Este livro de Antônio Fausto do
Nascimento tem um mérito inquestionável. Qual seja, o de debater o mundo
do trabalho, em suas múltiplas dimensões. Do campo jurídico às inovações
técnicas e destas aos seus desdobramentos políticos, sindicais e
institucionais, nada parece ter escapado ao olhar do autor. E isso em um
período de profundas modificações na base material das sociedades, o que torna
a sua leitura obrigatória. Até porque, no Brasil de hoje, são poucos estudiosos
voltados para o exame da realidade do trabalho, de suas lutas e transformações.
Com efeito, se antes ocorreu uma
transferência da capacidade muscular dos homens para as máquinas - e aqui nos
confrontamos com a primeira Revolução Industrial, na Inglaterra do último
quartel do século XVIII -, hoje uma parte da nossa capacidade de raciocínio, se
podemos dizer assim, se transfere para elas - e aqui nos defrontamos com a
revolução da robótica, do algoritmo, da automação. São, nitidamente, tempos de
transição - e tempos cruciais, sem dúvida.
Formado nos embates trabalhistas, profundo conhecedor da nossa realidade sindical e política, Antônio Fausto foi secretário de Estado no mítico governo de Miguel Arraes, interrompido pela intervenção militar de abril de 1964. Conheci e mesmo convivi com algumas pessoas que atuaram em Pernambuco por aquela época - e poderia citar os nomes de Gregório Bezerra, Roberto Freire, Gilvan Melo, Graziela Melo, Socorro Ferraz, Abelardo da Hora, por exemplo - e todas elas revelavam ou revelam imenso respeito pela trajetória de Antônio Fausto e pelo período governamental de Miguel Arraes.
Natural do Ceará, Antônio Fausto atuou não
somente em Pernambuco como também em outras partes do país, a saber, no Rio de
Janeiro e em Niterói. Ainda na adolescência, com apenas 17 anos de idade,
firmou seus primeiros compromissos com as causas da Democracia e da Justiça
Social. Hoje, a caminho dos 90 anos de idade, a serem completados em 2027, o
autor permanece fiel aos seus ideais de juventude. Poucos, muito poucos
realmente podem apresentar uma história de vida tão coerente quanto a
dele.
Essa reunião de textos chega em momento
oportuno. Eu fiz a leitura de vários deles no chamado calor da hora, tanto
no jornal Terceiro Tempo, cujo suplemento cultural editei por nove
anos, entre 2000 e 2010, no Rio de Janeiro, quanto no jornal Voz da
Unidade, de São Paulo, no qual colaborei na década de 80 do século passado. E
aqui eu me recordo de um conselho dado por Mário de Andrade para Guilherme
Figueiredo, quando este ainda se iniciava no jornalismo. Para o autor
de O turista aprendiz e Macunaíma, era preciso escrever para jornais com o
olhar voltado para os livros. Isto é, os textos teriam que ultrapassar o plano
imediato, tornando-se suscetíveis de serem lidos ao longo do tempo,
contrariando, de certa forma, a própria lógica do Jornalismo. Guilherme
Figueiredo incorporou imediatamente o conselho de Mário de Andrade à sua
trajetória de escritor. Se há algum paradoxo nisso, eu não saberia dizer.
Mas o fato é que o meu amigo Antônio Fausto do Nascimento, por seu turno,
atingiu plenamente este objetivo.
Eu me arriscaria a observar que este livro
expressa, acima de tudo, a preocupação do autor em examinar os fatos econômicos
à luz da realidade social. O saudoso Milton Coelho da Graça, economista de formação
e um dos maiores nomes do jornalismo brasileiro, incansável lutador social,
sempre me dizia que "a economia é para o homem; caso contrário, não
faz o menor sentido". Antônio Fausto do Nascimento trilha esse mesmo
caminho, entendendo que o Humanismo é o grande motor de suas reflexões e
intervenções.
É o que revela a leitura de quaisquer dos
excelentes artigos desta coletânea. É ler para crer.
*Ivan Alves Filho, historiador

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