Valor Econômico
A
privatização da festa, com o pavilhão da cerveja e a intervenção da polícia
criminalizara os moradores de rua preventivamente. São Paulo e o Brasil estavam
se tornando a sociedade do medo
A
crise política e social brasileira se manifesta de modo documental em
acontecimentos como a Copa do Mundo. Os que mobilizam multidões, que são o
refúgio e o disfarce da solidão de cada um numa sociedade em que o cidadão do
contrato social é mera ficção e pressuposto.
Diversamente do que ocorre nos países civilizados, a multidão tem sido no Brasil a forma da visibilidade e da identidade social dos brasileiros como povo. Somos povo de vez em quando. Mesmo sendo ela manifestação das irracionalidades que escondem nossos defeitos e insuficiências: caso da covardia da afirmação violenta apenas quando ninguém está vendo, como no caso dos linchamentos noturnos.
As
mudanças de comportamento da multidão entre 1998 e 2006 me sugeriram que um
novo Brasil tinha surgido como consequência da manipulação política do medo que
decorria da eleição de um governo de centro-esquerda em 2002. Quando Lula
chegara ao poder. A perversidade das “fake news”, da manipulação de impressões
superficiais a respeito do caráter dos diferentes e discordantes, se
multiplicam e se difundem cada vez mais.
Fake
news não é qualquer mentira. É mentira profissionalmente produzida. É mentira
que a juízo do senso comum popular tem alta probabilidade de ser interpretada
como verossímil. Nela a vítima não tem condições de provar sua inocência. É um
tipo específico de mentira que ao mesmo tempo difama e condena sua vítima. Essa
mentira é um crime que não está no Código Penal.
Fake
news autorregenera quando se debilita. Vinte anos depois da Copa de 2006, não
tem sido necessário criar novas mentiras para fragilizar os destinatários.
Não
basta, portanto, a mulher de Nero ser honesta. Ela tem que provar que o é. Na
lógica binária e polarizada o próprio antagonizador se beneficia do antagonismo
por ele forjado. Nesse sentido, as esquerdas em geral criam e alimentam a contínua
renovação do bolsonarismo. É uma “engenharia” diabólica porque ela é uma
concepção de poder.
No
Brasil atrasado, da polarização ideológica, só há no poder lugar para um
personificador do bem, mesmo que falso. Quem inventa leva. Mesmo os honestos e
competentes não têm chance. A vítima da satanização leva o que sobra mesmo que
ela não tenha os atributos negativos a esse lugar reservado.
A
mudança de comportamento da multidão da Copa é um indício social do mal e de
sua difusão imperceptível.
O
torcedor de rua da Copa de 2006 foi um ser diferente da situação das
acolhedoras pessoas em situação de rua na Copa de 1998. Uma fábrica de cervejas
patrocinava o telão e “privatizara” a encosta que vai do Theatro Municipal até
o Vale do Anhangabaú. Ali construíra uma arquibancada vermelha com cadeiras
para seus clientes, cerveja à vontade. O acesso ao vale estava controlado pela
Polícia Militar, a área recintada com separadores.
Eu
levei a ampliação do retrato que fizera tempos antes de “seu” Carlos, pessoa em
situação de rua, num bate-papo na rua Líbero Badaró a propósito do edifício
Sampaio Moreira, que eu estava fotografando. Encontrei-o num dos canteiros de
meio do Anhangabaú, devidamente cercado, onde foram recolhidos e confinados os
moradores de rua do Centro da cidade.
De
anfitriões em 1998, eram agora prisioneiros do medo oficial que neles via os
antissociais que não eram nem se tornaram. O sensacionalismo noticioso
aparentemente neles descobrira o tema de agentes do medo. A privatização da
festa, com o pavilhão da cerveja e a intervenção da polícia, os criminalizara
preventivamente. São Paulo e o Brasil estavam se tornando a sociedade do medo.
Pouco
tempo depois da Copa de 2006, um outro fato grave ocorreu na cidade de São
Paulo que confirmava a indústria do medo. A companhia do Metrô decidira abrir
uma nova linha, Linha Laranja, que iria da pobre Vila Brasilândia à estação São
Joaquim, atravessando a cidade. Uma das estações seria a de Higienópolis,
bairro de classe média alta.
Apesar
dos numerosos apoiadores da construção dessa estação, que facilitaria a vida de
muitos que ali trabalhavam, especialmente domésticas e empregados do comércio,
ergueu-se um clamor de moradores do bairro chique contra a construção da
estação.
Era
justificado por sua suposta desnecessidade. Já que havia algumas outras
estações na região, a mais próxima a 600 metros de distância do bairro. Uma
senhora explicou que sua empregada doméstica preferia tomar três conduções para
vir ao trabalho a tomar o metrô. Só faltou dizer que ela preferia vir a cavalo.
Uma cidadã foi direto ao ponto: alegava que “Higienópolis era um bairro tão
tradicional que não seria legal vir essa gente diferenciada que vai trazer
problemas de segurança, de assalto. Vai ser uma praça de maconheiros, de
usuários de drogas”.
*José
de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia
da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e
fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta
de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de
Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos”
(Editora Com Arte).

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