segunda-feira, 6 de julho de 2026

As reformas são necessárias, mas falta liderança, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O Estado é disfuncional: gasta mais do que arrecada; gasta mal; é ineficiente na maior parte de suas políticas

‘Hoje nós temos uma convicção muito grande de que a República está podre. Hoje os Poderes estão contaminados com ineficiência, e isso acaba abalando a confiança da sociedade brasileira na República.’ O diagnóstico, contundente, é de Gilberto Kassab, presidente do PSD. Foi enunciado na semana passada, quando o político assumiu a posição de vice na chapa do ex-governador Ronaldo Caiado, pré-candidato a presidente. Caiado não deixou por menos. Disse que a política brasileira está tomada por práticas de corrupção, negociatas e acordos ilegais e imorais. A imprensa registrou, o mundo político tomou conhecimento... e ficou por isso mesmo.

Não que as denúncias sejam infundadas. As operações da Polícia Federal têm apanhado figuras dos três Poderes, envolvidas em práticas “imorais e ilegais”. Se não é toda a República que está podre, pode-se dizer que há muita podridão em muitas esferas do poder. A imprensa independente tem colocado nas manchetes essas operações. Por que não fez o mesmo com as denúncias de Caiado e Kassab? Por um motivo simples: fatos valem mais do que declarações. E a chapa do PSD mal passa dos 3% nas pesquisas.

Há, no entanto, uma explicação mais interessante do que a aritmética eleitoral. É uma espécie de lei das campanhas presidenciais: quanto menos pontos tem o candidato, mais contundente é seu programa. O corolário é igualmente confiável — quanto mais ele sobe nas pesquisas, mais prudente se torna.

Caiado e Kassab estão livres para dizer o que pensam precisamente porque ninguém espera que cheguem ao segundo turno. Nenhum dos dois, registre-se, foi apanhado em qualquer malfeito — mas talvez o eleitorado, cansado, esteja mesmo em busca de gente nova, e isso já baste para explicar o desinteresse.

Em circunstâncias normais, essa prudência crescente é até positiva. Melhor um moderado que um radical. Ocorre que o Brasil não vive um momento normal — e é aí que a lei das campanhas vira armadilha. Ignorar o mensageiro, desta vez, tem um custo: não invalida a mensagem. O Estado é disfuncional: gasta mais do que arrecada; gasta mal; é ineficiente na maior parte de suas políticas. E a velha política segue tomada por práticas imorais e ilegais.

Dito de outro modo: os dois, Caiado e Kassab, podem estar isolados nas pesquisas e, ainda assim, estar certos. Têm razão, inclusive nas propostas: reforma administrativa para eliminar privilégios e rever subsídios; corte de despesas correntes; mais investimentos públicos; e nada de aumento de impostos.

Eis onde estamos: o país precisa de reformas, especialmente na economia e, mais especialmente ainda, na Previdência. Mas não se vê no horizonte nenhuma liderança capaz e com vontade de comandá-las. Entre economistas independentes, circula o entendimento de que as reformas fiscais serão necessariamente feitas no ano que vem, impostas pela realidade.

Os dados são eloquentes. Há uma tendência de aumento do gasto público, que tem sido pago com elevação de impostos e dívida pública. E uma inflação que tem sido controlada com juros muito altos, asfixiando empresas e famílias. Se essa tendência não for invertida, o futuro não distante aponta para outro período de recessão com inflação — como visto na gestão de Dilma Rousseff.

Sim, é grave assim.

Nada disso aparece nas campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro, os ponteiros nas pesquisas. O governo Lula aumentou os gastos todos os anos e acelerou neste momento eleitoral. Mais: o presidente não perde oportunidade de criticar quem sugere políticas de ajuste fiscal. Flávio é herdeiro de um governo Bolsonaro que também aumentou os gastos no ano eleitoral, além de ter cometido pecados ainda mais graves no período da pandemia e na tentativa de golpe. Além disso, a polarização impede a abertura de um debate consistente.

A criação do Real foi mais difícil. Mas havia FH para liderar a inédita e brilhante reforma monetária. O problema atual é mais simples do que liquidar a hiperinflação. Todo mundo sabe o que é um ajuste fiscal. Mas falta a liderança.

 

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