sexta-feira, 5 de junho de 2026

Uma lúcida e oportuna ponderação, por Ivan Alves Filho*

Sérgio Augusto de Moraes é autor de duas obras importantes para a compreensão da marcha da História nas últimas décadas. Vamos lá, pela ordem cronológica. A primeira delas é Viver e morrer no Chile, um relato pungente a respeito da experiência da Unidade Popular (UP), movimento capitaneado por Salvador Allende entre 1970 e 1973, voltado para a construção do socialismo pela chamada via democrática. Sérgio Moraes analisa as dificuldades enfrentadas por Allende e seus companheiros de luta, em uma época marcada pela truculência política norte-americana e seu fascismo de exportação. Não deu outra: a investida golpista de Augusto Pinochet, a 11 de setembro de 1973, mergulharia o Chile em uma repressão das mais sangrentas, acarretando na morte, por fuzilamentos e torturas, de milhares de pessoas. 

Tudo isso por responsabilidade direta dos Estados Unidos, nunca é demais lembrar. O próprio autor viveu na pele essa truculência, escapando por um triz de ser fuzilado no Estádio Nacional de Santiago, transformado, em setembro de 1973, em uma espécie de campo de concentração. Li, com emoção, os originais desta obra, publicada pela Fundação Astrojildo Pereira, há alguns anos. O outro livro dele se intitula Capitalismo e população mundial, uma visão inovadora das transformações pelas quais passa o modo de produção capitalista no mundo, que também tive o prazer de ler antes do seu lançamento, pela própria Fundação Astrojildo Pereira. 

Engenheiro de produção e dirigente histórico do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao qual aderiu ainda nos anos 50 do século passado, Sérgio Moraes é um dos homens mais qualificados para discorrer sobre as lutas sociais do nosso tempo. Ex-integrante do mítico Comitê Universitário do Partido, onde atuavam Marcello Cerqueira, Marli Vianna, Givaldo Siqueira, Luiz Werneck Vianna e tantos outros militantes e formuladores de grande valor, ele integraria, na volta de um longo exílio no Chile, na União Soviética e Suíça, o Secretariado do Partido Comunista à época de Giocondo Dias, o lendário Cabo Dias da insurreição aliancista de 1935, o homem que substituiu Luiz Carlos Prestes na direção máxima da agremiação comunista, em 1980. 

Convivo com Sérgio há muitos anos e posso testemunhar sobre a sua dedicação, ao lado de outros integrantes do Secretariado do PCB, na retomada e também na consolidação da Democracia entre nós. Poucos lutaram tanto para que isso acontecesse. No que me concerne, devo ao Sérgio e ao Givaldo o honroso convite feito, em nome do secretariado do PCB, para eu escrevesse o perfil biográfico de Giocondo Dias. Até então, somente Luiz Carlos Prestes tinha sido biografado a pedido do PCB, o que resultou no belo livro O Cavaleiro da Esperança, de autoria de Jorge Amado. Escrita nos arredores de Buenos Aires, na casa de Ernesto Sabato, esta obra marcou época em nosso país. 

Por que escrevo isso agora? Porque ontem, ao publicar neste Blog do Gilvan, o texto Dois caminhos e um só autoritarismo, recebi uma calorosa mensagem do Sérgio. Após ler o artigo, ele ponderou ter sentido falta de uma referência ao fato de o fascismo hitlerista corresponder "aos interesses dos monopólios germânicos e ao objetivo do capital internacional de destruir a URSS".

Fica aqui o registro. Sérgio tem toda razão. Ainda que eu não tenha chegado a dissociar o fascismo do capitalismo, a ponderação dele é totalmente fundada. Ou seja, faltou explicitar realmente. 

Obrigado, mais uma vez, meu querido amigo e camarada Sérgio Augusto de Moraes. Sua lucidez e fraternidade me acompanham pela vida toda.   

*Ivan Alves Filho, historiador

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.