sexta-feira, 19 de junho de 2026

Uma Copa do medo: 2006, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

A privatização da festa, com o pavilhão da cerveja e a intervenção da polícia criminalizara os moradores de rua preventivamente. São Paulo e o Brasil estavam se tornando a sociedade do medo

A crise política e social brasileira se manifesta de modo documental em acontecimentos como a Copa do Mundo. Os que mobilizam multidões, que são o refúgio e o disfarce da solidão de cada um numa sociedade em que o cidadão do contrato social é mera ficção e pressuposto.

Diversamente do que ocorre nos países civilizados, a multidão tem sido no Brasil a forma da visibilidade e da identidade social dos brasileiros como povo. Somos povo de vez em quando. Mesmo sendo ela manifestação das irracionalidades que escondem nossos defeitos e insuficiências: caso da covardia da afirmação violenta apenas quando ninguém está vendo, como no caso dos linchamentos noturnos.

As mudanças de comportamento da multidão entre 1998 e 2006 me sugeriram que um novo Brasil tinha surgido como consequência da manipulação política do medo que decorria da eleição de um governo de centro-esquerda em 2002. Quando Lula chegara ao poder. A perversidade das “fake news”, da manipulação de impressões superficiais a respeito do caráter dos diferentes e discordantes, se multiplicam e se difundem cada vez mais.

Fake news não é qualquer mentira. É mentira profissionalmente produzida. É mentira que a juízo do senso comum popular tem alta probabilidade de ser interpretada como verossímil. Nela a vítima não tem condições de provar sua inocência. É um tipo específico de mentira que ao mesmo tempo difama e condena sua vítima. Essa mentira é um crime que não está no Código Penal.

Fake news autorregenera quando se debilita. Vinte anos depois da Copa de 2006, não tem sido necessário criar novas mentiras para fragilizar os destinatários.

Não basta, portanto, a mulher de Nero ser honesta. Ela tem que provar que o é. Na lógica binária e polarizada o próprio antagonizador se beneficia do antagonismo por ele forjado. Nesse sentido, as esquerdas em geral criam e alimentam a contínua renovação do bolsonarismo. É uma “engenharia” diabólica porque ela é uma concepção de poder.

No Brasil atrasado, da polarização ideológica, só há no poder lugar para um personificador do bem, mesmo que falso. Quem inventa leva. Mesmo os honestos e competentes não têm chance. A vítima da satanização leva o que sobra mesmo que ela não tenha os atributos negativos a esse lugar reservado.

A mudança de comportamento da multidão da Copa é um indício social do mal e de sua difusão imperceptível.

O torcedor de rua da Copa de 2006 foi um ser diferente da situação das acolhedoras pessoas em situação de rua na Copa de 1998. Uma fábrica de cervejas patrocinava o telão e “privatizara” a encosta que vai do Theatro Municipal até o Vale do Anhangabaú. Ali construíra uma arquibancada vermelha com cadeiras para seus clientes, cerveja à vontade. O acesso ao vale estava controlado pela Polícia Militar, a área recintada com separadores.

Eu levei a ampliação do retrato que fizera tempos antes de “seu” Carlos, pessoa em situação de rua, num bate-papo na rua Líbero Badaró a propósito do edifício Sampaio Moreira, que eu estava fotografando. Encontrei-o num dos canteiros de meio do Anhangabaú, devidamente cercado, onde foram recolhidos e confinados os moradores de rua do Centro da cidade.

De anfitriões em 1998, eram agora prisioneiros do medo oficial que neles via os antissociais que não eram nem se tornaram. O sensacionalismo noticioso aparentemente neles descobrira o tema de agentes do medo. A privatização da festa, com o pavilhão da cerveja e a intervenção da polícia, os criminalizara preventivamente. São Paulo e o Brasil estavam se tornando a sociedade do medo.

Pouco tempo depois da Copa de 2006, um outro fato grave ocorreu na cidade de São Paulo que confirmava a indústria do medo. A companhia do Metrô decidira abrir uma nova linha, Linha Laranja, que iria da pobre Vila Brasilândia à estação São Joaquim, atravessando a cidade. Uma das estações seria a de Higienópolis, bairro de classe média alta.

Apesar dos numerosos apoiadores da construção dessa estação, que facilitaria a vida de muitos que ali trabalhavam, especialmente domésticas e empregados do comércio, ergueu-se um clamor de moradores do bairro chique contra a construção da estação.

Era justificado por sua suposta desnecessidade. Já que havia algumas outras estações na região, a mais próxima a 600 metros de distância do bairro. Uma senhora explicou que sua empregada doméstica preferia tomar três conduções para vir ao trabalho a tomar o metrô. Só faltou dizer que ela preferia vir a cavalo. Uma cidadã foi direto ao ponto: alegava que “Higienópolis era um bairro tão tradicional que não seria legal vir essa gente diferenciada que vai trazer problemas de segurança, de assalto. Vai ser uma praça de maconheiros, de usuários de drogas”.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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