sábado, 18 de julho de 2026

Bolsonaros se enrolam com tarifas, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Flávio não se livrou de pecha de traidor da pátria e ainda mostrou que tem pouca influência em Washington

Razão principal de nova rodada de sobretaxas é decisão da Suprema Corte que anulou tarifaço do Liberation Day

A vantagem estratégica do Brasil é que sua ultradireita é particularmente incompetente. Flávio Bolsonaro conseguiu duplicar seu prejuízo no imbróglio das tarifas dos EUA.

Os Bolsonaros já carregam a pecha de "traidores da pátria" devido ao lobby que Eduardo vem fazendo para que o governo Trump imponha sanções ao Brasil. No final de maio, Flávio viajou a Washington e foi recebido na Casa Branca. Pediu e obteve do presidente a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas. Diz também que tentou nesse encontro sensibilizar Trump para não adotar sobretaxas contra produtos brasileiros.

Quando ficou claro que a nova rodada de tarifas era iminente, Flávio voltou aos EUA e, agora de forma explícita, foi a uma audiência pública em que pediu o adiamento das sanções. Como vimos na quarta (15/7), não foi atendido. Flávio não só não foi capaz de livrar-se do rótulo de "traidor da pátria" como ainda mostrou que sua influência em Washington é bem limitada.

É por erros como esse que sua candidatura à Presidência vai felizmente se desconstruindo.

No mundo real, fora das campanhas eleitorais, a decisão dos EUA de impor novas sobretaxas ao Brasil tem pouco a ver com os Bolsonaros. Se no primeiro tarifaço, um ano atrás, Trump fez alusão direta ao julgamento de Jair, que classificou como injusto, a nova rodada agora tem motivação interna. Em fevereiro, a Suprema Corte julgou inconstitucionais as "tarifas recíprocas" que Trump adotara contra quase todo o planeta. O problema não era impor sobrepreço a produtos estrangeiros, mas a argumentação legal utilizada para fazê-lo. Trump até poderia cobrar taxas sem aval do Congresso, mas teria de seguir um caminho mais trabalhoso. Teria de investigar cada país alvo em busca de "deslealdes" comerciais e só então sancioná-lo.

É o que ele está fazendo agora, já que precisa do dinheiro para tentar compensar um enorme rombo fiscal. O Brasil foi a primeira vítima porque as investigações estavam mais avançadas, mas há dezenas de países na fila.

 

 

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