quarta-feira, 29 de julho de 2026

Ana Maria Machado e João Bosco merecem o nosso respeito, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Enquanto progressistas abandonam seus artistas, a direita transforma a defesa deles em capital político

Vigilância, denúncia e punição alimentam tanto a exibição de virtude quanto o mercado digital da indignação

Ana Maria Machado João Bosco, duas figuras históricas da cultura brasileira, ligadas à resistência à ditadura e à defesa de valores progressistas, foram levados ao tribunal moral das redes, não porque tenham passado a defender o racismo ou a violência contra a mulher, mas porque cruzaram o caminho das expedições sazonais de caça da política identitária e recusaram o papel de culpados que lhes reservaram.

Ela rejeitou a revisão retrospectiva de "Menina Bonita do Laço de Fita", livro pioneiro no esforço de elevar a autoestima de crianças negras, segundo o catecismo do presente. Ele se recusou a retirar do repertório "Gol Anulado", parceria com Aldir Blanc, uma crônica sobre uma conduta condenável —que nem de longe o cantor recomenda. Nada disso, porém, importava muito: a acusação dependia menos do sentido das obras do que da necessidade social que certos grupos têm de exibir o próprio fervor moral por contraste com o pecado dos outros.

As patrulhas respondem a uma necessidade interna. Se o mundo é interpretado como guerra permanente entre identidades opressoras e oprimidas, é preciso produzir sem cessar novas provas de que a opressão continua ativa e de que o combate exige vigilância. Uma semana sem denúncia de pecados é uma semana perdida na luta política, que agora é entendida basicamente como um conflito moral.

Por isso, o vigilantismo identifica o erro, o denuncismo expõe o pecador e o punitivismo convoca a alcateia, oferecendo a quem participa superioridade moral e a sensação de estar criando um mundo melhor. As arenas digitais converteram esse ritual numa atividade rentável, por meio das quais perfis disputam plateias em um ambiente em que nada atrai mais público que o ultraje moral.

João Bosco e Ana Maria Machado são troféus valiosos. Acusar um desconhecido produz pouca repercussão, enquanto mostrar os pés de barro de uma celebridade permite capturar parte de sua visibilidade. Nenhuma biografia põe alguém acima da jurisdição do novo tribunal. Quanto maior a presa, maior o prestígio do caçador.

O que os tiranos da virtude suportam ainda menos, contudo, é que o acusado não dobre a espinha. Esperam dele a liturgia da capitulação, com confissão de culpa, aceitação da sentença, ato de contrição e promessa de reparação. Corrijam meu livro. Não cantarei mais a música. A retratação importa menos pelo que corrige do que pelo que confirma, pois reconhece a autoridade da nova doutrina para definir o pecado e impor a penitência.

Bosco e Machado fizeram o contrário, pois contestaram a acusação e denunciaram o autoritarismo, o fanatismo e a obtusidade interpretativa de seus críticos. A espiral punitiva então subiu, porque, para a inquisição moral, o delito mais grave não é a suposta infração inicial, mas a recusa do pecador em reconhecer a soberania do tribunal. Como ousa o réu dizer que são os inquisidores que estão pecando?

Enquanto isso, a esquerda institucional, intelectual, acadêmica e cultural, salvo raras exceções, se cala. Não aparece para refutar a interpretação maliciosa, repreender a intolerância ou dizer que dois artistas com esse legado merecem respeito. Só desperta quando alguém denuncia a caçada e aí corre para negar a intolerância ou justificá-la, reduzir tudo a um caso isolado ou acusar os críticos de "deslegitimar a luta dos historicamente subjugados".

Não veem o óbvio: não é a crítica ao identitarismo que desmoraliza reivindicações legítimas de direitos, respeito e estima social para minorias ou grupos estigmatizados, mas a adoção de vigilantismo, censura, humilhação pública e cancelamento como método. Ao oferecer excludentes morais ao autoritarismo do próprio campo, a esquerda desmoraliza a própria denúncia da intolerância e da paixão censuradora da extrema direita.

Se você é uma personalidade cultural de esquerda e foi cancelada, saiba que a esquerda cult, nos últimos dias reunida em Paraty, não virá em seu socorro. Curiosamente, como em política não há lugar vazio, esse papel de defesa é hoje ocupado por perfis de direita que ganham audiência ao coletar casos, ridicularizar os inquisidores, desmascarar o autoritarismo e converter a prova de intolerância da esquerda em capital político.

Parece um contrassenso, mas é isso mesmo. Em 1968, diante de vaias no Maracanãzinho, Geraldo Vandré pediu respeito aos vencedores que o público hostilizava, afirmando que Tom Jobim Chico Buarque mereciam respeito. Falta hoje uma esquerda que, diante de outro equívoco cultural, repita com convicção: João Bosco e Ana Maria Machado merecem todo o nosso respeito.

 

2 comentários:

  1. Concordo,mas João Bosco tem várias músicas melhores para cantar em público - A Elis gravou a música,mas nunca cantava em shows,hoje,provavelmente seguiria não cantando.

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  2. Texto muito oportuno e verdadeiro! Cada cantor deve ter liberdade pra escolher que músicas cantar.

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