O Globo
O ex-presidente Tancredo Neves dizia que Presidência é destino. A História do Brasil está repleta de exemplos da verdade dessa afirmação.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dizia que se tivesse sido eleito prefeito de São Paulo em 1985 — foi derrotado por Jânio Quadros — dificilmente chegaria à Presidência da República em 1994. O mesmo se pode dizer do atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Candidato mais provável da direita à sucessão presidencial, foi esnobado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em favor do filho Flávio, e hoje está perto de se reeleger governador no primeiro turno. Com a vitória, mesmo que seja no segundo turno, Tarcísio se verá livre de dois “fantasmas” em 2030. Lula estará fora da disputa presidencial, e provavelmente da política, e Jair Bolsonaro estará enfraquecido com a provável derrota de Flávio, e inelegível, condição que pode se estender até 2060 se considerada também uma condenação criminal posterior.
O ex-presidente Tancredo Neves dizia que
Presidência é destino. A História do Brasil está repleta de exemplos da verdade
dessa afirmação. Seu próprio caso é a confirmação disso. Eleito presidente de
maneira indireta, não conseguiu tomar posse devido a complicações de sete
cirurgias por causa de um tumor benigno no intestino, que inicialmente foi
tratado como uma diverticulite. Assumiu seu vice, José Sarney, que se preparava
para exercer a Vice-Presidência de maneira discreta, e teve a missão de garantir
a continuidade da democracia.
Na sucessão, surgiu no panorama político
nacional o então governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, que acabou
sendo impedido pelo Congresso por uma série de atos corruptos no seu curto
período de governo. Em seu lugar, assumiu o vice Itamar Franco, outro que não
estava no horizonte previsível, que acabou dando espaço para a criação do Plano
Real, planejado por uma equipe de economistas da PUC do Rio levada ao governo
pelo então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, que foi o quarto
ocupante do cargo no governo Itamar. Um presidente inesperado nomeou um
ministro da Fazenda também inesperado, que acabou sendo eleito presidente da
República em circunstâncias inesperadas.
Como dizia o compositor Johnny Alf, numa licença
poética maravilhosa, “o inesperado trouxe uma surpresa”. E foram tantas na
história recente da nossa política que trouxeram mais um problema para os
diplomatas brasileiros, que tratam com ironia a situação: qualquer político que
apareça em viagem no exterior pode acabar na Presidência do país. Nessa
trajetória, Tarcísio de Freitas não tem nada garantido na sua caminhada rumo à
Presidência da República, embora tenha sido inesperada a sua vitória na corrida
para o governo de São Paulo.
Oriundo do Rio de Janeiro, foi indicado para
a candidatura pelo faro político de Bolsonaro. Devotou-lhe lealdade
inquebrantável até ser ultrapassado pelo critério sanguíneo de uma dinastia
que, tudo indica, terminará onde começou, no patriarca. Liberado dessa lealdade
pelas artimanhas políticas da famiglia, dificilmente fará campanha para Flávio
Bolsonaro num provável segundo turno contra Lula. Não se sentiu livre o
suficiente para enfrentar os Bolsonaros em outro partido, mas terá
provavelmente mais quatro anos para ganhar luz própria e virar o candidato
natural da direita nacional.
Nesse interregno, no entanto, muita água
passará por baixo da ponte, e novas caras poderão surgir para disputar o lugar,
mesmo que o clã Bolsonaro esteja enfraquecido fora do poder. Os únicos que
terão mandatos serão Michelle Bolsonaro, provável senadora pelo Distrito
Federal, e talvez Carlos Bolsonaro, caso se eleja senador por Santa Catarina.
Embora improvável, o inesperado pode voltar a dar as caras ainda nesta eleição,
caso a candidatura de Flávio seja ferida de morte por acontecimentos que, longe
de serem inesperados, são temidos, e retiram dele o que resta de confiável em
sua candidatura.

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