domingo, 21 de junho de 2026

Palmares, sempre! Por Ivan Alves Filho*

Qual o traço de união entre o arquiteto Oscar Niemeyer, o ativista político Astrojildo Pereira, o cineasta Cacá Diegues, o poeta Castro Alves, os músicos Edu Lobo e Luiz Carlos da Vila, o historiador Joel Rufino dos Santos, o documentarista José Carlos Asbeg, o pintor Antônio Parreiras, o pesquisador Nei Lopes, o escultor Jorge dos Santos, o antropólogo Edison Carneiro e o ator Deo Garcez? A resposta é esta: todos, independentemente da época em que atuaram ou atuam e das funções que exerceram ou exercem ainda na vida brasileira, incorporaram o Quilombo dos Palmares às suas trajetórias profissionais e de vida.

Isso já diz muito a respeito do que esta luta lendária contra a escravidão representa para nós, cidadãos brasileiros. Em outras palavras: como ficar indiferente a esta presença tão fundamental na construção da nossa nacionalidade?

Decididamente, a luta de Zumbi e de seus seguidores não foi em vão. Quase ninguém sabe quem governava a Colônia no momento do assassinato de Zumbi, mas todos nós sabemos quem foi Zumbi dos Palmares. Um fato como este, por si só, revela o quanto a sociedade civil é maior do que o Estado no Brasil. A História me ensinou, ao longo de cinco décadas de pesquisas, que conhecimento e transformação social estão sempre irmanados, como os dedos das mãos. E a práxis é precisamente isso, a união da teoria com a prática. 

Eu pesquiso a trajetória do Quilombo dos Palmares desde pelo menos 1975, quando de minha primeira ida a Portugal, para trabalhar nos arquivos de lá. A data não se deu por acaso: poucos meses antes, ocorreu a Revolução dos Cravos, abrindo a via para o fim da ditadura salazarista e, com ela, o desmoronamento do colonialismo português em vários pontos da África. Eu apresentei o primeiro resultado do meu trabalho na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, fundada pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss, um homem que conhecia profundamente o Brasil. E, em 1988, ano do centenário da Abolição, eu publiquei o livro Memorial dos Palmares, hoje em quarta edição. Esta data tampouco se deu por acaso. Ou a liberdade não é uma marca na trajetória do Quilombo dos Palmares? 

Eu destaco alguns pontos envolvendo Palmares. Assim, já em 1988, eu soube, por um amigo do Rio de Janeiro, que um filho seu, geógrafo integrante de um grupo de apoio ao governo de Angola, que o Memorial dos Palmares havia sido adotado nos cursos de formação política do Movimento Popular pela Libertação de Angola, o MPLA. Esse é o primeiro ponto. Cai o pano. Estamos em 1998. O diplomata senegalês Doudou Diène, então secretário-executivo da  Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e Cultura (UNESCO)  estabeleceu um contato comigo, por intermédio de Dulce Pereira e de Geraldo Rodrigues dos Santos, e marcamos uma conversa em seu gabinete, em Paris. 

Dela participaria ainda Violeta Aguiar, sua colaboradora e sobrinha do então presidente de São Tomé Príncipe, Miguel Trovoada. A partir daí, elaborei um projeto, de 20 páginas, a respeito do tráfico de escravizados. Confesso que senti o peso da responsabilidade. Doudou Diène era amigo pessoal de Nelson Mandela e seu objetivo era pedir ao grande líder sul-africano para que apresentasse o resultado de meu trabalho na Organização das Nações Unidas (ONU). Com base nisso, Nelson Mandela, que eu conheci no Rio de Janeiro, logo após a sua libertação, quando fazia campanha para a Presidência do seu país, iria pedir a abolição da dívida externa da África subsaariana. 

Infelizmente, a UNESCO não teve condições de levar adiante esta proposta. De qualquer forma, eu pude sentir que a História não é um simples passado, que ela é um processo. Nem preciso dizer da minha emoção. Eu tinha então 45 anos de idade. Este foi o segundo fato. 

Agora vamos ao terceiro acontecimento. Eu conto. Fui convidado, há alguns meses, pelo ator e dramaturgo Deo Garcez para adaptar Memorial dos Palmares para o teatro. Haja emoção, de novo. A peça deve estrear em breve, sob a direção de Soraia Arnoni e produção de Rafael Lydio. A própria trajetória de Deo Garcez, estupendo profissional, totalmente comprometido com a luta contra o racismo e a causa dos desvalidos, é garantia de que teremos um belo espetáculo cultural. Na peça, há passagens declamadas e momentos de leitura do livro. 

Assim, o próprio fato de o Memorial dos Palmares ter circulado das matas de Angola aos gabinetes da UNESCO, passando por várias produções culturais brasileiras, é altamente revelador das potencialidades presentes na epopeia palmarina. 

Com efeito, o Quilombo significou para o povo brasileiro em formação - negros, índios, mestiços e brancos pobres - uma alternativa de vida. Uma vida em liberdade. Após 120 anos de lutas nas matas de Alagoas (o Quilombo surgiu por volta de 1596), o movimento foi esmagado pelas forças coloniais, que mobilizaram 14 mil homens na ofensiva final contra sua capital, Macaco.  Palmares foi, provavelmente, a maior luta travada contra a escravidão na América Latina e seus integrantes entenderam que faziam parte de uma luta geral e não de uma luta à parte. 

Contrariamente ao que acontecia na Colônia, ali  vigorou uma forma de produção coletivizada, sem concentração de propriedade nem trabalho escravo. Conforme escrevi uma vez, na esteira disso temos ainda a questão cultural. Os seus membros falavam a língua portuguesa, mesclada com elementos do quimbundo, alinhavam suas ruas e casas à maneira africana, se valiam do plantio de alimentos da terra com conhecimento repassado pelos índios e praticavam o sincretismo religioso. Todos unidos por uma mesma condição de classe. 

A História é transmissora de experiências. Zumbi e seus companheiros nos deixaram uma grande lição: criaram um Brasil não oficial, um Brasil às avessas, em contraposição ao Brasil colonial-escravista. Na Serra da Barriga, o grande reduto palmarino, surgia uma nação chamada Brasil. A melhor parte do Brasil se gestou ali. 

O objetivo da peça de Deo Garcez é precisamente resgatar Palmares do fundo da História. Ou, como ele mesmo diz, "dar voz àqueles que foram apagados ou silenciados". Tenho para mim que este combate o Quilombo dos Palmares não perderá. 

*Ivan Alves Filho, historiador

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