O Globo
Tarifaços que vão e vêm e classificação de
facções criminosas como terroristas são decisões do governo dos Estados Unidos
que podem ou não ter impacto eleitoral no Brasil, a depender da narrativa ou do
grau de compreensão do eleitor a respeito de suas consequências. Uma tentativa
de Donald Trump de embargar ou limitar o uso do Pix na base da ameaça tem outra
magnitude: trata-se de um daqueles assuntos capazes de implodir uma
candidatura. No caso, a de Flávio Bolsonaro.
Não foi por outra razão que o filho de Jair, que até a véspera se jactava do acesso à Casa Branca e de ter conseguido, no breve encontro com Trump, arrancar a classificação de PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas, correu para mostrar ofício, carta, sinal de fumaça, tudo o que pudesse dissociar a mesma reunião do anúncio de novo tarifaço e de uma eventual ofensiva sobre o meio de pagamento queridinho dos brasileiros.
Uma das poucas coisas no Brasil de 2026
capazes de quebrar a ferrenha polarização ideológica que turva qualquer
compreensão mais sofisticada é o Pix. Todo mundo usa, todo mundo gosta, ninguém
imagina viver sem.
Se o amigão dos Bolsonaros insistir em sua
campanha sem sentido na defesa de bandeiras de cartões de crédito (que praticam
as taxas de juros mais escorchantes de todas, na modalidade do crédito
rotativo) em detrimento do Pix, sem tarifas, será um tiro não no pé da
candidatura do PL, mas no coração, com impacto maior que a transação feita
diretamente por Flávio para descolar R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro,
alegadamente para o filme sobre o pai.
A ordem no Palácio do Planalto e no PT é
aproveitar a oportunidade dada de bandeja por Trump e Marco Rubio para fustigar
Flávio ao máximo. Lula foi com tanta sede ao pote depois da nova ameaça de
tarifaço que acabou proferindo um discurso raivoso, sem pé nem cabeça,
confundindo Tiradentes com Joaquim Silvério dos Reis, seu delator, e, de quebra,
insinuando que seu adversário merecia ter “o mesmo destino”, ao citar,
erroneamente, que ele foi enforcado.
O ataque frontal de Lula, a resposta de
Flávio dizendo não ter medo de ameaça e todo o calor produzido pelas muitas e
confusas interferências americanas em assuntos eleitorais brasileiros produzem
muito bate-boca, mas não se sabe ao certo quanto ou o que chega ao eleitor.
Especialistas em pesquisas observam ser
difícil até formular perguntas para incluir nos próximos levantamentos para
medir o conhecimento e o impacto dessas últimas medidas. Afinal: Flávio foi
fundamental para que os Estados Unidos classificassem as facções como
terroristas? Ou o encontro só produziu uma foto, e o resto foi coincidência de
datas?
Enquanto restar uma zona cinzenta e sujeita a
narrativas dos dois lados, a tendência é que a polarização resista. Até porque
os candidatos a terceira via, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, seguem como linhas
auxiliares de Flávio e não conseguem diferenciar seu discurso nem ao comentar a
ameaça de tarifaço de 25% sobre o Brasil.
Se a coisa virar para o lado do Pix, é
diferente. Trata-se de algo compreensível para qualquer um, capaz de provocar
rejeição imediata ao candidato marcado com essa insígnia de conspirar contra o
mecanismo com um governo estrangeiro.
Basta lembrar duas eleições recentes: quando
Lula encaçapou a bola de que Geraldo Alckmin privatizaria todas as empresas
nacionais, em 2006 — levando o hoje vice-presidente a vestir boné e jaqueta com
logomarcas do Banco do Brasil, da Caixa e da Petrobras — e a propaganda de
Dilma Rousseff de 2014 em que o prato sumia da mesa dos pobres, num prenúncio
do que aconteceria caso Aécio Neves ou Marina Silva fossem eleitos, pois
acabariam com o Bolsa Família.
Diante da confusão armada a partir de
Washington, resta uma certeza: dada sua imprevisibilidade, Trump está longe de
ser o cabo eleitoral com que a família Bolsonaro sonhou.

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