O Globo
O traje social da seleção divide opiniões: há
quem ache feio, há quem ache horroroso
Lá se foi o Brasil, pela sexta vez, rumo ao
hexa. E, em vez de nos dedicarmos a pintar asfalto, pendurar bandeirola e tirar
do armário a vuvuzela, somos 213 milhões em ação criticando o uniforme do
escrete canarinho. Cansados de ser especialistas em logística naval no Estreito
de Ormuz, em definição de “grupo terrorista” e em escala 6 x 1, viramos
fashionistas. Tudo porque o traje social da seleção divide opiniões: há quem
ache feio, há quem ache horroroso.
É que você, torcedor ingrato, não capta as
referências e não entende que, em moda, o resultado é o de menos — o que
importa é o conceito.
Sim, parece que os jogadores estão de pijama — uma forma de nos lembrar que é preciso continuar sonhando em ser campeões. Mesmo numa disputa em que também estejam Espanha, França, Inglaterra, Argentina e Portugal. Sem contar Alemanha, Holanda, Bélgica, Noruega, Colômbia e meia dúzia de outros sérios candidatos a nos mandar pra cama mais cedo.
Sim, lembram internos do sistema prisional —
o que sugere uma crítica subliminar à demora em políticos, juízes e gestores
públicos serem agraciados com tornozeleiras eletrônicas ou introduzidos no
ambiente carcerário.
Dir-se-ia tratar-se de enfermeiros — uma
forma empática e sutil de mostrar que estarão ao lado do Neymar na lesão e na
entorse, na queda e na contusão. Ou talvez sejam técnicos de laboratório de
análises clínicas, reforçando a ideia de que todos ali darão o sangue pela
vitória.
A fatiota pode também evocar uma convenção da
firma, daquelas com treinamento de liderança, imersão em coaching e palestras
sobre mindset, protagonismo e metas disruptivas para o terceiro trimestre. Pode
e deve, porque é exatamente disso que se trata.
A foto oficial, no avião, parece ter sido
feita numa oficina mecânica? Parece. A ideia daquela modelagem desconstruída,
com o caban sem estruturas internas ou ombreiras, é nos dar a sensação de que a
seleção passou por um processo de alinhamento e balanceamento, talvez até de
cambagem. Que nada os freará no ataque e que têm tração suficiente para evitar
o arrefecimento na defesa. Que a direção do elenco será firme e não haverá
problema de suspensão.
(Caso você, como eu, esteja sendo apresentado
neste momento ao mundo da alfaiataria, caban é uma espécie de casaco, ali entre
o blazer e o jaleco, só que mais metido a besta. É o que os jogadores estão
vestindo, no lugar do bom e velho paletó.)
Aquele look desestruturado remete, ainda, às
nossas instituições cada vez menos democráticas, ao desequilíbrio entre os
podres poderes da República, ao tariflávio e ao rombo bilionário dos Correios.
Por isso, antes de reclamar do problemático
uniforme, pense que a CBF poderia ter contratado a Balenciaga, e nossa pátria
de chuteiras estaria embarcando de chinelo de dedo, bermuda destroyed e
camiseta regata de campanha eleitoral, carregando seus pertences numa sacola de
plástico de supermercado. Tudo a um custo muitíssimo maior.
Melhor acreditar que o pior que poderia
acontecer já aconteceu — no uniforme, não em campo. E agora é bola pra frente,
futebol é uma caixinha de surpresas, treino é treino e jogo é jogo, são 11
contra 11, é vencer ou vencer, empatar fora de casa é um bom resultado, o
importante é competir e vamos correr atrás do prejuízo.
Vai, Brasa!

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