Correio Braziliense
É impossível assistir à série da Netflix sem
pensar no presente, porque o atual presidente dos EUA colocou em xeque práticas
institucionais consolidadas durante mais de dois séculos
Geralmente, quando vivemos uma situação que
não conseguimos compreender de imediato e para a qual não encontramos uma
explicação plausível no presente, recorremos ao passado. A origem dos problemas
e das contradições que a produziram costumam oferecer as melhores pistas para
melhor compreender o que se passa e projetar o futuro. A história não fornece
receitas prontas, mas amplia nossa capacidade de compreensão. Segundo Karl
Marx, em O 18 Brumário de Luís
Bonaparte, de 1852, "a história se repete, a primeira vez como
tragédia, a segunda como farsa".
Mas nem sempre. A história não avança em círculos perfeitos. Ela reapresenta velhos conflitos sob novas circunstâncias, modifica seus protagonistas e produz desfechos inesperados. Vivemos um desses momentos. A inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia e automação remodelaram a produção, o trabalho e a distribuição do poder econômico. Entretanto, enquanto a ciência acelera o futuro, a política parece caminhar para trás.
Crescem o nacionalismo, o protecionismo, a
polarização ideológica, a desinformação organizada e a desconfiança nas
instituições representativas. Multiplicam-se guerras comerciais, conflitos
armados e lideranças que desafiam abertamente as regras constitucionais. Esse
paradoxo não é novo.
Em 1929, imaginou-se que o colapso financeiro
decretaria o fim do capitalismo. Em 1989, a queda do Muro de Berlim e o
desmoronamento da União Soviética levaram Francis Fukuyama a anunciar o
"fim da História", entendendo que a democracia liberal havia
triunfado definitivamente. Nenhuma dessas previsões resistiu ao tempo. O
capitalismo reinventou-se sucessivas vezes. A China vai de vento em popa. A
democracia, por sua vez, revelou-se muito mais frágil do que se imaginava, com
a emergência de regimes iliberais. Seria essa crise é a antevéspera do fim?
É sobre isso a série documental O Experimento Americano (The American Experiment), em cinco
episódios, dirigida por Brian Knappenberger e produzida por Tom Hanks, Gary
Goetzman e Sarah Huisenga para a Netflix, a propósito dos 250 anos da
Independência dos Estados Unidos, uma reflexão imperdível sobre a sobrevivência
da democracia. É um alento no contexto das loucuras políticas e ambição de
poder autocrático presidente Donald Trump e da plutocracia que organiza a
partir da Casa Branca.
É aí que figura de George Washington emerge
como uma espécie de contraponto ou antídoto ao modelo de governante que Trump
encarna. A dúvida que atormentava o líder revolucionário e primeiro presidente
dos Estados Unidos em 1776 ainda inquieta o mundo contemporâneo: seria
realmente possível uma sociedade governar a si mesma sem sucumbir às paixões
políticas, aos interesses econômicos e à permanente disputa pelo poder?
A invenção política
A série não transforma os pais fundadores em
heróis imaculados, nem reduz à revolução à escravidão, ao patriarcado e à
exclusão social. Brian Knappenberger segue a trilha da melhor historiografia
norte-americana: a independência americana foi, simultaneamente, uma revolução
política e um projeto institucional incompleto até hoje.
A Revolução Americana foi fruto de uma
invenção política, intelectual, não nasceu nos seus campos de batalha. As
colônias desenvolveram uma profunda desconfiança em relação ao poder
concentrado da Coroa britânica e passaram a defender que a liberdade somente
poderia sobreviver mediante a limitação permanente da autoridade estatal. A
ruptura promovida pelos revolucionários foi adotar o princípio da soberania
popular.
Pela primeira vez uma grande nação afirmava
que a autoridade não emanava de Deus nem da tradição aristocrática, mas do
consentimento dos governados. O que problema foi traduzir essa soberania na
estrutura e nas ações do Estado. A série mostra que essa extraordinária
inovação política e social nasceu com uma contradição moral gigantesca. Os
mesmos líderes que escreveram que "todos os homens são criados
iguais" aceitavam a escravidão como parte da ordem econômica e do pacto de
poder que fundou a grande nação.
A Constituição de 1787 incorporou o chamado
Compromisso dos Três Quintos, que aumentava a representação política dos
estados escravistas contabilizando parcialmente a população escravizada, embora
ela permanecesse privada de qualquer direito. Essa incoerência ética era uma
bomba-relógio que viria explodir na Guerra Civil (1861-1865), no governo de
Abraham Lincoln, que emancipou os escravos e lhes garantiu direito de voto.
A democracia americana sobreviveu não porque
tenha resolvido suas contradições fundadoras, mas porque construiu instituições
capazes de administrá-las e, lentamente, corrigi-las. A história dos Estados
Unidos pode ser lida como um longo processo de ampliação dos direitos
originalmente negados. A abolição da escravidão, as Emendas da Reconstrução, o
sufrágio feminino, a legislação dos direitos civis e a expansão progressiva das
garantias individuais representam a sua continuidade histórica.
É impossível assistir à série sem pensar no
presente. Donald Trump é o sujeito oculto na série não apenas por representar
uma corrente política conservadora, mas porque colocou em xeque práticas
institucionais consolidadas durante mais de dois séculos. A invasão do
Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, simbolizou talvez a maior crise
constitucional americana desde a Guerra Civil. Mas a República americana foi
concebida para sobreviver a maus governantes. Talvez essa seja a mensagem mais
poderosa da série.

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