Folha de S. Paulo
Interferência em pleitos no exterior já levou
a derrotas históricas de candidatos apoiados pela Casa Branca
Em eleições na América Latina, placar é um
pouco mais favorável ao presidente norte-americano
Tratando-se de Donald Trump,
presumir intenções e cálculo estratégico é um exercício arriscado. Não que ele
não tenha preferências e objetivos políticos, mas nem sempre é capaz de
hierarquizá-los e definir rotas coerentes para efetivá-los.
Embora Trump tenha desenvolvido um relacionamento até cordial com Lula, não há dúvida de que seu coração é bolsonarista. Tivemos uma prova disso na semana passada, quando o presidente americano não só recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca como também acedeu a seu pedido para classificar PCC e CV como organizações terroristas.
A questão das tarifas é mais complicada. Não
dá para descartar que Trump tenha pretendido ajudar a família Bolsonaro com o
timing dos anúncios, ainda não oficializados, de novas taxas
para produtos brasileiros, mas não estou nem um pouco seguro em
relação ao efeito real dessas medidas. É provável que elas mais prejudiquem
eleitoralmente o clã golpista do que o beneficiem.
Acredito que esse seja um ponto cego do
Agente Laranja. Sua visão de mundo é tão autocentrada que a hipótese de o
planeta não se curvar a seus desejos nem lhe passa pela cabeça. Empiricamente,
porém, ele é um pé-frio eleitoral. Nos pleitos estrangeiros em que se meteu,
com declarações ou ações concretas, os candidatos e partidos por ele apoiados
colecionaram mais reveses do que sucessos. Um caso emblemático recente é o do
húngaro Viktor Orbán, derrotado em
abril depois de 16 anos no poder.
A intromissão de Trump também foi decisiva
para viradas eleitorais históricas dos trabalhistas
no Canadá e na Austrália no
ano passado e foi cofator para o triunfo de centristas na Groenlândia e na
Romênia. Na Polônia,
o candidato por ele apoiado se deu bem.
Na América
Latina, o presidente americano se sai melhor, tendo obtido êxitos
após forte interferência na Argentina e
em Honduras.
Seus candidatos também venceram no Chile e
na Bolívia,
mas aí seu apoio foi bem mais discreto.
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