sábado, 13 de junho de 2026

Os 'monstros' que maltratam animais, por Eduardo Affonso

O Globo

Uma capivara sofreu traumatismo craniano e lesão ocular após ser espancada com pedras e barras de ferro no Rio

O Ministério Público de Santa Catarina concluiu que o cão Orelha não foi torturado e morto, e o caso acabou arquivado. Escrevi aqui, na ocasião, sobre “os monstros da Praia Brava”. Apontei “meninos ricos” como os culpados. Errei. Os monstros que imaginei continuam existindo — só não eram aqueles, e não estavam apenas lá. São muitos mais, de todas as idades e classes sociais. E contam, se não com a cumplicidade, com a omissão da família, da sociedade e da lei.

Uma capivara sofreu traumatismo craniano e lesão ocular após ser espancada com pedras e barras de ferro na Ilha do Governador. Uma “empresária” paulista foi presa (e solta em seguida) por torturar e matar coelhos, pintinhos e gatos, esmagando-os com os pés, em performances de zoossadismo vendidas em vídeo. Sim, há plateia para isso.

Não são casos isolados: há redes criminosas que aliciam crianças e adolescentes para radicalização on-line. O sadismo começa com os animais domésticos, mais vulneráveis, e evolui para automutilação, abuso sexual, ataques violentos, indução ao suicídio. Surgem sinais: mudança de comportamento dos pets, que também podem aparecer feridos ou mortos sem motivo aparente. O Núcleo de Prevenção à Violência Extrema, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, desenvolveu estudos sobre o tema, organizados por Fábio Costa Pereira, com a colaboração de Michele Prado e Taís Soares Olympio. É uma tomografia desse horror.

A polícia de São Paulo estima que ocorram até 15 sessões de tortura on-line de pets cada madrugada. Talvez não sejam tantos, mas são certamente dezenas por mês. E os monstros entrevistos, por engano, na Praia Brava, podem estar agindo no apartamento (ou no quarto) ao lado.

O esvaziamento de empatia tem início fora do submundo da internet, na naturalização do animal como mera fonte de proteína ou de entretenimento. A expressão “chorando igual bezerro desmamado” fala do sofrimento do bebê separado de sua mãe, ainda na fase de lactação. É dessa dor que se alimenta a indústria de laticínios. Não é ainda a crueldade pela crueldade, mas a insensibilização começa lá. E, se nos deixamos seduzir pelos ovos saudáveis de “galinhas felizes”, é porque está implícita a infelicidade das que passam a vida engaioladas, com seu ciclo natural alterado para produção de ovos em escala industrial.

No final de maio, foi eutanasiada em Nova York uma elefanta que passou a vida — mais de cinco décadas — trancada num zoológico. Não é a única, não será a última. Não participou das complexas redes sociais de sua espécie, não percorreu as grandes distâncias que são seu aprendizado. Seu mundo foi um cercadinho. Era uma criatura que se reconhecia no espelho, que tinha consciência de si mesma. Privada de seus direitos mais elementares, foi batizada, ironicamente, de Happy.

Já não usamos choques elétricos e metais afiados para adestrar animais em circos, mas os mantemos confinados com a desculpa de estimular o interesse pela vida selvagem. Um documentário que os mostre livres, nas florestas, desertos, savanas, oceanos, ensina muito mais.

A comoção por Orelha terá sido injusta e desproporcional, mas simboliza o que sentimos por outros seres — os torturados para gozo dos sádicos; os sacrificados para o deleite gastronômico; os aprisionados para nossa diversão. Os monstros estão entre nós, não na distante Praia Brava.

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