Folha de S. Paulo
Custo do dinheiro e pagamentos de credores
estão em níveis recordes no século
Anabolizante do capital externo ajudou a
disfarçar problemas no curto prazo
As taxas de juros não
vão cair tão cedo. No máximo, o Banco Central talvez
dê uma gorjeta pequena na reunião da semana que vem, quando decide a Selic:
corte mínimo e basta. No mais, o caldo entornou, em uma situação já muito
grave. O país não parece ligar muito.
O Desenrola 2 vai enxugar mais gelo. Empresas continuam no caminho de renegociação de dívidas e recuperação judicial ou gastam o que ganham em juros ou, aquelas em situação melhor, deixam de investir por causa do custo de capital. A taxa de investimento, sempre longe do necessário nos últimos 40 anos, vai minguando para níveis dos anos da economia deprimida.
No mercado, o dinheiro está aplicado em uma
Selic a 14,5% (nível atual) e de 15% na virada do ano. Para quase todos os
prazos mais longos, estão em
níveis próximos daqueles do pânico da virada de 2024 para 2025.
Pode ser um mercado "disfuncional",
"desorientado" pelos choques recentes, exagerado, quem sabe. Isto é,
ora sem rumo por causa de choque de petróleo mais duradouro, por causa de
economia mais acelerada do que se imaginava, por estímulos de crédito do
governo ou risco de alta de juros nos Estados Unidos. Mesmo que se desconte o
exagero, o rolo não passa tão cedo, até porque
vai haver eleição. O problema é que a conta de juros já andava
em nível tétrico.
Neste século, o governo federal quase nunca
pagou tanto juro quanto agora. A despesa foi a 7,2% do PIB, o equivalente a R$
1 trilhão nos últimos 12 meses, em termos reais.
Apenas entre meados de 2015 e início de 2026
a conta de juros foi um pouco mais alta, como porcentagem do PIB, como
proporção do tamanho da economia. O país estava então em colapso, na Grande
Recessão, com PIB diminuído e alta de juros por causa de vários motivos, entre
eles a inflação que aumentava também por causa do fim dos tabelamentos de
preços de Dilma 1, entre outros tantos desastres daqueles anos.
A taxa real de juros que o governo federal
paga para financiar seus déficits e para rolar os juros que vencem foi nos
últimos 12 meses a mais alta desde 2007, desde quando há dado
oficial disponível. A dívida pública aumenta de modo acelerado e sem limite,
mesmo nestes tempos de crescimento razoável da economia, no primeiro triênio de
Lula 3. Razoável: pouco acima da média medíocre das últimas três décadas. O que
acontece se sobrevier desaceleração forte do PIB?
Houve azares, por assim dizer, como o choque
de preços do petróleo, que ainda vai durar, mesmo que arrefeça. Houve reviravolta
no fluxo de capital que entra e sai do país, uma droga de curtíssimo prazo.
Os donos do dinheiro grosso do mundo, que
pingaram trocados bilionários por aqui no primeiro terço do ano, mudaram um
tanto de ideia. Os recursos não vinham por motivos "fundamentais"
(estabilidade macro, perspectiva de crescimento etc.), mas por realocação
momentânea de capital. Aparentemente, agora acham interessante levar parte do
dinheiro para ações e IPOs das
"big techs magníficas", apesar dos tombos estranhos
recentes no mercado americano. A reviravolta, nem tão dramática, contribui para
a desvalorização recente do real e um tico mais de inflação.
É verdade. Mas resolvemos sair na rua com
roupa feita de papel, achando que não viria chuva ou tempestade. Está chovendo
grosso nestas últimas semanas. O fim do anabolizante do capital de curto prazo
mostrou de novo nossa esqualidez fiscal: déficits permanentes e bola de neve da
dívida.
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