Folha de S. Paulo
O analfabetismo caiu, mas pergunte a alguém
quando se proclamou a República, em 1822 ou 1889
Pelo menos, há um livro que está vendendo aos
milhões: o álbum de figurinhas da Copa
Faça um teste com qualquer pessoa das que lhe prestam serviços, em sua casa, no seu prédio ou na rua. Pergunte-lhe se sabe o que aconteceu no Brasil em 1964. Ou sobre qual veio primeiro, se a Segunda Guerra ou a Guerra do Paraguai. Ou em que ano foi proclamada a República, 1822 ou 1889. Não quero antecipar nada, mas temo que as respostas não sejam muito animadoras. Converso com muita gente, de todas as classes e categorias, e sinto nelas um distanciamento crescente entre as premências da vida real e um conhecimento básico do país. É como se, para elas, o Brasil só existisse hoje e até a esquina.
Todos recebemos com satisfação os dados do
recente levantamento do IBGE, que registrou a queda do analfabetismo para,
pela primeira vez, abaixo de 5% da população. É uma vitória –há cerca de 100
anos, a taxa era de monstruosos 80%. Um fator fundamental para a escalada da
alfabetização foi a transferência da população rural para as cidades nas
décadas de 1960 e 1970. Mais da metade dos 4,9% atuais que não sabem ler nem
escrever tem acima de 60 anos, o que confere com o dado anterior. São os
brasileiros que ficaram para trás, e os governos não foram até a eles para
alfabetizá-los.
Mas, para mim, o chocante são os 29% da
população entre 15 e 60 anos, hoje, que sabem identificar as palavras e os
números, mas não conseguem entender textos pouco além da cartilha nem
multiplicar 3 vezes 9 ou dividir 12 por 4. Chama-se a isso analfabetismo
funcional e atinge até quem está nas faculdades. Pode-se aceitar que 12% dos
atuais matriculados no ensino superior sejam analfabetos funcionais? Serão
esses os nossos profissionais do futuro?
Dos 16 anos que se exigem de alguém para se
educar (nove no ensino fundamental, três no médio e quatro no superior), o
brasileiro passa só dez anos na escola. O americano, 14. Sim, temos bolhas de
alta realização –sempre as tivemos. Só que todos os países também as têm e, na
média, mais do que nós.
Mas chega de pessimismo. Neste momento, há um
livro vendendo aos milhões no país: o álbum de figurinhas da
Copa.

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