O Globo
Ser branco passa a ser percebido como
moralmente problemático e, portanto, uma condição de que é preciso escapar
Pesquisas nos Estados Unidos têm mostrado um
fato curioso. Nos últimos anos, brancos de esquerda passaram a avaliar negros e
outros grupos minoritários de forma mais calorosa do que as próprias pessoas
brancas, numa espécie de inversão da conhecida tendência psicossocial de
favorecer o próprio grupo.
O dado surge de um instrumento usado em pesquisas de opinião conhecido como “termômetro de sentimento”. Quem responde à pesquisa é provocado a dizer quão “caloroso” ou “frio” se sente em relação a um grupo-alvo — a metáfora térmica captura a dimensão afetiva, mostrando quanto se gosta ou desgosta do grupo. O instrumento é tradicionalmente usado para medir favoritismo. O viés é calculado pela diferença entre a nota que se dá ao próprio grupo e a nota dada a outro grupo.
Esse termômetro tem sido aplicado pela
pesquisa eleitoral americana desde 1964 para medir quanto os eleitores gostam
de candidatos, partidos e grupos sociais. A partir de 2016, um dado muito
excêntrico começou a aparecer. Entre americanos de esquerda (liberais), o
favoritismo passa a ser invertido, com brancos atribuindo mais calor a negros e
minorias que aos próprios brancos.
Não é que os brancos de esquerda tenham
passado a avaliar mal o próprio grupo, mas passaram a avaliar melhor negros e
outras minorias, chegando a diferenças bem significativas (13 pontos a mais em
2018). Quem tem identidade liberal mais forte, tem ainda mais viés favorecendo
minorias (mais de 20 pontos).
Esse viés contra o próprio grupo abriu uma
discussão interessante. Alguns cientistas sociais o atribuíram a uma espécie de
desidentificação dos brancos de esquerda com seu próprio grupo racial, fruto do
avanço da consciência antirracista despertada pela primeira eleição de Donald
Trump.
Outros têm apontado como o viés invertido
pode estar na gênese do fenômeno conhecido como “espiral da pureza”. Os
proponentes dessa tese o leem como valoração negativa da própria condição
racial. Nessa interpretação, ser branco passa a ser percebido como moralmente
problemático e, portanto, uma condição de que é preciso escapar por meio da
exteriorização da convicção política.
Se a branquitude é uma condição moralmente
estigmatizada dentro do progressismo, então o branco progressista enfrenta um
dilema: como não pode deixar de ser branco, precisa demonstrar que é o tipo
certo de branco — consciente, aliado, antirracista. A saída para escapar da condição
moralmente condenada é a sinalização pública de sua virtude antirracista.
Isso produz um contexto competitivo de pureza
moral, em que os progressistas disputam para demonstrar seu compromisso com um
conjunto de normas morais, resultando na intensificação crescente dessas
normas. Cada indivíduo compete para demonstrar maior resolução e compromisso, e
o efeito acumulado é uma escalada do rigor moral.
A ênfase em denunciar expressões
potencialmente racistas, apontar comportamentos racistas involuntários, denunciar
apropriação cultural e impor cancelamentos a quem demonstra dúvida ou
divergência é, por essa visão, consequência da necessidade dos indivíduos de se
diferenciar como integrantes moralmente puros dentro do grupo branco
estigmatizado pelo progressismo.
O alicerçamento da tese da espiral de pureza
no viés negativo dos termômetros de sentimento é um pouco frágil, e a ligação
entre uma coisa e outra é ainda bastante especulativa. Em todo caso, o
mecanismo descrito explica bem o isolamento do progressismo. A competição por
pureza gera práticas e códigos morais cada vez mais detalhados e radicais,
descolados do repertório moral de pessoas comuns. O resultado é uma política
voltada para dentro, que mede status pela adesão a normas esotéricas que a
maioria da população nem sequer reconhece — e que, por isso, fala com cada vez
menos gente.

O ser humano sempre peca pelo exagero,pra mais ou pra menos.
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