Folha de S. Paulo
Agora é o filho mais velho de Bolsonaro que
considera se deve ou não embarcar no trem da ruptura
A ascensão do pai ao topo da política
nacional teve o ataque às instituições como projeto central
Quando uma estratégia já deu espetacularmente
errado duas vezes, por que não tentar uma terceira? Esse deve ser o raciocínio
que Flávio tem
contemplado agora que flerta com a negação do resultado das urnas.
Vamos recapitular. Jair Bolsonaro governou sob o signo da ruptura contra o Supremo e contra o sistema eleitoral. Conforme as investigações na esteira do 8 de Janeiro mostraram, ele tentou interferir nas eleições bloqueando eleitores e, uma vez derrotado, sentou-se com generais do alto comando para persuadi-los a bancar um golpe que impediria a passagem do poder. Também apoiou uma massa de fanatizados que terminariam por invadir os três Poderes. Discussões do julgamento à parte, o resultado para Bolsonaro foi desastroso: 27 anos de prisão.
Seu filho Eduardo é
um dos políticos mais populares do país. Foi o deputado federal mais votado da
história. Era puxador de voto e possível sucessor do pai. Até que decidiu jogar
tudo isso fora apostando, ele também, na ruptura institucional. De livre e
espontânea vontade abandonou seu cargo eletivo e foi para os EUA fazer lobby
junto ao governo Trump para, com a ameaça de sanções, coagir os ministros do
Supremo que julgavam seu pai.
Desde o início, estava claro que o plano
fracassaria: qual ministro mudaria seu voto por uma sanção americana?
Previsivelmente, resultou em outro desastre para a família: Eduardo, que não
era sequer investigado, virou réu e
foi condenado por coação no curso do processo, perdeu seu cargo de
deputado e, se voltar ao Brasil, será preso. O plano de coação não só não
funcionou —seu pai segue preso— como deu munição eleitoral para Lula, agora
favorito na reeleição.
Agora é Flávio que considera se deve ou não
embarcar no trem da ruptura. Na semana passada, numa fala em que supostamente
reafirmaria seu respeito às regras eleitorais, deixou escapar uma
insinuação de descrédito às urnas —a afirmação falsa de que foram
feitas pela empresa venezuelana Smartmatic. Nisso, parece ter algum tipo de
respaldo vindo do governo americano. Os dois diplomatas que viriam aqui supostamente
para lançar dúvidas quanto a nossas eleições podem ter sido barrados, mas isso
não deve impedir Trump de aprontar alguma para tumultuar nossas eleições. Cabe
a Flávio decidir se irá ou não embarcar nessa estratégia.
Nos últimos anos, muito tempo e energia foram
gastos discutindo as ameaças à democracia e os desdobramentos da intentona
bolsonarista. Flávio pode agora escolher se tentará uma campanha limpa para
vencer no voto popular ou se, já descrente da vitória, apostará suas fichas na
ruptura institucional. O mesmo destino do pai e do irmão lhe espera.
Em tese, a escolha devia ser fácil. Ninguém
em sã consciência escolheria ficar inelegível e quiçá preso sem disso colher
nenhum benefício. No caso de Flávio e seus irmãos, contudo, o dilema é um pouco
mais difícil. A ascensão de seu pai ao topo da política nacional teve o ataque
às instituições como projeto central. Flávio não é nada sem o pai. Não deve
lhes escapar uma indagação perturbadora: se a direita quiser abrir mão de
qualquer pretensão golpista e passar a focar os problemas do Brasil, por que
continuar com os Bolsonaro?

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