O Estado de S. Paulo
O memorando de entendimento entre EUA e Irã sela uma mudança no equilíbrio de poder no Oriente Médio. O acordo recoloca o Irã na posição de potência regional. Inversamente, Israel vê sua aliança com os EUA abalada e a degradação do poder regional que havia conquistado a partir dos atentados do Hamas de outubro de 2023.
Já no primeiro parágrafo, EUA e Irã, “bem como seus aliados na guerra atual se comprometem a não iniciar qualquer guerra ou operação militar um contra o outro, a abster-se da ameaça ou do uso da força um contra o outro, e a garantir a integridade territorial e a soberania do Líbano”. Os aliados do Irã são o Hezbollah e os houthis; dos EUA, Israel, que não participou das negociações e não concorda com o memorando.
O compromisso elimina os aspectos mais
importantes da aliança entre EUA e Israel: a disposição americana de atacar o
Irã e de apoiar as ações militares contra os grupos patrocinados pelo regime
iraniano, em particular o Hezbollah no Líbano. Em tese, a Casa Branca poderia
até vetar o uso de armas americanas por Israel, o que inclui sua defesa antiaérea.
Em contrapartida, o Irã mantém intactos seus
pilares de dissuasão: o arsenal de mísseis e drones; os grupos armados que ele
patrocina no Líbano, Iêmen, Faixa de Gaza e Iraque; a capacidade, agora
provada, de fechar o Estreito de Ormuz; e o reconhecimento de seu direito a um
programa nuclear pacífico, que pode futuramente se desviar para o uso militar.
ROMPIMENTO. O aumento do poder do Irã está
associado também à quebra de confiança das monarquias árabes do Golfo na
capacidade dos EUA de garantir sua segurança. A aventura no Irã, para a qual
Donald Trump se deixou arrastar por Binyamin Netanyahu, rompeu duas décadas de
segurança e prosperidade nesses países. As bases militares americanas nelas
instaladas, em vez de proteção, serviram de para-raios, atraindo os mísseis e
drones iranianos.
Há semanas começaram os contatos diretos
entre altos funcionários da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e o
Irã, que culminaram em reuniões presenciais. A conclusão de todos os países da
região, incluindo dos Emirados, que se tornaram aliados de Israel, é a de que é
preciso estabelecer um modus vivendi com o Irã para retomar o curso da
segurança e da prosperidade.
Os EUA lideram a criação de um fundo privado de US$ 300 bilhões para o Irã. Ansioso por negócios lucrativos, Trump declarou que o regime iraniano “ama seu povo”. Sob pressão de Trump, Netanyahu aceitou mais uma trégua, mas fará de tudo para torpedear esse acordo. O início das negociações na Suíça foi adiado por causa dos ataques israelenses ao Líbano.

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