Folha de S. Paulo
Em bom português, 'corra atrás de emenda,
pois seus concorrentes o farão, buscando a reeleição'
Negociar com cargos é política; com dinheiro
público sem transparência é captura
Reportagem desta Folha (18/7) mostrou que o
Tribunal de Contas da União (TCU) constatou
irregularidades em 82% das emendas
Pix fiscalizadas. Outra
reportagem (15/7) relata que o presidente do PL, Valdemar
Costa Neto, afirmou que ele e outros dirigentes interferem na destinação
dos recursos, o que motivou ação do Supremo Tribunal Federal (STF). Para quem
acompanha a economia política do processo orçamentário, nenhuma surpresa.
Desde o início dos anos 1990, o Brasil construiu, com esforço, um Orçamento mais transparente, executável e controlável. O impulso veio de um escândalo em 1993, quando deputados manipulavam emendas para desviar verbas por entidades fantasmas e empreiteiras. Hoje, o Congresso Nacional trabalha, com método, para desmontar tudo isso. Por quê? Maldade? Perversidade? É mais complicado.
Explicamos a seguir. Pois é, alguém já falou
que a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.
Entre 2019 e 2025, o Brasil viveu um dos episódios
mais graves de opacidade orçamentária de sua história recente; não por
acaso, mas como produto de desenho institucional perverso.
Chamou-se "orçamento secreto" à prática que, desde 2020, permitiu ao
relator-geral incluir bilhões em emendas sem identificar o parlamentar
beneficiado; já naquele ano, essas emendas respondiam por 51,89% do valor
comprometido. Em 2022, o Supremo declarou o modelo inconstitucional, por violar
publicidade, impessoalidade e transparência.
Fechada essa porta, abriu-se outra: as emendas Pix, criadas em 2019. A lógica é
simples: dispensa-se a transparência, o dinheiro vira propriedade do município
na transferência e desaparecem plano de trabalho e prestação de contas. Em
2024, 78% dos parlamentares que usaram o instrumento deixaram de informar
destinatário ou finalidade do gasto.
O custo é mensurável. Em 2025, emendas somaram recorde de R$ 31,5 bilhões; em
2026, o Orçamento autoriza R$ 61 bilhões —quase o dobro. Isso equivale a 22% da
Saúde, 26% da Educação e 38% do Bolsa Família. No Ministério da Integração, a
dotação dobrou (R$ 6,1 bilhões para R$ 12,7 bilhões) via emendas, que superam o
próprio superávit fiscal previsto (R$ 34,2 bilhões ); R$ 7 bilhões são emendas
Pix.
Em pesquisa recente, mostramos que isso
decorre de um presidencialismo de coalizão fragmentado, em que formar maioria é
caro, custo pago cada vez mais em emendas, não em cargos ou programas. A
fragmentação partidária enfraqueceu lideranças: hoje são necessários 15
partidos para maioria, ante 4 ou 5 no passado. As emendas superaram os cargos
em atratividade, tornando os presidentes da Câmara
dos Deputados e do Senado superpoderosos,
sem responsabilização política.
Há racionalidade nesse processo: é
estratégico que deputados busquem esses recursos mesmo diante do risco de
desgaste reputacional, criando um equilíbrio de soma negativa, no jargão
técnico de teoria dos jogos. Em português: corra atrás de emenda, pois seus
concorrentes o farão, buscando reeleição, mesmo sendo elevado o risco de ser
pego num caso de corrupção.
Não é ganância individual, mas a lógica de um
jogo em que a opacidade compensa cada jogador, mesmo piorando o resultado
coletivo. Negociar com cargos é política; com dinheiro público sem
transparência é captura.
A reação do STF, do TCU e da
Controladoria-Geral da União (CGU) reduziu a
opacidade das emendas Pix e ampliou a capacidade de rastreamento, mas não
alterou o incentivo político de fundo: usar o Orçamento como ativo de coalizão
e de sobrevivência eleitoral. Um malefício adicional: o potencial de baixa
renovação no Parlamento.
*Marcos Fernandes Gonçalves da Silva
Coordenador da linha de pesquisa de corrupção
do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da FGV/Eaesp
Marco Antonio Carvalho Teixeira
Pesquisador do Centro de Estudos da
Administração Pública e coordenador do Programa de Mestrado e Doutorado
Profissional em Políticas Públicas (MDPGPP/FGV/Eaesp)
Doutor em direito constitucional, é professor e gerente-executivo na FGV

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