O Globo
Enquanto não entrega as mercadorias que o
elegeram, o prefeito de Nova York vai surfando nas ondas da sorte no esporte
Para o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, a semana passada foi uma goleada de sabor duplo. Pegou todo mundo de surpresa, a começar pelo próprio alcaide. Começou na terça-feira, com eleições primárias de seu Partido Democrata para saber quem disputará as legislativas de novembro próximo. E terminou com a vitória do Equador sobre a Alemanha, que ele teve o faro político de saudar muito antes de o jogo começar.
Com menos de seis meses à frente da
prefeitura, Mamdani conseguiu eleger os três candidatos que endossara com
teimosia vigorosa. Todos integram o movimento progressista, ou populista de esquerda,
do próprio burgomestre, e o resultado desorganizou o imobilismo suicida em que
o partido chafurda desde que perdeu a Casa Branca em 2024. O prefeito de 34
anos adotou vários pitacos do veterano socialista Bernie Sanders. O recado foi
claro: na cidade mais democrata do país, ser centrista e acomodado já não
basta; convém querer chacoalhar a inércia do partido. Segundo recado: na cidade
de maior população judaica fora de Israel (entre 12% e 13%), tampouco basta ser
judeu para garantir os votos da comunidade. Isso porque ela está
irremediavelmente cindida, e a linha de separação se chama Gaza. Ou Benjamin
Netanyahu.
Tome-se o exemplo do imenso 10º Distrito
Eleitoral da cidade, onde um em cada quatro moradores é judeu. Dan Goldman,
atual ocupante da cadeira, está em seu segundo mandato, teve atuação marcante
no encaminhamento do processo de impeachment de Trump, em 2019, mas sempre
manifestou apoio quase incondicional a Israel. O progressista Brad Lander,
também judeu, seu oponente democrata no tal 10º Distrito, qualifica de
genocídio a destruição de Gaza por parte de Israel. Foi eleito. Pela primeira
vez, a dissociação de judaísmo e sionismo se manifestou nas urnas numa parte do
mundo — e venceu. Pouca coisa não é.
Para um prefeito muçulmano cheio de pose como
Zohran Kwame Mamdani, que nasceu na África de pais indianos, por isso não pode
cobiçar a Casa Branca, a jornada política está apenas começando. Tem pela
frente uma penca de promessas de campanha a cumprir, entre elas o polêmico
congelamento dos aluguéis sociais por um período de dois anos, além de creches
e gratuidade em ônibus municipais.
Enquanto não entrega as mercadorias que o
elegeram, vai surfando nas ondas da sorte no esporte. Embora nada tivesse a ver
com a épica vitória dos Knicks na final do campeonato americano de basquete,
semanas atrás, tratou de capitalizar a euforia da cidade com esse primeiro
título em 53 anos. Com a população em estado de graça, terá conseguido cravar
na memória da cidade que o prefeito naquele dia de êxtase coletivo se chamava
Mamdani.
Seu segundo gol ocorreu na manhã de
quinta-feira. Já se tornou rotina ele começar o dia falando aos nova-iorquinos
no Morning Pitch em dias de jogos no estádio MetLife. Na série de vídeos curtos
voltada para a Copa do Mundo, o prefeito informa os moradores sobre logística
de transporte, previsões do tempo, dicas de restaurantes típicos das seleções
em campo etc. Tem por slogan “Você nos dedica cinco minutos, e nós lhe
entregamos a Copa do Mundo”.
Pois bem, no vídeo daquela manhã Mamdani
dedicou poucos segundos à Alemanha e praticamente metade do tempo para exaltar
a gloriosa La Tri do Equador. Assim como já havia se referido à Democracia
Corintiana de Sócrates na manhã da estreia do Brasil, desta vez alongou-se em
referências históricas ao lateral direito Ulises de la Cruz, detalhou as
origens humildes do artilheiro Valencia e deixou claro aos 220 mil equatorianos
nova-iorquinos que eles mereciam vencer. Escolheu bem. Considerando que Nova
York tem algo como 250 mil residentes de origem germânica, foi uma aposta mais
global — quanto mais perto do afunilamento final, mais os torcedores do Sul
Global se juntam numa alegria como se fossem um só time.
Pelo menos foi assim quando o Brasil
conquistou o tetracampeonato em 1994, nos Estados Unidos, e um arco-íris de
camisetas e adereços do antigo Terceiro Mundo tomou conta de Nova York.
Bons tempos aqueles!

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