Censura de Flávio e Kassio a pesquisa merece repúdio
Por Folha de S. Paulo
Aspirante do PL tenta calar críticas, e
presidente do TSE arbitra aspectos técnicos de sondagem eleitoral
Praga da tutela estatal se acentua nas
eleições, quando ataques duros e conteúdos incômodos dão ensejo a interditos do
Judiciário
Liberdade de expressão para os amigos e as
notícias favoráveis. Para os adversários e os fatos desabonadores, a
censura. Flávio
Bolsonaro, senador do Rio aspirante ao Planalto pelo PL, incidiu nesse clássico
da hipocrisia política, coadjuvado pelo presidente do Tribunal Superior
Eleitoral, Kassio Nunes
Marques, o que é perturbador.
O partido chefiado pelo notório Valdemar Costa Neto achou por bem requisitar ao órgão regulador das eleições o veto à divulgação de uma pesquisa realizada pelo instituto AtlasIntel que detectou queda do seu pré-candidato presidencial após a revelação das escandalosas relações entre Flávio e o capo da máfia do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Na petição, o PL argumentou que o
questionário induziu os respondentes a rejeitarem o seu postulante por meio de
perguntas que informavam o entrevistado sobre o envolvimento do senador com o
banqueiro fraudador.
Na liminar
que acatou o pleito, Nunes Marques citou, como se isso endossasse a
acusação de parcialidade, comentário público feito por representante do
AtlasIntel de que as revelações eram potencialmente desgastantes para o
desempenho de Flávio. Trata-se de declarar o óbvio ululante.
A hipótese tanto era plausível que outros
institutos, como o Datafolha, verificaram o
mesmo movimento de declínio nas preferências pelo senador do
PL.
Que as profissões de fé do bolsonarismo a
favor da liberdade de expressão são apenas manobras táticas para defender
aliados das ações censoras do Supremo Tribunal Federal, alguém com alguma
memória poderia atestar. Na Presidência, Jair
Bolsonaro mandou a Polícia
Federal investigar autores de artigos que o criticaram,
assediou e ameaçou veículos e profissionais da imprensa.
O filho mais velho segue os passos do pai ao
tentar calar mensageiros de más notícias, e o pior foi Flávio ter convencido o
presidente do TSE do
tentame liberticida. Nunes Marques, com poucas semanas no cargo, já contraria
sua promessa de deixar o jogo eleitoral correr sem intervencionismo.
A praga da tutela estatal, problema crônico
da organização política brasileira, se acentua em período eleitoral.
Controvérsias, ataques duros e veiculações de notícias críticas, partes normais
da disputa, com frequência ensejam interditos da mão pesada da Justiça.
Trata-se o eleitor como um infante que não pode ser exposto a determinados
conteúdos.
Juízes eleitorais não têm competência para
arbitrar aspectos técnicos de pesquisas de opinião. A obrigação de registrar os
questionários antes da realização das entrevistas serve apenas ao requisito da
transparência. Não dá ao Judiciário poder de chancela nem de veto sobre os
levantamentos.
Se uma pesquisa é boa ou ruim, se adota
técnicas piores ou melhores, o mercado e a crítica em praça pública vão
decidir. Reputação não é algo que se conquiste nem se perca com uma canetada de
juiz. Censura não é caminho para nada que seja virtuoso.
Caso Henry Borel expõe ativismo judicial
temerário
Por Folha de S. Paulo
Juíza banaliza perdão, gera sensação de
impunidade e distorce pautas relativas aos direitos das mulheres
Protocolo do CNJ deixa claro que a
desigualdade de gênero em julgamentos deve ser considerada, mas não para
favorecer acusados
O julgamento
dos acusados pela morte de Henry Borel, de apenas 4 anos, levanta
questões relevantes sobre o papel do Judiciário na promoção da igualdade de
gênero e, principalmente, sobre os limites necessários ao ativismo judicial.
Segundo os laudos periciais, a causa da morte
foi hemorragia interna e laceração hepática causada por ação contundente.
A investigação policial apontou que o menino
havia sido agredido em outras ocasiões por Jairo Santos Júnior, companheiro da
mãe, Monique Medeiros, e que ela sabia das ocorrências.
Santos Júnior foi condenado a mais de 49 anos
de prisão por homicídio duplamente qualificado, tortura e coação no processo.
O júri condenou Monique por omissão em
tortura e homicídio culposo, mas a juíza Elizabeth Machado Louro concedeu
perdão judicial pelo segundo crime.
Além do sofrimento causado pela morte do
único filho, a magistrada alegou
que a ré foi alvo de um "massacre público" misógino e
vítima de uma cultura patriarcal que exige da mulher a
figura da "mãe perfeita".
A decisão gerou protestos na opinião pública
e críticas de especialistas. Em entrevista, a ministra Cármen Lúcia,
do Supremo Tribunal Federal (STF), disse que
"gênero não é salvo-conduto para prática de crime".
Isso porque, segundo a jurisprudência, o
perdão para homicídio culposo é medida excepcional concedida em casos de
acidentes que causam a morte de um parente do acusado. A dor da perda já seria
punição suficiente.
A condenação por omissão em tortura de
Monique deveria afastar a possibilidade de aplicação do perdão, já que agressão
contínua é algo obviamente distinto de casos como o de uma mãe que esquece seu
bebê no carro.
A desigualdade
de gênero em inquéritos e julgamentos merece ser considerada,
mas não como fator de favorecimento a acusados. É o que deixa claro o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero,
estabelecido por resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de 2021.
O objetivo é evitar, no curso do processo, a
repetição de estereótipos e a perpetuação de tratamentos discriminatórios —em
casos de estupro,
por exemplo, não é raro que vítimas sejam alvo de questionamentos sobre a vida
sexual ou vestimentas.
Além de banalizar o perdão judicial e gerar sensação de impunidade, a sentença militante da juíza distorce pautas legítimas, que podem, assim, passar a sofrer ataques. Na sua tentativa atabalhoada de proteger as mulheres, a decisão acaba por prejudicá-las.
Veto a pesquisa agride direito do eleitor a
informação
Por O Globo
Se restringir acesso a resultados da
AtlasIntel, TSE agravará tendência intervencionista que tem adotado
A primeira decisão de relevo tomada pelo
ministro Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
agrava uma tendência que, infelizmente, se acentuou nos últimos anos: a postura
restritiva à liberdade de informação dos eleitores, com o fito declarado de
preservar a lisura do pleito. Na segunda-feira, em decisão sem precedentes na
Corte, ele suspendeu, a pedido do Partido Liberal (PL), a divulgação de uma pesquisa
de intenção de voto da AtlasIntel publicada havia quase três semanas. A liminar
de Nunes Marques, cuja votação em plenário foi interrompida por pedido de vista
da ministra Estela Aranha, tem efeito prático nulo, pois todos já sabem o
resultado da pesquisa. É medida drástica que fere o direito do eleitor a
informações sobre a disputa eleitoral — e não deveria ser mantida.
No passado, a Justiça
Eleitoral já suspendeu pesquisas comprovadamente fraudulentas ou sem
rigor metodológico. Mas a decisão sobre a AtlasIntel lança mão de argumentação
inédita. Divulgada em 19 de maio, a pesquisa detectou queda acentuada do
pré-candidato Flávio Bolsonaro, captada também por outros institutos depois da
revelação do áudio em que ele pedia dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master,
para financiar o filme biográfico sobre seu pai. Na ação, o PL argumenta que o
questionário aplicado pela AtlasIntel não é neutro e induz escolhas do
entrevistado.
É fato que a AtlasIntel indaga sobre o grupo
político mais envolvido no escândalo, pergunta se o entrevistado ouviu o áudio
de Flávio e Vorcaro, se vê evidências de irregularidades e, por fim, reproduz a
conversa entre os dois. Para os advogados do PL, a pesquisa incorre em quatro
pecados metodológicos: faz perguntas que despertam memórias (priming), adota
uma moldura interpretativa (framing) ao usar expressões como “escândalo”,
revela informações que afetam o juízo (ancoragem) e segue uma ordem em que a
posição de uma pergunta afeta as seguintes.
Ora, as perguntas sobre intenção de voto na
eleição de outubro antecedem qualquer menção à relação entre Flávio e Vorcaro,
e o questionário não permite que o entrevistado volte atrás depois de
responder. Não há, portanto, como falar de priming, framing, ancoragem ou ordem
que induza as principais respostas. Mesmo adotando uma interpretação favorável
ao pleito do PL, não faria sentido suspender a divulgação da pesquisa, pois a
informação foi amplamente noticiada. Se o questionário era problemático, o TSE
poderia ter negado o registro antes da realização da pesquisa. Não tem lógica
impor restrições depois de aprová-lo. Mais grave foi Nunes Marques ter
considerado uma entrevista sobre a pesquisa dada por Andrei Roman, presidente
da AtlasIntel, como reforço ao argumento do PL. Em ano eleitoral,
representantes de institutos têm todo o direito a interpretar dados de
pesquisas — e o público, a ter acesso aos levantamentos.
É notável como o TSE tem nos últimos anos
adotado postura intervencionista. Na campanha de 2022, o plenário decidiu
remover um vídeo divulgado pela produtora Brasil Paralelo com conteúdo que
associava o então candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, a casos de
corrupção. A Corte também passou a determinar a suspensão de perfis, contas e
canais on-line com mais frequência. Num contrassenso, períodos eleitorais se
tornaram os de menor liberdade de expressão. Não é assim que se protege uma
democracia.
Suspensão da vacina do Butantan reflete
sensatez das autoridades
Por O Globo
Por cautela, vacinação contra dengue foi
interrompida depois de 42 casos adversos em mais de 500 mil
É sensata a decisão do Ministério da Saúde e
da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que suspendeu
temporariamente a aplicação da vacina desenvolvida
pelo Instituto
Butantan contra a dengue, depois do
registro de 42 casos de reações adversas inesperadas — três deles graves, com
dois resultando em morte. A medida traduz ao mesmo tempo a cautela necessária
diante dos fatos e a solidez das salvaguardas científicas que cercam o programa
de vacinação.
Foram aplicadas desde janeiro até o fim de
maio 501.044 doses da vacina, sobretudo em testes-piloto nas populações de 15 a
59 anos de Maranguape (CE), Nova Lima (MG) e Botucatu (SP). A partir de
fevereiro, começaram a ser imunizados profissionais da atenção primária e, em
março, os testes se estenderam à região de Araguaína, no Tocantins. Dos mais de
500 mil vacinados, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) registrou 3.703
casos de reações semelhantes aos sintomas da dengue e, desses, 42 apresentaram
“sinais de alarme”, como dores abdominais, vômitos ou sangramentos.
Ao todo, três desses casos foram considerados
graves, e dois desses pacientes infelizmente morreram. As autoridades
decidiram, por cautela, suspender a vacinação para investigar até que ponto os
efeitos adversos podem ser atribuídos à vacina ou a outros fatores. Não há
nenhum motivo para temor entre aqueles que foram vacinados, muito menos para
questionar os testes que corroboraram a eficácia da vacina. Realizados com
quase 11 mil voluntários, os ensaios de fase três, publicados na revista
científica Nature Medicine, demonstraram que a dose única reduz em mais de 80%
o risco de casos graves ao longo de cinco anos. “Numa situação de vida real, em
que vacinamos um número muito maior de pessoas, eventos raros que não foram observados
nos estudos clínicos podem aparecer”, afirmou Eder Gatti, diretor do PNI.
A vacinação continua a ser uma das principais
armas de combate à dengue. Depois de alcançar o recorde de quase 6,5 milhões de
casos e perto de 6 mil mortes em 2024, a doença arrefeceu no ano passado,
voltando à faixa de 1,6 milhão de casos e menos de 2 mil mortes. Ainda que
parte pequena desse resultado possa ser atribuída à vacinação, é esperado que a
ampliação da imunização surta efeito maior. Além da vacina do Butantan, o PNI
continua a oferecer a Qdenga, vacina da japonesa Takeda recomendada para
crianças e adolescentes, sem registro de maiores problemas.
O episódio com a vacina do Butantan em nada desmente a segurança das vacinas. Ao contrário, contribui para reforçar a confiança nas autoridades que comandam o PNI e nos critérios científicos que embasam suas decisões. É esperado que, uma vez esclarecidas as causas dos efeitos adversos, elas saberão adotar o rumo adequado, seja mantendo a suspensão, seja retomando a vacinação ou impondo restrições a determinados grupos.
Não existe solução ‘fácil, fácil’
Por O Estado de S. Paulo
A entrevista do governador do Rio retrata a
cultura política brasileira: simplificação de problemas complexos, defesa de
privilégios corporativos e transferência de custos ao contribuinte
Em entrevista ao Estadão, o presidente do
Tribunal de Justiça e governador interino do Rio de Janeiro, Ricardo Couto,
trouxe uma notícia animadora aos fluminenses: o Estado tem solução. Mais do que
isso, a solução é “fácil, fácil”, disse Couto – empossado por um processo
nebuloso no Supremo Tribunal Federal (STF). Depois de décadas de desperdício,
desequilíbrios fiscais, crises políticas e grossos escândalos de corrupção,
quem não gostaria de acreditar nisso?
A boa notícia é que Couto não ficou apenas no
discurso. Em poucas semanas, promoveu milhares de exonerações, iniciou revisões
de contratos e eliminou estruturas administrativas cuja utilidade era, no
mínimo, discutível. Num Estado que se acostumou a conviver com cabides de
emprego e feudos burocráticos, medidas dessa natureza merecem reconhecimento.
O problema começa quando essas iniciativas
são apresentadas como evidência de que os grandes impasses do Rio decorrem da
mera má gestão. Em colunas, manchetes e na repercussão política local, o
governador interino começa a ser tratado como grande estadista. Segundo um
colega seu no tribunal, Henrique Figueira, Couto está fazendo uma “limpeza
espetacular”.
Sem dúvida há desperdícios a cortar e
estruturas inchadas a enxugar. Ainda assim, o Rio não está na situação em que
está porque ninguém havia percebido a existência de uma ou outra subsecretaria
dispensável. O quadro periclitante de déficits bilionários, passivos
previdenciários gigantescos, baixa capacidade de investimento e renegociações
frequentes com a União não surgiu por falta de auditorias nem desaparecerá pela
simples eliminação de cargos comissionados.
A entrevista de Couto a este jornal é
particularmente reveladora. Ao comentar a remuneração da magistratura, o
governador interino informou ter recebido R$ 84 mil líquidos em abril e afirmou
considerar R$ 60 mil uma remuneração adequada para juízes, ante um teto
constitucional de R$ 46.366,19 brutos mensais. Na mesma conversa, mencionou
professores da rede pública que recebem cerca de R$ 2,5 mil e se perguntou por
que o Executivo não consegue pagar melhor seus servidores, já que teria margem
orçamentária maior que a do Judiciário.
Um tribunal administra um orçamento
importante, mas não sustenta uma rede estadual de ensino, hospitais, polícia,
sistema prisional, infraestrutura e aposentadorias de centenas de milhares de
pessoas. Não negocia dívidas bilionárias nem precisa acomodar, no mesmo
orçamento, prioridades que competem entre si diariamente.
A distância entre essas experiências explica
por que certas afirmações soam tão naturais dentro de alguns setores do poder
público. Quem vive num ambiente institucional protegido enxerga o orçamento de
forma diferente. A escassez continua existindo, mas aparece menos. O conflito
entre prioridades permanece, porém se torna menos visível. Aos poucos,
remunerações extraordinárias são normalizadas. Gastos adicionais – como os
“penduricalhos” que adornam o holerite dos juízes – encontram justificativas
“plausíveis”. Rombos – como os R$ 3 bilhões do Rioprevidência queimados em
títulos do Master – mais cedo ou mais tarde encontram um contribuinte para
financiá-los compulsoriamente.
As declarações de Couto oferecem o retrato de
uma mentalidade difundida em parte das elites estatais brasileiras. “Boa
gestão” aparece como solução “fácil, fácil” para desafios que se acumularam ao
longo de décadas.
Nenhum Estado prospera sem administração
competente. O Rio certamente precisa de mais eficiência, mais controle e menos
desperdício. Mas há uma diferença importante entre organizar a máquina e
reorganizar as finanças de um ente federativo profundamente endividado. A
primeira tarefa é indispensável. A segunda exige enfrentar limites que não
desaparecem por decreto nem por entusiasmo.
Talvez o aspecto mais preocupante das
soluções fáceis seja justamente sua capacidade de parecer convincentes. Afinal,
cortar excessos é visível. Rever contratos rende manchetes. Extinguir
repartições inúteis produz resultados imediatos. O difícil é explicar que o
essencial costuma estar em outro lugar: nas escolhas que distribuem recursos
escassos entre necessidades igualmente legítimas.
O corte de juros subiu no telhado
Por O Estado de S. Paulo
Guerra no Oriente Médio, impacto do super El
Niño e arsenal de medidas eleitoreiras do governo Lula pressionam inflação e
reduzem chances de o Banco Central continuar a reduzir a Selic
As projeções para a inflação deste ano
subiram pela 13.ª semana consecutiva e atingiram 5,11%, segundo a edição mais
recente do Boletim Focus. A
mediana das estimativas supera a meta e o limite de tolerância e afasta
paulatinamente a chance de o Banco Central (BC) continuar a reduzir os juros
nos próximos meses. Se há um mês o mercado projetava a Selic em 13% no fim
deste ano, os analistas elevaram a previsão para 13,25% na semana passada e
para 13,5% nesta semana.
Há cada vez menos motivos para imaginar que a
inflação possa desacelerar nos próximos meses, mas a ficha do mercado parece
ter caído apenas na semana passada. Diversas instituições revisaram suas
estimativas para a taxa básica de juros, hoje em 14,5%, e passaram a acreditar
que a Selic encerrará o ano em 14% ou até acima disso. Para a próxima reunião
do Comitê de Política Monetária (Copom), nos dias 16 e 17 de junho, as apostas,
que até então se concentravam majoritariamente em mais um corte de 0,25 ponto porcentual,
passaram a se dividir e incluir a possibilidade de manutenção da taxa.
Os problemas começaram com a guerra no
Oriente Médio, no fim de fevereiro, e o consequente avanço nas cotações do
barril do petróleo. O conflito segue sem perspectiva de acabar, bem como a
retomada do tráfego no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais de
abastecimento da commodity. Na improvável hipótese de que um acordo entre
Estados Unidos e Irã fosse anunciado hoje, os impactos do confronto nos preços
de combustíveis e fertilizantes e nas cadeias produtivas levariam meses para
serem revertidos.
O clima tampouco deve ajudar. A perspectiva
de um super El Niño no segundo semestre pode causar secas severas, ondas de
calor e temporais a depender da região do País, com impactos na safra agrícola
e na produção de energia. Não à toa, o Banco Central incluiu perguntas sobre os
efeitos do fenômeno climático na inflação no questionário pré-Copom enviado a
analistas no início deste mês. O objetivo é saber se suas estimativas de
inflação já consideram ou não esses problemas em potencial.
Não bastassem a guerra e o clima, o governo
federal tem tudo a seu alcance para agravar um quadro que a reportagem do Estadão corretamente
classificou de “tempestade quase perfeita”. A despeito do mercado de trabalho
aquecido, com desemprego próximo das mínimas históricas e salários em elevação,
e da inflação mais elevada no setor de serviços, o Executivo age como se o País
estivesse em crise e não para de anunciar medidas para estimular a demanda e a
economia.
Renúncias tributárias e subvenções para o
diesel até teriam justificativa num país em que o transporte de cargas se dá
majoritariamente por modal rodoviário, mas a inclusão da gasolina, do gás de
cozinha e do querosene de aviação mostrou que a porteira de gastos tinha sido
aberta. O anúncio da segunda etapa do Desenrola e a abertura de linhas de
crédito subsidiadas para a compra de caminhões, automóveis e, em breve, motos
evidenciou que as medidas visam a, basicamente, reverter o mau humor do
brasileiro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva até outubro.
Tudo isso tem impacto na demanda e,
consequentemente, na inflação e, por tabela, nas taxas de juros. O período do
chamado defeso eleitoral, quando o governo fica impedido de anunciar novas
medidas, começa apenas no dia 4 de julho e, até lá, a farra não deve acabar. É
tempo mais que suficiente para que os estragos aumentem também no Congresso,
onde tramitam o fim da escala 6x1, o aumento do teto do regime do
Microempreendedor Individual (MEI) e a renegociação das dívidas rurais.
Mesmo com juros tão elevados há tanto tempo,
o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,1% no primeiro trimestre, ante os três
últimos meses do ano passado, e 1,8%, em relação ao mesmo período de 2025. Até
o dólar, que ajuda a conter a inflação no mercado interno, disparou na semana
passada com a perspectiva de alta dos juros nos Estados Unidos. Fica cada vez
mais difícil, para não dizer impossível, defender juros mais baixos nesse
cenário – a não ser para um presidente em campanha pela reeleição.
Um sistema seguro
Por O Estado de S. Paulo
Suspensão temporária da vacinação contra
dengue atesta a competência da vigilância sanitária
A suspensão preventiva da aplicação da vacina
contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan não é motivo para pânico.
Muito ao contrário. Trata-se de uma demonstração inequívoca de que o sistema de
vigilância sanitária do País está funcionando exatamente como se espera.
O Ministério da Saúde decidiu interromper
temporariamente a campanha após o registro de 42 eventos adversos entre as 500
mil pessoas já imunizadas, dos quais 3 foram classificados como graves, 2 deles
resultando em morte. Embora ainda não haja confirmação do nexo causal entre o
imunizante e essas ocorrências, a pasta fez o certo, em nome da prudência, e
suspendeu a aplicação até que todos os estudos necessários sejam concluídos.
É precisamente assim que devem atuar as
autoridades sanitárias. O cuidado com a vida dos brasileiros, o bem mais
precioso a ser protegido pelas vacinas, exige que quaisquer eventos fora do
padrão sejam rigorosamente investigados, e com transparência e serenidade, não
alarmismo. É exatamente o que está acontecendo.
Os alarmistas (e negacionistas) tentam
transformar as fatalidades em prova de que as vacinas seriam inseguras. Como
este jornal já sublinhou um sem-número de vezes durante a pandemia, esse
discurso é tão falacioso quanto perigoso. A bem da verdade, a suspensão
temporária da aplicação da vacina contra a dengue demonstra a robustez dos
mecanismos da chamada farmacovigilância, que monitoram os efeitos dos
imunizantes já em circulação.
Não se pode esquecer que os estudos clínicos
não terminam quando uma vacina passa pelo longo trâmite regulatório e chega aos
postos de saúde. Após as fases iniciais de pesquisa e os ensaios clínicos que
permitem comprovar a segurança e a eficácia, inicia-se aquilo que os
especialistas chamam de testes de Fase 4: o acompanhamento do imunizante agora
aplicado em populações muito mais numerosas e heterogêneas. É justamente nessa
etapa que podem surgir eventos mais difíceis de serem detectados em grupos
menores de voluntários.
No caso da vacina do Butantan, os estudos
clínicos envolveram cerca de 11 mil participantes. A aplicação em meio milhão
de pessoas ampliou sobremaneira a capacidade de observação dos efeitos. Não há
nada de extraordinário nisso, tampouco no fato de que tenham surgido eventos
adversos que merecem apuração. O extraordinário seria ignorá-los.
Os dados disponíveis no momento continuam
apontando benefícios expressivos da vacinação contra a dengue. Segundo o
Ministério da Saúde, a vacina do Butantan tem eficácia de 65% e está associada
a uma redução de mais de 90% dos óbitos por dengue. Ademais, malgrado
importantes, os eventos adversos registrados permanecem numericamente baixos
diante do universo de pessoas vacinadas.
Isso não significa minimizar a gravidade das ocorrências. Longe disso. Cada caso deve ser investigado exaustivamente, sobretudo as causas dos dois óbitos registrados. As famílias afetadas merecem respostas. A sociedade idem. Mas o momento pede serenidade, não exploração irresponsável do medo das pessoas. Não há razão para desconfiar do sistema brasileiro de vacinação. Há, isto sim, ainda mais razões para considerá-lo seguro.
Cenário muda e se torna desfavorável ao
Brasil
Por Valor Econômico
O renovado vigor da economia americana voltou
a fortalecer o dólar, e enfraquecer o real, o que retirou um dos principais
fatores de queda da inflação brasileira
O cenário para a economia brasileira mudou
rapidamente para o lado negativo. Os recursos externos intensificaram a saída
das aplicações em ações, com fuga de R$ 15 bilhões em maio, embora o saldo
ainda seja positivo em R$ 39,76 bilhões até 8 de junho. O choque do petróleo,
commodity da qual o Brasil é exportador líquido, estimulou não só o grande
aporte de capital externo, como valorizou o real e contribuiu para reduzir a
inflação. Esse movimento se reverteu, especialmente pela mudança de
expectativas sobre o comportamento da economia americana, de sua política
monetária e da proximidade, ainda incerta, de um fim negociado do conflito
entre EUA e Israel contra o Irã.
O grande diferencial de juros domésticos em
relação aos dos Estados Unidos contribuiu para a atração de capital externo
para renda fixa e ações no Brasil, enquanto o dólar exibia tendência de baixa
internacional. O renovado vigor da economia americana, porém, voltou a
fortalecer o dólar, e enfraquecer o real, o que retirou um dos principais
fatores de queda da inflação brasileira. Ainda que o governo esteja amenizando
com subsídios parte dos efeitos do choque do petróleo nos preços internos, a
mudança de rota da moeda americana traz dificuldades adicionais, com o retorno
de um ciclo perverso: commodities em alta com a moeda de conversão (dólar)
caminhando na mesma direção.
O ciclo de afrouxamento monetário brasileiro,
diante de pressões adicionais nos preços, é agora considerado natimorto pelos
investidores. Embora a enorme taxa de juros real (9%) seja mortal para os
negócios e os investimentos, com peso substancial sobre os resultados das
empresas, seu diferencial em relação aos juros americanos tende a cair, diante
da perspectiva de mudança de atitude do Federal Reserve. O choque do petróleo
levou a inflação ao consumidor nos EUA a 3,8% em abril e elevou o núcleo do
índice de gastos pessoais do consumo a 3%, em alta, ambos bem acima da meta de
2%.
Não é apenas o choque externo ou o impulso
inflacionário passivo vindo da guerra contra o Irã que ensombrece as
perspectivas para o Brasil. A economia americana continua em boa forma, como
mostrou a surpreendente criação de postos de trabalho em maio, de 172 mil
vagas, o dobro do previsto pelos analistas. O desempenho não é um ponto tão
fora da curva, já que grande parte dos empregos criados o foi no setor de
alojamento e turismo, às vésperas de uma Copa do Mundo na qual as cidades
americanas são as maiores hóspedes dos jogos.
De qualquer forma, a boa performance da
criação de vagas retirou do cenário o fantasma da derrocada do mercado de
trabalho, o principal motivo para que o Fed iniciasse o ciclo de afrouxamento,
a despeito de os índices de preços se situarem bem acima da meta.
Os investidores não esperam mais um par de
corte dos juros nos EUA em 2026, mas, ao contrário, um aumento da taxa até o
fim do ano. Mesmo que não se saiba quando o choque do petróleo acabará, há
outros fatores em jogo.
Os investimentos em inteligência artificial
(IA) sustentam o crescimento de muitos setores relacionados à tecnologia,
garantindo o crescimento, mas pressionando a inflação. Os preços também tendem
a subir diante da nova investida tarifária do presidente Donald Trump e dos
efeitos estimulantes dos cortes de impostos que vigoram desde o início do ano.
Um estudo do Fed de Boston estima que alta de preços do petróleo, dos serviços
correlatos à IA e seus investimentos acabará elevando o índice de gastos
pessoais do consumo (PCE) em 1 ponto percentual até o fim do ano (Chris Giles,
FT). Se a previsão estiver correta, a inflação ultrapassará 4%, sepultando a
possibilidade de o Fed reduzir os juros e talvez obrigando-o a subí-los.
Se o cenário externo começa a se mostrar
desfavorável ao Brasil, fatores domésticos colaboram para a mudança de
perspectiva. Com estímulos fiscais e parafiscais oficiais que chegam perto de
2% do PIB, a economia brasileira mantém um ritmo incompatível com a queda de
preços almejada pelo Banco Central e pela sua política monetária exacerbada. A
trajetória ascendente da dívida pública bruta acrescenta incertezas que se
refletem em um prêmio maior sobre os juros futuros, que deixaram de apontar
qualquer redução em relação ao nível atual (14,5%).
A confluência dos cenários externos e interno
desfavoráveis indica que a inflação subirá mais, empurrada ainda pela
possibilidade de um El Niño vigoroso. Eleições sem favoritos claros, em
ambiente polarizado, contribuem para a cautela dos investidores externos, da
mesma forma que retaliações protecionistas dos EUA contra o Brasil, que poderá
ser punido com as maiores tarifas de ingresso no maior mercado mundial.
Na tentativa de se reeleger para um quarto mandato, o presidente Lula não tem poupado o uso do dinheiro público, bem escasso há muito tempo. Não há como endividamento, juros e inflação entrarem em trajetória declinante sem esforço de austeridade e superávits primários consistentes, sem truques, nas contas públicas. O atual governo nunca cogitou isso, mas deveria pelo menos se resguardar de ampliar o rombo das contas públicas, que pode se tornar sua própria herança maldita, caso Lula seja reeleito.
Bola é barrada nos guichês de imigração
Por Correio Braziliense
Ao pleitear e aceitar sediar o maior torneio
do planeta, um Estado assume o compromisso mínimo de garantir o livre trânsito
de delegações, árbitros e imprensa credenciada
A deportação sumária do árbitro somali Omar
Artan, eleito o melhor do continente africano, no aeroporto de Miami é o
símbolo de uma Copa do Mundo que começou a ser decidida nos guichês de
imigração. Com visto válido no passaporte, Artan foi impedido de entrar nos
Estados Unidos e cortado do torneio em uma decisão unilateral.
O episódio não é isolado. As últimas semanas
acumulam constrangimentos diplomáticos: o interrogatório de sete horas imposto
ao atacante iraquiano Aymen Hussein em Chicago, a negação de vistos para
jornalistas africanos e asiáticos relatada pela Associação Internacional de
Imprensa Esportiva. O que deveria ser um evento de integração global vai se
transformando em um labirinto de vetos arbitrários.
O impacto dessa triagem compromete a equidade
da competição. O Irã, que já havia tido a entrada de seus dirigentes barrada no
sorteio dos grupos, viu sua federação perder a cota oficial de ingressos por
imposição das autoridades americanas. Torcedores que haviam se planejado
financeiramente para a viagem estão sendo punidos exclusivamente por sua
nacionalidade. Haiti e Irã, nações atingidas pelo veto migratório assinado na
era Trump, veem a isenção prometida a atletas esbarrar na intransigência
burocrática. O torneio não oferece trégua: apenas espelha os bloqueios do
país-sede.
Sob qualquer ótica, é inadmissível que um
evento dessa magnitude opere sob tamanha imprevisibilidade. A postura assumida
pela Fifa diante do governo estadunidense contrasta de forma brutal com o
histórico da entidade em outras sedes. Quando o torneio foi sediado no Brasil,
na África do Sul ou no Catar, a federação exigiu mudanças em leis federais,
impôs isenções fiscais bilionárias e estabeleceu exigências de acesso com mão
de ferro, tudo sob o argumento de que as garantias da competição eram
inegociáveis. Confrontada agora com o rigor unilateral das agências americanas,
a mesma Fifa aceita que a política externa de Washington dite quem pode ou não
pisar no gramado.
Não se discute o direito soberano de qualquer
nação de proteger suas fronteiras. Contudo, ao pleitear e aceitar sediar o maior
torneio do planeta, um Estado assume o compromisso mínimo de garantir o livre
trânsito de delegações, árbitros e imprensa credenciada. A indisposição de
honrar esse compromisso esvazia o propósito do Mundial. Aceitar que a imigração
atue como filtro de nacionalidades é chancelar um retrocesso na governança do
esporte global.
O grande prejudicado não é o árbitro impedido de apitar nem o torcedor barrado na fronteira — é o esporte. A Copa do Mundo existe porque, durante ao menos 90 minutos, a origem de um jogador não deveria importar mais do que o que ele faz com a bola. Quando um carimbo de imigração decide quem entra em campo, esse princípio deixa de ser ingenuidade para se tornar mentira.
É preciso assegurar confiança nas vacinas
Por O Povo (CE)
Decisão de suspender a imunização enquanto se
investiga um possível problema é o maior exemplo de que o sistema funciona
O Ministério da Saúde agiu corretamente ao
suspender temporariamente a aplicação da vacina contra a dengue, produzida pelo
Instituto Butantan. Tomada essa providência, o ministro da Saúde, Alexandre
Padilha, veio a público dar os devidos esclarecimentos à população brasileira.
Essa é uma das vantagens da democracia, que exige a transparência dos governos.
O fato é que a decisão de suspender a
imunização enquanto se investiga um possível problema é o maior exemplo de que
o sistema funciona, pois o monitoramento continua para confirmar a segurança da
vacina, mesmo após a liberação para o uso.
Possíveis efeitos adversos da vacina não
apareceram durante rigorosos testes efetuados antes de sua produção. Foi o
acompanhamento posterior que identificou, após a vacinação de 500 mil pessoas,
42 eventos adversos considerados severos e duas mortes.
Porém, ainda não está comprovado que as
causas tenham sido decorrentes da vacina, o que ainda está sob investigação. Ou
seja, não existe prova conclusiva de que os episódios foram decorrentes do
imunizante, o que será agora investigado em profundidade para verificar se os
eventos tiveram relação com a vacina ou se as reações adversas e as mortes
foram decorrentes de outros motivos.
É preciso lembrar que os episódios não dizem
respeito aos resultados da vacina para o que ela se propõe. Os acontecimentos
de agora não questionam estudos clínicos que mostraram o alto grau de proteção
contra a dengue, além de evitar hospitalizações.
Se a medida do governo e das autoridades
sanitárias foi correta, isso não impediu que oportunistas que pululam nas redes
sociais expusessem seu negacionismo. Eles retomaram a campanha aberta contra as
vacinas, uma providência que salvou e continua salvando milhões de vidas ao
redor do planeta e, mais recentemente, seu papel fundamental para conter a
epidemia da Covid-19.
Esses sujeitos de má índole aproveitam o
episódio para ressuscitar a fake news de que as vacinas são inseguras, de modo
geral, com alegações anticientíficas e criminosas, ao pôr em risco a vida de
desavisados que passam a duvidar ou mesmo temer a vacinação.
É preciso considerar que o Instituto Butantan
é vinculado ao governo do estado de São Paulo, dirigido por Tarcísio de Freitas
(Republicanos), mas a distribuição da vacina no Sistema Único de Saúde (SUS)
foi iniciativa do Ministério da Saúde. Portanto, os dois governos estão
vinculados e, qualquer que seja o resultado das investigações, a
responsabilidade recairá sobre ambos..
Assim, a tarefa dos governos federal e de São Paulo é evitar que o episódio descambe para desconfiança generalizada sobre as vacinas.

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