O Estado de S. Paulo
Oliveira Vianna dizia que ‘temos coragem para tudo, menos para negar o pedido de um amigo’
De modo algum seu estilo de enriquecer,
enriquecendo seus parceiros irmãos, seguiu o mapa traçado em 1923-24 por Mauss no seu ignorado Ensaio Sobre a Dádiva. Ou, mais precisamente, na
sua genial sociologia do presentear, do dar para receber – o que nós chamamos
de “lembrancinhas”, porque foi com afeto que, quando vimos aquele objeto, a
lembrança de sua pessoa motivou a compra dele para você.
No presente, a moldura não é dada por utilidade ou necessidade, mas pela relação, pois foi a lembrança que o motivou. Então, diz Mauss, a dádiva vai muito além de si mesma: ela é um fato social total, já que todo presente contém aspectos morais. Um protocolo que transcende o objeto doado, fazendo com que o presentear acione a obrigação de retribuir. Presentes não são trocas; são dádivas que, como oferendas, transcendem a exploração de classe ou a luta hobbesiana de todos contra todos.
Além disso, o presente tem, como explicita a cultura dos maoris, um espírito inseparável do doador. Essa é uma postura que aciona afetos e configura a pessoa que nos presenteou. Mas há também o presentear revelador da excepcional riqueza e poder do doador, como ocorre nos potlatches das sociedades do noroeste do Pacífico, abrangendo o Canadá e os EUA. Neles, riquezas são dilapidadas e destruídas, impedindo a devolução e, assim, englobando o receptor.
Exatamente como os festins e os presentes que
Vorcaro dava a todos os seus “irmãos” – conforme tenho escrito –, constituídos
de “verbas públicas”. Dinheiro que, no Brasil, não pertence a ninguém, exceto
aos governantes que o controlam.
O fulgurante episódio Cláudio Castro/Daniel
Vorcaro expressa tal capacidade. É óbvio que ninguém tem maldade neste Brasil
arcaico, movido por dádivas que demonstram como verbas públicas não pertencem
aos clientes de bancos que pagam impostos, mas aos governantes da ocasião.
É esse dispositivo de apropriação que faculta
o roubo do dinheiro público, porque, se é público, é da rua, e, se é da rua,
não é de ninguém. É nessa polaridade da casa contra a rua, e do geral imaginado
como não sendo de ninguém, mas de quem governa, que reside a lógica desse tipo
de “corrupção”, que não é concebida como crime, pois é uma esperteza e um
estilo de governar. Nos sistemas liberais patrimonialistas, o governar não é
administrar a coisa pública, mas ser o dono dela..
Como dizia Oliveira Vianna na mesma década em
que Mauss publicou o seu ensaio, “temos coragem para tudo, menos para negar o
pedido de um amigo”. Elos governados por densas éticas costumeiras desgostam de
normas burocráticas lidas como obstáculos ou remédios, jamais como valores.
PS: Essas notas são para o prof. Marcos Lanna, que também sabe como a reciprocidade maussiana ajuda a caracterizar essa vergonhosa corrupção brasileira.

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