quinta-feira, 30 de julho de 2026

Brasil e Argentina para além de Milei, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Apoio aos Bolsonaros rompe padrão de relacionamento estabelecido quando os dois países se democratizaram

Faltou às duas nações vontade de criar estruturas supranacionais resistentes

Nada como a extrema direita para degradar a política em espetáculo de grosseria e vulgaridade! Foi o que se viu do presidente argentino Javier Milei, na convenção do PL que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Em seu prolixo discurso, entrecortado por palavrões, o mandatário do país vizinho ofendeu o presidente Lula e um ministro do Supremo. Terminou sua participação cantando, em tom alucinado, um rock que dizia: "Eu sou o leão, rei de um mundo perdido", "sou o rei e te destroçarei". Na verdade, o autoproclamado manda-chuva das selvas veio ao Brasil como arauto da "onda azul", tratando de adular Donald Trump, que se empenha em transformar a América Latina em território dominado por aliados ultradireitistas.

A ominosa participação de Milei em apoio ao candidato do clã Bolsonaro confirma a ruptura de um padrão de relacionamento entre Argentina e Brasil, estabelecido quando os dois países se democratizaram, já lá se vão quase 40 anos.

Mais de duas décadas atrás, os cientistas políticos portenhos Roberto Russell e Juan Gabriel Tokatlian publicaram "El lugar de Brasil en la política exterior argentina", pequeno-grande livro que focaliza as relações bilaterais em perspectiva histórica e do ângulo das visões sobre elas prevalecentes em seu país. Argumentam os autores que as ações externas argentinas nunca tiveram o Brasil como inimigo.

Desde a independência, no século 19, a chancelaria em Buenos Aires teria se moldado por uma duradoura cultura de rivalidade: competia-se pela hegemonia no Cone Sul e o reconhecimento da liderança regional pelas potências ocidentais —dos Estados Unidos, a partir do segundo pós-guerra.

Para Russel & Tokatlian, a decadência econômica argentina e a redemocratização dos dois países teriam aberto caminho para outro modelo de relacionamento, baseado na amizade e cooperação entre as duas nações. De fato, a criação da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABCC), para garantir o uso pacífico da energia nuclear nos dois países, em 1991, e o Mercosul, estabelecido pelo Tratado de Assunção, no mesmo ano, foram os marcos da mudança do paradigma das relações bilaterais, assentadas, agora, na colaboração e na mútua confiança.

Poderiam ter sido o início de um projeto geopolítico mais ambicioso que, baseado na integração econômica, projetasse a subregião como ator relevante no mundo. Muitos fatores fizeram-no encolher —uns econômicos, outros de concepção política. Menciono alguns destes últimos. Faltaram ao Brasil e à Argentina vontade de criar estruturas supranacionais resistentes, e empenho em atuar em uníssono nos organismos internacionais e em definir estratégias comuns para lidar com os Estados Unidos.

Quando os países da região se inclinaram à esquerda, na primeira década deste século, a Unasul adquiriu proeminência sobre as relações bilaterais. Mas não ganhou musculatura como fórum de nações sul-americanas, capaz de sobreviver a mudanças políticas produzidas a cada eleição presidencial. Da mesma forma, a cooperação entre Brasil e Argentina, que poderia ter sido política de Estado, foi capturada pela radicalização política. Nela estamos hoje.

 

 

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