Valor Econômico
O verdadeiro desafio não é escolher entre estabilidade e concorrência, mas construir uma regulação capaz de preservar ambas
Todo mercado muito concentrado desenvolve uma gramática própria. Não apenas domina preços e margens, mas também define o que é produto legítimo, quem é contraparte confiável, quem tem direito de ser ouvido. O regulador, formado por essa gramática e por ela avaliado, tende a regular dentro dos parâmetros que o incumbente já aceitou. A concentração raramente precisa capturar o Estado de forma explícita. Em geral, basta estar presente o suficiente para que o Estado aprenda a enxergar o setor pelos olhos de quem sempre o controlou.
O sistema financeiro brasileiro foi, por
décadas, uma expressão particularmente clara desse mecanismo. Os cinco grandes
bancos de varejo - Itaú, Bradesco, Banco
do Brasil, Caixa e Santander - não apenas dominavam o mercado: definiam o
que era um banco, o que era risco aceitável e detinham poder decisivo sobre a
concessão de crédito e seu custo. O Banco Central, formado e avaliado dentro
desses mesmos parâmetros, regulava o que os incumbentes haviam naturalizado
como ordem. O regulador dependia em larga medida de informações produzidas
pelos próprios incumbentes. Essa dependência coexistiu com décadas em que os
grandes bancos participaram intensamente das câmaras técnicas e consultas
públicas que historicamente ajudaram a moldar a regulação.
A chegada das fintechs e dos bancos digitais
alterou esse equilíbrio com uma velocidade que o aparato supervisor não
conseguiu acompanhar. O open banking e as mudanças regulatórias do período
recente abriram uma porta que a velha arquitetura de supervisão não havia
projetado. Novos atores entraram sem história de balanço consolidada, sem
relacionamento institucional, sem lugar reconhecido na distribuição anterior.
Entraram porque a tecnologia permitiu e a regulação não os impediu.
Até aqui, a narrativa seria virtuosa: mais
competição, mais acesso, spreads menores. O problema é que abertura de mercado
e solidez institucional são coisas distintas. Parte do que entrou pelo portão
da democratização financeira trouxe governança fraca, superavaliação de ativos
e uso oportunista das garantias públicas. A desordem que se seguiu não foi
apenas o saudável ruído de um mercado contestável. Foi também risco moral em
estado bruto. E o regulador não tinha nem o vocabulário nem as ferramentas para
identificar o que estava acontecendo antes que o dano se tornasse visível.
O Banco Master tornou-se o maior teste
recente da solidez do sistema financeiro brasileiro. Controlado por Daniel
Vorcaro, o banco captou dezenas de bilhões em CDBs com rentabilidades de até
140% do CDI.
O episódio envolvendo o conglomerado Master -
banco e suas conexões - mobilizou mais de R$ 49 bilhões em ressarcimentos do
Fundo Garantidor de Crédito, sendo R$ 40,6 bilhões referentes ao Banco Master
propriamente dito, o equivalente a cerca de um quarto do patrimônio do fundo,
segundo dados públicos do FGC. Investigações da Polícia Federal apontam
suspeitas de carteiras de crédito sem lastro econômico suficiente e balanços
com ativos superavaliados.
O Digimais repete o padrão com lógica
própria. Com R$ 8,5 bilhões em CDBs emitidos e investigado pela Operação
Miragem, o banco é suspeito de ter transferido carteiras problemáticas para
fundos de investimento sem a devida transparência, melhorando artificialmente
seus indicadores contábeis enquanto baseava sua captação na cobertura oferecida
pelo FGC. A garantia pública foi vendida ao investidor de varejo como
substituto da análise de risco.
Enquanto o Master apostava na opacidade de
balanço, o Digimais explorava a assimetria entre o que o garantidor cobre e o
que o regulador consegue verificar a tempo. Os mecanismos diferem, embora o
efeito econômico seja similar, pois ambos os bancos usaram as salvaguardas do
sistema como alavanca para sustentar modelos que não sobreviveriam ao
escrutínio prudencial ordinário.
O Banco Central, é preciso dizer, não foi
apenas uma vítima de captura intelectual pelos incumbentes. Parte do atraso
regulatório é estrutural: toda inovação financeira relevante gera defasagem
entre o que o mercado cria e o que o supervisor consegue ler a tempo. O Brasil
não foi exceção.
De fato, os primeiros sinais de deterioração
do Master remontam a 2021, quando o próprio BC já exigia ajustes, e a
liquidação extrajudicial só veio em novembro passado. A resposta desde então
segue um roteiro previsível - endurecimento das exigências de liquidez para
bancos médios, revisão dos critérios de acesso ao FGC, maior escrutínio sobre
captação no varejo - com fundamento real, mas que chega depois de quatro anos
durante os quais um modelo que só funciona com captação crescente triplicou de
tamanho. Vale registrar que os grandes bancos estiveram entre os primeiros a
defender o endurecimento regulatório após o escândalo, com argumentos
tecnicamente consistentes e alinhados aos seus interesses econômicos.
Há uma diferença relevante entre exigir que
bancos digitais sejam sólidos e exigir que sejam idênticos aos incumbentes.
Requisitos calibrados para o perfil dos grandes bancos tradicionais, aplicados
uniformemente, podem funcionar como barreira à entrada disfarçada de prudência.
O resultado seria devolver aos incumbentes, pela via regulatória, a vantagem
competitiva que a tecnologia havia começado a corroer. Toda exigência
regulatória tem um custo fixo, e esse custo pesa proporcionalmente menos sobre
quem já opera em grande escala.
A questão que o episódio do Master e do Digimais
coloca não é apenas técnica. A regulação que emerge dessa crise vai conseguir
distinguir fraude de contestabilidade legítima? Vai preservar a abertura que
reduziu spreads e ampliou acesso, enquanto impõe disciplina prudencial efetiva?
Ou vai usar o a rgumento inquestionável da estabilidade sistêmica para
reconstruir, com nova nomenclatura, a geometria anterior?
O verdadeiro desafio não é escolher entre
estabilidade e concorrência. É construir uma regulação capaz de preservar
ambas, distinguindo inovação de fraude antes que o mercado volte a se fechar em
nome da prudência. Quando toda contestação passa a parecer ameaça, a prudência
vira pretexto.

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