiro comercial isoladamente e um grande comprador de bens manufaturados. O segundo, mais relevante, é como reequilibrar o comércio externo para reduzir a dependência não só dos Estados Unidos, que tem tido comportamento hostil em relação ao Brasil, mas também da China, que consome um terço de todas as exportações brasileiras. O governo Lula, que sempre jogou na retranca em relação a acordos comerciais, agora os busca com celeridade, uma mudança importante e positiva para uma nação até hoje em geral fechada ao comércio.

As sanções contra o Brasil com base na seção 301 da legislação de comércio dos EUA provavelmente serão sacramentadas em julho, embora sua aplicação imediata não seja mandatória. Haverá tarifas de 25% para pelo menos um terço das vendas do Brasil e, depois, em outro processo, mais 10% pelo fato de, segundo o governo americano, o Brasil ser leniente com o trabalho escravo. Essas investigações não foram rigorosas ou isentas, e indicaram que há pouco espaço para negociações que o país tem tentado exemplarmente, deixando de lado a propaganda ideológica, que fecha portas.

O comércio com os EUA é deficitário no ano (US$ 1,47 bilhão), e sua participação nas vendas brasileiras caiu nos cinco primeiros meses do ano de 12% para 9,7%, com viés de baixa. Os produtos que estão sob o manto protecionista americano são justamente bens manufaturados, já que Trump deixou de fora commodities para as quais não encontraria substitutos nem em preço nem em quantidade, como café, suco de laranja, carne e outros.

A barreira aos manufaturados no maior mercado do mundo e, por outro lado, as enormes compras de bens primários da China e da Ásia (quase metade das vendas totais brasileiras vão para lá) indicam a incômoda tendência à predominância da participação de produtos agropecuários e minerais na pauta exportadora. Ela reduz o país à condição de vendedor de matérias-primas e comprador de máquinas, equipamentos e bens industriais, numa relação típica da era colonialista.

A nova realidade geopolítica foi o último empurrão decisivo ao acordo comercial do Mercosul com a União Europeia, ainda sujeito a solavancos e divergências, mas, de qualquer forma, o mais importante entendimento comercial do Mercosul até hoje. O bloco não ficou parado e fechou em setembro de 2025 acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta), que envolve Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, países ricos com 15 milhões de pessoas e PIB de US$ 1,4 trilhão. Em fase de promulgação, o acordo libera quase imediatamente 97% dos produtos comprados e vendidos pelo Mercosul com as nações do Efta.

O Brasil aprofundou as relações comerciais com o México e Canadá, outros compradores de manufaturas brasileiras - o último já compra aeronaves brasileiras e o primeiro tem intercâmbio intenso em automóveis e autopeças. O Mercosul anunciou recentemente que está perto de concluir um acordo com os canadenses, prevendo facilitação do comércio, proteção de investimentos e propriedade intelectual, além de cooperação tecnológica. De janeiro a maio, as vendas brasileiras ao Canadá cresceram 23,4% e ao México, 11,2%.

Curiosamente, ambos são membros do acordo de livre comércio com os EUA, prestes a ser renovado. Há, porém, a possibilidade de que o presidente americano deixe o acordo ou faça exigências desmedidas que levarão a seu fim.

Na cúpula do G7 na semana passada, encontro do presidente Lula com a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, acertou o lançamento de negociações para um Acordo de Parceria Econômica Mercosul-Japão a ser aprovado na cúpula de chefes de Estado do bloco, no fim de junho. O Brasil já assinou entendimento de cooperação tecnológica e de investimentos com a Coreia do Sul, enquanto o Mercosul tenta retomar negociações com o país para um acordo de livre comércio.

A abertura comercial é uma tarefa complexa, dada a baixa competitividade de vários setores da economia brasileira, especialmente no setor industrial. Japão, Coreia, Canadá levam vantagem em preço e tecnologia nas manufaturas, e acordos comerciais precisam ser bem calibrados para que haja uma transição que não elimine indústrias locais com potencial de avanço competitivo.

Não há, porém, um caminho alternativo, diante da ofensiva dos EUA, que rompeu grande elos das cadeias de comércio internacional. A abertura tornou-se uma necessidade e é benéfica para absorção de tecnologia e ganhos de competitividade permanentes, além de os setores que lidam com o comércio exterior estarem entre os que pagam melhores salários. Com todo o invejável avanço das exportações agrícolas e minerais, o Brasil tem hoje a mesma fatia do comércio mundial que tinha na década de 1980, cerca de 1,2%. É pouco para uma das dez maiores economias do mundo.

Respeito entre as nações

Por Correio Braziliense

A Copa do Mundo é muito mais do que uma competição esportiva. A cada quatro anos, ela transforma o futebol em uma linguagem comum, capaz de ser compreendida por pessoas de diferentes países, culturas, religiões e formas de vida

A Copa do Mundo é muito mais do que uma competição esportiva. A cada quatro anos, ela transforma o futebol em uma linguagem comum, capaz de ser compreendida por pessoas de diferentes países, culturas, religiões e formas de vida. Em um mundo cada vez mais marcado por disputas políticas, desigualdades econômicas e demonstrações de preconceito e separatismo, a competição oferece uma rara oportunidade de encontro simbólico entre as nações. Dentro e fora dos estádios, povos que muitas vezes se conhecem apenas por estereótipos passam a se observar, torcer, admirar e reconhecer uns aos outros.

O futebol possui uma força especial porque combina simplicidade e emoção. Suas regras básicas permitem que crianças, trabalhadores, estudantes e idosos acompanhem o jogo com a mesma intensidade, ainda que vivam em realidades muito distintas. Durante a Copa, bandeiras, hinos e camisas nacionais expressam orgulho e pertencimento, mas também revelam a diversidade do planeta. O torcedor celebra sua própria identidade ao mesmo tempo em que entra em contato com a identidade do outro. Assim, a competição ajuda a mostrar que a diferença não precisa ser vista como ameaça: pode ser motivo de curiosidade, respeito e aprendizado.

Esse entendimento entre as nações não significa ausência de rivalidade. Pelo contrário, a Copa do Mundo é feita de disputas intensas, vitórias inesquecíveis e derrotas dolorosas. No entanto, quando a rivalidade permanece no campo do jogo, ela se converte em uma forma civilizada de coexistência entre povos geográfica, cultural, historicamente distantes. Onde mais, não sendo em uma competição assim, é possível encontrar tunisianos e japoneses, belgas e iranianos, espanhóis e árabes, uruguaios e cabo-verdianos dividindo um mesmo espaço público? E conhecer histórias de atletas de países com os quais temos pouquíssimo contato — Jordânia, Curaçao, Nova Zelândia —, e ainda torcer por eles? 

Seleções se enfrentam segundo regras aceitas por todos, árbitros mediam conflitos, atletas se cumprimentam ao final das partidas e torcedores compartilham espaços públicos. A mensagem simbólica é poderosa: é possível competir sem destruir, defender a própria história sem negar a humanidade do adversário.

A Copa também funciona como uma vitrine cultural. O país-sede apresenta sua música, sua culinária, seus costumes, suas paisagens e seus desafios sociais a bilhões de espectadores. Ao mesmo tempo, recebe visitantes de todos os continentes, criando encontros que ultrapassam o calendário esportivo. Nas ruas, nos transportes, nos estádios e nas redes sociais, surgem conversas improvisadas, gestos de hospitalidade, trocas de lembranças e descobertas sobre modos diferentes de viver. Esses pequenos contatos não resolvem sozinhos os problemas internacionais, mas ajudam a reduzir distâncias e a humanizar povos que, muitas vezes, aparecem apenas como notícias distantes.

Além disso, o torneio revela que a identidade nacional é sempre construída em diálogo com o mundo. Muitos jogadores têm origem migrante, atuam em clubes estrangeiros e carregam histórias familiares atravessadas por deslocamentos, encontros e misturas culturais. Em campo, eles representam uma bandeira, mas também expressam a circulação global de pessoas, técnicas, sonhos e oportunidades. A Copa, portanto, lembra que nenhuma nação existe isolada: todas dependem de intercâmbios, influências e relações com outras sociedades.

É claro que a Copa do Mundo não elimina guerras, preconceitos ou injustiças. Também pode ser usada para propaganda política, interesses econômicos e disputas de poder. Em algumas edições, o clima que antecede o torneio deixa isso ainda mais evidente: protestos nas ruas, críticas à organização, tensões diplomáticas, conflitos armados, políticas migratórias rígidas e dificuldades de acesso para torcedores de determinados países mostram que a festa esportiva não acontece fora da realidade histórica. Antes mesmo de a bola rolar, o Mundial, especialmente a parte dos jogos sediados nos EUA, provocou inquietações que extrapolam o futebol e revelam as contradições do mundo que pretende reunir, com demonstrações de xenofobia e preconceito que, felizmente, não se repetiram desde que a bola começou a rolar.

Ainda assim, é justamente diante desse cenário de tensão que a Copa do Mundo revela parte de sua importância simbólica. Quando milhões de pessoas param para assistir ao mesmo jogo, mesmo de seleções que não são de seus países, quando desconhecidos se abraçam por um gol ou quando adversários reconhecem o talento um do outro, cria-se um instante de comunhão difícil de produzir por outros meios.

Por isso, o torneio tem valor para o entendimento entre as nações: ele mostra que a humanidade compartilha emoções básicas, como alegria, frustração, esperança e orgulho. Mostra também que as diferenças culturais podem conviver em uma mesma celebração global. Em tempos de fronteiras rígidas, crises diplomáticas e discursos de intolerância, o futebol recorda que o outro não é apenas rival, estrangeiro ou desconhecido; é alguém que também sofre, vibra e sonha. Nesse sentido, a Copa é uma metáfora do mundo possível: plural, competitivo, imperfeito, mas capaz de reconhecer no encontro entre povos uma oportunidade de respeito, diálogo e paz.

Vulnerabilidade social, mulheres, tráfico e exploração

Por O Povo (CE)

Operação realizada em três estados nordestinos (Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte) identificou um esquema criminoso que explorava mulheres. Vinte e duas foram resgatadas, a maioria cearenses. Todas naturais de municípios com alta vulnerabilidade social, sem educação formal ou perspectiva de emprego.

O recrutamento, de acordo com investigações do Ministério Público do Trabalho (MPT) e do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), surge para as jovens como promessa para ganhar dinheiro em outro estado e ajudar quem ficou na cidade de origem.

Operação constatou que uma mesma família era responsável por administrar pelo menos seis casas de prostituição. Nesses locais, as mulheres cumpriam jornada extensa, eram controladas por sistemas de dívidas, submetidas a metas abusivas e sofriam abusos sexuais e estupros. Elas viviam com apenas duas refeições diárias e em instalações desumanas.

Embora o trabalho sexual não seja crime no Brasil, se configura como crime a exploração de pessoas em condições de servidão por dívida, jornada exaustiva, condições de morada precárias, coação e ameaças.

Em tempos de plataformas de assinatura rentáveis que exibem conteúdo adulto, a descoberta do esquema de tráfico de mulheres voltado à exploração sexual lança luz a um problema antigo que persiste. Com um composto regional importante e exibindo o tamanho da vulnerabilidade social nos municípios do Nordeste. O deslocamento de mulheres de cidades pobres para outras cidades pobres em busca de uma vida melhor através da prostituição precisa receber a atenção dos órgãos competentes.

Diferentes condições e ausências de direitos aumentam as chances de mulheres serem aliciadas e exploradas em contextos abusivos, desde a falta de garantias na infância à proteção na vida adulta. Pobreza, desigualdade de gênero, racismo e violência doméstica e sexual constatam as lacunas normativas e de políticas públicas.

Mostram o tamanho do desafio a ser superado e enxergado com menos preconceito e mais prioridade a direitos básicos.

 

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