sexta-feira, 12 de junho de 2026

Sem Copa em 2026, o Brasil do futebol mitológico vai bater recorde de derrotas, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Time masculino jamais ficou mais de cinco disputas seguidas sem levar o título

Além da falta de vitórias, para o bem ou para o mal o esporte fica sem lendas e mitos

Jamais o Brasil ficou mais de cinco Copas seguidas sem ganhar o título mundial. Caso não vença neste 2026, a sexta, será um "recorde", como gosta de dizer o jornalismo que lida com números quaisquer.

Para o jornalismo esportivo, seria uma nova "escrita", um mitológico tabu, no caso um histórico comprido de estatísticas negativas. Quase nunca esses números dizem algo, como tantos recordes da economia e as estatísticas engraçadas discutidas em mesas-redondas boleiras.

Foram cinco Copas sem título até 1958. Houve um terceiro lugar honroso em 1938 e um mitologicamente desastroso vice em 1950, a derrota no Maracanã, que a lenda diz ter abalado aquele país muito pobrinho, simplezinho e à procura de motivo de orgulho nacionalista.

Foram cinco Copas sem título até 1994, com um quarto lugar em 1974 e um terceiro em 1978. Os resultados foram então tidos como fiascos do futebol tricampeão imbatível, mitologia embalada também pela propaganda da ditadura, do Brasil Grande.

Desde o penta, em 2002, a melhor classificação foi o quarto lugar da Copa do 7x1, em 2014. A Copa, assim como a Olimpíada, fora marcada para um Brasil que decolava, dizia a lenda. O disparate das obras dos estádios motivou protestos de rua. Vinham na rabeira de 2013, a onda mitológica do Gigante que acordou, raquítico, confuso e ignorante como sempre, para viver no pesadelo de depressão econômica e ameaça de golpe.

Mitologias cruzadas.

E daí que o time do Brasil estique uma escrita ruim? Talvez o desinteresse por Copas aumente, como tem sido o caso na última década.

O desinteresse não aumentaria apenas por causa de nova derrota, mas também pelo declínio das lendas. Em 1978, o Brasil foi campeão "moral", tendo perdido para uma suposta mutreta argentino-peruana. Em 1982, o "jogo mais bonito do mundo" perdeu para uma eficiente e pancadeira Itália e para o embevecimento da Seleção pela própria beleza. Mito, mas interessante.

O desinteresse talvez seja explicado em parte pelo fato de os jogadores da seleção, afora os "influencers", serem pouco conhecidos por quem não seja boleiro. Dos cinco brasileiros mais seguidos no Instagram, quatro são ou foram jogadores de futebol. Neymar, que está nessas duas categorias, lidera. A outra pessoa é Anitta.

O aumento do desinteresse talvez se deva ainda à dispersão de interesses, que não vem de agora, deste tempo da economia da atenção capturada por algoritmos. As pessoas têm literalmente mais o que fazer. Há mais opções de esporte, entretenimento e de ocupações da vida. Até o Brasil da crise quase crônica de mais de 40 anos ficou mais rico ou menos pobre.

É um chute explicativo parcial. Nos riquíssimos e imensos Estados Unidos de tantas opções de consumo, entretenimento e emburrecimento, a história é outra. Trata-se do país do show bizz esportivo extremo e profissional, já de atletas bilionários. Lá, o futebol americano leva a atenção nacional de modo que não ocorre com decisão alguma de final de futebol brasileiro, até por envolver música e política.

Aqui, falta de profissionalismo e corrupção fazem o público olhar o comando do esporte como olha para o Congresso. Os tipos que mandam são parecidos, quando não os mesmos. Há mutretas em jogos por causa de "bets", desordem, violência; campos e arbitragens ruins.

É uma realidade degradada. Resta ao torcedor a fantasia de que esse time pouco inspirador acorde. De qualquer modo, é só futebol. Ou não.

 

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