Assisti uma pré-campanha, aquele frenesi eleitoral, revolucionário e étnico que envolvia mais de 100 representações político-partidárias. Na eleição deste ano concorreram 35 candidatos. Para o segundo turno sobraram, contudo, apenas a senadora Kiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, concorrendo pela quarta vez, representante de uma direita que se considera progressista; e Roberto Sánchez, professor, candidato das esquerdas reunidas. Já no segundo turno, com 98,8% das urnas apuradas (50,012% para Keiko e 49,988% para Sánchez), a contagem das cédulas de papel arrasta-se por quase dez dias, acusando uma vantagem de 18 mil votos a favor de Keiko. A lentidão na averiguação dos resultados reflete não apenas um sistema eleitoral altamente burocratizado, mas, sobretudo, uma ansiedade generalizada, e até uma insegurança por parte dos juízes eleitorais.
Carente de uma
estrutura jurídica adequada, o país é vítima de sua ancestralidade milenar em confronto com a modernidade. Palco de remanescentes
guerrilhas - do Sendero Luminoso, Movimentos Revolucionários (MIR), Tupac
Amaru, Bandera Roja, Exército de Libertação Nacional (ELN), Associações e até
sindicatos Indígenas, Aliança Popular Americana (APRA), Aliança Campesina,
Comissão da Verdade. Já se chegou a contabilizar mais de 100 grupos civis
transformados em organizações partidárias, sob forte influência cubana, chinesa
e moscovita (VIOTI, Emília. Revolução Peruana. UNEP, 2009). O tema central
sempre foi a “Reforma Agrária”, que afeta uma população indígena estimada em
30% e uma elite detentora de mais de 40 % do PIB. Tem gerado repetidos
conflitos com latifundiários, massacres e golpes de Estado, pouco conhecidos
dos brasileiros. Para agravar, fenômenos naturais surpreendem. Na Copa do Mundo
de Futebol de 1970, no México, dois dias antes de entrar em campo, a seleção
peruana foi surpreendia por um terremoto no norte do Peru, em que morreram 50
mil pessoas. Foi um drama para os jogadores, alguns com parentes vitimados.
Contudo, o futebol
protagoniza uma agenda que também não consegue desconectar de tudo peruanos.
Ficou marcado que, plena era Pelé, o Peru produziu o Melhor Jogador
Sul-Americano do Ano, em 1972: Teófilo Cubillas, relacionado, inclusive,
na seleção mundial da época, tendo recebido o título de “Rei das
Américas”. A seleção peruana disputou, entretanto, apenas cinco Copas do
Mundo. Mas, já venceu o Brasil, no Maracanã; a Argentina, o Uruguai, o Chile e
outros no continente. Nas eliminatórias da Copa das Américas, para a Copa do
Mundo de 2026, ficou apenas em 9o lugar, com uma campanha altamente irregular,
com número expressivo de derrotas, embora tenha tido técnico argentino, Jorge
Careca; uruguaio, Jorge Fossatti; e até o brasileiro Mano Meneses. Todos com
fichas de campeões. Mas não teve jeito.
É uma pena.
O país é lindo, tanto a paisagem da Costa, como da Serra, como a
Selva, com sítios arqueológicos de uma arquitetura colonial de fazer inveja aos
pares da América. Atrai centenas de cientistas. Mas não consegue se desvencilhar
da “pecha” de “ingovernável”. O que está acontecendo agora no campo da política
não é novidade. Em quase todas as eleições para a sucessão presidencial, a
divulgação dos resultados ficara sempre cozinhando em “banho maria”, esperando
por um acordo entre as elites, capaz de ratificar os resultados. Parece que há
uma resistência cultural programática entre as forças populares revolucionárias
e as elites agrárias. Nesse segundo turno das eleições de 2026 há quem atribua
a lentidão das apurações à expectativa da Copa de 2026. Não é verdade. Como se
vê, o Peru sequer participa da Copa.
A corrupção gera
sentenças por todos os lados, sem distinção de esquerda ou direita. Com um
Presidente da República preso (Castilho) por tentativa de golpe de Estado.
Outro fugido, com prisão decretada por corrupção, também preso (Toledo); Um
suicida, também acusado de corrupção (Alan Garcia). Vinte golpes de
Estado, um assassinato, Sánchez Cerro, baleado no coração por um militante do
partido APRA. Uma morte duvidosa, “por septicemia generalizada pós-operatória”,
no Hospital Militar Central de Lima, do general presidente Juan Velasco
Alvarado o único governo militar de esquerda na América Latina na década de
1970.
Instituído como
República em 1821, pelo o general argentino, general San Martin, na corrente
das revoluções independentistas do século XIX, o Peru vivenciou de lá para
cá golpes de Estado militares e civis, massacres de populações
indígenas A instabilidade política é uma marca recorrente na política peruana:
sete presidentes em seis anos, englobando tanto deposições por forças militares
quanto crises constitucionais drásticas. Suas riquezas minerais - petróleo,
cobre, prata, sempre foram exploradas por estrangeiros, As Minas de Potosí
localizam-se no cerro de Potosí, no Alto Peru, constituíram-se no principal
centro produtor de prata para o mundo período colonial e principal ativo de
sustentação das reservas monetárias. Chegou, contudo, a alcançar uma inflação
de mais de 700 por cento, e a acumular endividamentos externos impagáveis. É um
dos países latino-americanos com maior número de rupturas institucionais em sua
trajetória, em que pese a riqueza arqueológica e a beleza cênica...
*Jornalista e Professor

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