O Globo
Num ambiente eleitoral em que as plataformas
podem ser punidas por omissão, elas tenderão, em caso de dúvida, a remover
mais, e não menos
‘Antes, eu dizia que valia quase tudo. Hoje,
vale tudo para salvar a democracia’, disse o deputado André Janones (Rede-MG)
ao explicar em encontro do PT até onde estava disposto a ir como operador
digital da campanha do presidente Lula.
É uma frase extraordinária.
No evento, Janones falava na condição de palestrante que atuou como ponta de lança digital na campanha que elegeu Lula em 2022 e agora se prepara para reassumir o posto. Com orgulho incontido, relatou como, em duas ocasiões, usou sua técnica de “desviar o foco” e “criar versão dos fatos”, que nega equivaler à mentira.
Exemplos: inventou que o candidato Jair
Bolsonaro, se eleito, poderia nomear o ex-presidente Fernando Collor ministro;
e, às vésperas de um debate, para desestabilizar o oponente de Lula, espalhou
ter tido acesso a conteúdo explosivo do celular do falecido ex-ministro Gustavo
Bebianno. “Estou me lixando de falarem que é de baixo nível”, completou.
A contar pela falta de cerimônia do discurso
— e pela ausência de protestos na plateia petista —, não será pouco o “tudo”
que Janones promete fazer neste ano para “salvar a democracia”. Estará à altura
de sua nêmesis, o também deputado, influenciador e especialista em espertezas
digitais Nikolas Ferreira (PL-MG), que em 2025 surfou na mentira de que o
governo do PT poderia futuramente taxar o Pix.
À parte o festival de finezas, sugere a fala
de Janones, a que os brasileiros deverão assistir nesta eleição, sua frase
lapidar mostrou como a plasticidade do conceito de desinformação pode fazer com
que sirva a diferentes e até antagônicas funções. O combate às fake news é
necessário para salvar a democracia? Pois seu uso também pode ser, informou o
deputado.
No Brasil, fake news deixou há muito de
designar apenas uma mentira espalhada em massa para virar uma categoria
moralmente prestigiosa a justificar medidas excepcionais. O Inquérito das Fake
News, aberto de ofício e depois de sete anos ainda vivo, é um monumento a essa
exceção permanente.
A situação tende a piorar neste ano
eleitoral. Por lei, a contenção das fake news nas redes se dará em três
instâncias. A detecção inicial dos conteúdos ilícitos — por falsidade,
manipulação, descontextualização — caberá, em grande parte, às plataformas.
Executivos e moderadores de empresas como X, YouTube e TikTok decidirão se
determinado material deve ficar no ar, ser reduzido em alcance ou removido. O
Tribunal Superior Eleitoral também pode determinar a remoção de conteúdo que,
pelos mesmos motivos, considere passível de “afetar o equilíbrio da eleição ou
a integridade do processo eleitoral”.
A ANPD, vinculada ao Ministério da Justiça,
não tem competência para dizer se este ou aquele post é falso. Seu papel, pelo
Decreto 12.975/2026, assinado por Lula, será fiscalizar se as plataformas
cumprem suas obrigações. Se a distinção parece tranquilizadora, engana-se o
leitor. Num ambiente eleitoral em que as plataformas sabem poder ser punidas
por omissão, elas tenderão, em caso de dúvida, a remover mais, e não menos. O
governo não precisa ser oficialmente o Ministério da Verdade para influenciar o
ecossistema das redes. Basta criar os incentivos para que outros — por cautela
ou conveniência — façam o trabalho censório e seletivo.
É nesse ambiente, em que fake news podem
justificar providências e controles extraordinários, que a concepção
maximalista da liberdade de expressão passa a fazer sentido — resguardados,
obviamente, os crimes previstos em lei. Fake news são perniciosas, mas o custo
de dar ao Estado, ao Judiciário ou às plataformas a prerrogativa de calar
ideias que consideram falsas ou distorcidas pode ser mais perigoso que o dano
que se pretende evitar. Janones ensinou a lição: na política e nas eleições, o
mesmo expediente pode ser crime ou virtude — é só uma questão de ponto de
vista.

Janones e Nikolas não deviam estar na política,simples assim.
ResponderExcluir