Folha de S. Paulo
Time masculino jamais ficou mais de cinco
disputas seguidas sem levar o título
Além da falta de vitórias, para o bem ou para
o mal o esporte fica sem lendas e mitos
Jamais o Brasil ficou mais de cinco
Copas seguidas sem ganhar o título mundial. Caso não vença
neste 2026, a sexta, será um
"recorde", como gosta de dizer o jornalismo que lida com
números quaisquer.
Para o jornalismo esportivo, seria uma nova "escrita", um mitológico tabu, no caso um histórico comprido de estatísticas negativas. Quase nunca esses números dizem algo, como tantos recordes da economia e as estatísticas engraçadas discutidas em mesas-redondas boleiras.
Foram cinco Copas sem título até 1958. Houve
um terceiro lugar honroso em 1938 e um mitologicamente desastroso vice em 1950,
a derrota no Maracanã, que a lenda diz ter abalado aquele país muito pobrinho,
simplezinho e à procura de motivo de orgulho nacionalista.
Foram cinco Copas sem título até 1994, com um
quarto lugar em 1974 e um terceiro em 1978. Os resultados foram então tidos
como fiascos do futebol tricampeão
imbatível, mitologia embalada também pela propaganda da ditadura, do Brasil
Grande.
Desde o
penta, em 2002, a melhor classificação foi o quarto lugar da Copa do
7x1, em 2014. A Copa, assim como a Olimpíada, fora marcada para um Brasil que
decolava, dizia a lenda. O disparate das obras dos estádios motivou protestos
de rua. Vinham na rabeira de 2013, a onda mitológica do Gigante que acordou,
raquítico, confuso e ignorante como sempre, para viver no pesadelo de depressão
econômica e ameaça de golpe.
Mitologias cruzadas.
E daí que o time do Brasil estique uma
escrita ruim? Talvez o desinteresse
por Copas aumente, como tem sido o caso na última década.
O desinteresse não aumentaria apenas por
causa de nova derrota, mas também pelo declínio das lendas. Em 1978, o Brasil
foi campeão "moral", tendo perdido para uma suposta mutreta argentino-peruana.
Em 1982, o "jogo mais bonito do mundo" perdeu para uma eficiente e
pancadeira Itália e para o embevecimento da Seleção pela própria beleza. Mito,
mas interessante.
O desinteresse talvez seja explicado em parte
pelo fato de os jogadores da seleção, afora os "influencers", serem
pouco conhecidos por quem não seja boleiro. Dos cinco brasileiros mais seguidos
no Instagram, quatro são ou foram jogadores de futebol. Neymar,
que está nessas duas categorias, lidera. A outra pessoa é Anitta.
O aumento do
desinteresse talvez se deva ainda à dispersão de interesses,
que não vem de agora, deste tempo da economia da atenção capturada por
algoritmos. As pessoas têm literalmente mais o que fazer. Há mais opções de
esporte, entretenimento e de ocupações da vida. Até o Brasil da crise quase
crônica de mais de 40 anos ficou mais rico ou menos pobre.
É um chute explicativo parcial. Nos
riquíssimos e imensos Estados Unidos de tantas opções de consumo,
entretenimento e emburrecimento, a história é outra. Trata-se do país do show
bizz esportivo extremo e profissional, já de atletas bilionários. Lá, o futebol
americano leva a atenção nacional de modo que não ocorre com decisão alguma de
final de futebol brasileiro, até por envolver música e política.
Aqui, falta de profissionalismo e corrupção
fazem o público olhar o comando do esporte como olha para o Congresso. Os tipos
que mandam são parecidos, quando não os mesmos. Há mutretas em jogos por causa
de "bets", desordem, violência; campos e arbitragens ruins.
É uma realidade degradada. Resta ao torcedor
a fantasia de que esse time pouco inspirador acorde. De qualquer modo, é só
futebol. Ou não.
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