Correio Braziliense
Maria Eduarda, espero que perdoe a
humanidade. As redes sociais viraram um esgoto a céu aberto. Culparam você,
garota, por sua própria morte. Acredita?
Maria Eduarda, espero que perdoe a humanidade. As redes sociais viraram um esgoto a céu aberto. Culparam você, garota, por sua própria morte. Acredita? Teve gente que mostrou a capacidade de argumentar que era seu dever ter checado a corda antes que fosse lançada ao vazio. Gente que faz ilações absurdas e expõe um "raciocínio" irracional apenas para causar e ter cliques. Maria Eduarda, a única pessoa inocente nessa história é você. Tudo o que queria era um momento de adrenalina, algo tão comum entre tantos jovens. Quem deveria ter conectado o cabo de segurança não o fez. Quem deveria ter conferido mais de uma vez a conexão foi negligente. Eu diria até mais do que isso: criminoso. O que aconteceu com você foi, no mínimo, uma negligência gravíssima. Quem apenas supôs que a corda estivesse amarrada ao seu corpo aceitou o risco de um resultado trágico.
O que dizer da Prefeitura de Limeira (SP),
que tinha a obrigação de fiscalizar a empresa que prestava o serviço e os
equipamentos e, aparentemente, não o fez? Pois é, Maria Eduarda. A negligência
absurda de tantas pessoas custou sua vida. E internautas tentaram matá-la outra
vez. É incrível culpabilizar a vítima. "Ah, mas como ela não olhou a
corda?" Em muitos desses comentários, há um velho habito social:
responsabilizar mulheres pela violência ou pelo dano que sofreram. Sintomático
que tal questionamento tenha partido de "homens".
O que aconteceu com você não foi um mero
acidente. A imagem de seu corpo sendo arremessado da ponte me causa calafrios,
embrulha-me o estômago. Como podem tantos sonhos e planos serem interrompidos
tão bruscamente e de um jeito tão estúpido?
Não consigo conceber a dor de seus pais e de
seus irmãos ao tê-la arrancada do seio da família. Espero que a Justiça seja
inclemente com aqueles que cometeram uma omissão criminosa e assassina. Isso
não vai devolver o seu sorriso e trazê-la de volta aos seus entes queridos, mas
servirá de exemplo para que uma barbaridade como a que a vitimou não volte a
ocorrer.
Ao rever as imagens de sua morte, também me
questiono por que tanta gente se prestou a gravar com o celular e a não reparar
que havia algo muito errado. Somente perceberam a corda solta quando escutaram
seu corpo caindo no solo.
Parece que o celular, as redes sociais, a
ânsia por visualizações e comentários alheios emburreceram as pessoas. Como se
fossem tapa-olhos, ocultando a visão daquilo que realmente importa. E o que
dizer de gente que manipulou a imagem de seu corpo caindo para transformá-la em
anjo e viralizar o vídeo alterado na internet? As pessoas perderam o senso de
ridículo. Perdão por ninguém ter se importado com você pouco antes de sua partida.

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