Folha de S. Paulo
Enquanto progressistas abandonam seus
artistas, a direita transforma a defesa deles em capital político
Vigilância, denúncia e punição alimentam
tanto a exibição de virtude quanto o mercado digital da indignação
Ana Maria
Machado e João Bosco,
duas figuras históricas da cultura brasileira, ligadas à resistência à ditadura
e à defesa de valores progressistas, foram levados ao tribunal moral das redes,
não porque tenham passado a defender o racismo ou a violência contra a mulher,
mas porque cruzaram o caminho das expedições sazonais de caça da política
identitária e recusaram o papel de culpados que lhes reservaram.
Ela rejeitou a revisão retrospectiva de "Menina Bonita do Laço de Fita", livro pioneiro no esforço de elevar a autoestima de crianças negras, segundo o catecismo do presente. Ele se recusou a retirar do repertório "Gol Anulado", parceria com Aldir Blanc, uma crônica sobre uma conduta condenável —que nem de longe o cantor recomenda. Nada disso, porém, importava muito: a acusação dependia menos do sentido das obras do que da necessidade social que certos grupos têm de exibir o próprio fervor moral por contraste com o pecado dos outros.
As patrulhas respondem a uma necessidade
interna. Se o mundo é interpretado como guerra permanente entre identidades
opressoras e oprimidas, é preciso produzir sem cessar novas provas de que a
opressão continua ativa e de que o combate exige vigilância. Uma semana sem
denúncia de pecados é uma semana perdida na luta política, que agora é
entendida basicamente como um conflito moral.
Por isso, o vigilantismo identifica o erro,
o denuncismo
expõe o pecador e o punitivismo convoca a alcateia, oferecendo
a quem participa superioridade moral e a sensação de estar criando um mundo
melhor. As arenas digitais converteram esse ritual numa atividade rentável, por
meio das quais perfis disputam plateias em um ambiente em que nada atrai mais
público que o ultraje moral.
João Bosco e Ana Maria Machado são troféus
valiosos. Acusar um desconhecido produz pouca repercussão, enquanto mostrar os
pés de barro de uma celebridade permite capturar parte de sua visibilidade.
Nenhuma biografia põe alguém acima da jurisdição do novo tribunal. Quanto maior
a presa, maior o prestígio do caçador.
O que os tiranos da virtude suportam ainda
menos, contudo, é que o acusado não dobre a espinha. Esperam dele a liturgia da
capitulação, com confissão de culpa, aceitação da sentença, ato de contrição e
promessa de reparação. Corrijam meu livro. Não cantarei mais a música.
A retratação importa menos pelo que corrige do que pelo que confirma, pois
reconhece a autoridade da nova doutrina para definir o pecado e impor a
penitência.
Bosco e Machado fizeram o contrário, pois
contestaram a acusação e denunciaram o autoritarismo, o fanatismo e a
obtusidade interpretativa de seus críticos. A espiral punitiva então subiu,
porque, para a inquisição moral, o delito mais grave não é a suposta infração
inicial, mas a recusa do pecador em reconhecer a soberania do tribunal. Como
ousa o réu dizer que são os inquisidores que estão pecando?
Enquanto isso, a esquerda institucional,
intelectual, acadêmica e cultural, salvo raras exceções, se cala. Não aparece
para refutar a interpretação maliciosa, repreender a intolerância ou dizer que
dois artistas com esse legado merecem respeito. Só desperta quando alguém
denuncia a caçada e aí corre para negar a intolerância ou justificá-la, reduzir
tudo a um caso isolado ou acusar os críticos de "deslegitimar a luta dos
historicamente subjugados".
Não veem o óbvio: não é a crítica ao
identitarismo que desmoraliza reivindicações legítimas de direitos, respeito e
estima social para minorias ou grupos estigmatizados, mas a adoção de
vigilantismo, censura, humilhação pública e cancelamento como método. Ao
oferecer excludentes morais ao autoritarismo do próprio campo, a esquerda
desmoraliza a própria denúncia da intolerância e da paixão censuradora da
extrema direita.
Se você é uma personalidade cultural de
esquerda e foi cancelada, saiba que a esquerda
cult, nos últimos dias reunida em Paraty, não virá em seu socorro.
Curiosamente, como em política não há lugar vazio, esse papel de defesa é hoje
ocupado por perfis de direita que ganham audiência ao coletar casos,
ridicularizar os inquisidores, desmascarar o autoritarismo e converter a prova de
intolerância da esquerda em capital político.
Parece um contrassenso, mas é isso mesmo. Em
1968, diante de vaias no
Maracanãzinho, Geraldo Vandré pediu respeito aos vencedores que
o público hostilizava, afirmando que Tom
Jobim e Chico
Buarque mereciam respeito. Falta hoje uma esquerda que, diante
de outro equívoco cultural, repita com convicção: João Bosco e Ana Maria
Machado merecem todo o nosso respeito.

Concordo,mas João Bosco tem várias músicas melhores para cantar em público - A Elis gravou a música,mas nunca cantava em shows,hoje,provavelmente seguiria não cantando.
ResponderExcluirTexto muito oportuno e verdadeiro! Cada cantor deve ter liberdade pra escolher que músicas cantar.
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