O Estado de S. Paulo
Sob polarização, as instituições passam a ser julgadas por quem elas atingem
Poucos temas produzem tanto consenso no
Brasil quanto o combate à corrupção. Pesquisas de opinião mostram, há décadas,
que a maioria dos brasileiros considera a corrupção um dos principais problemas
do País. Ainda assim, convivemos com uma sensação permanente de impunidade.
O maior obstáculo ao combate à corrupção talvez não seja apenas a fragilidade das leis ou das instituições. Mas, sim, a incapacidade dos próprios eleitores de julgarem a corrupção com o mesmo critério, independentemente de quem esteja sendo investigado.
Quando investigações atingem um adversário
político, costumam ser celebradas como prova de independência institucional.
Quando alcançam um aliado, surgem imediatamente acusações de perseguição, abuso
de autoridade ou politização da Justiça. O mesmo eleitor que exige rigor para o
outro lado passa a defender garantias processuais para o seu.
Essa lógica não é exclusiva da direita nem da
esquerda. Ela se manifesta dos dois lados da polarização. Para testar essa
hipótese, realizei, juntamente com Mariana Furuguem e Frederico Bertholini, um
experimento sobre combate à corrupção, cujos resultados serão publicados em
breve no International Journal of Public Opinion Research. Apresentamos a
eleitores brasileiros uma proposta para aumentar a coordenação entre juízes,
procuradores e policiais com o objetivo de tornar as investigações mais
eficientes, reconhecendo explicitamente que isso poderia trazer riscos ao
devido processo legal.
Sem qualquer referência política, a proposta
recebeu amplo apoio. Mas bastou acrescentar uma informação: o debate havia
surgido a partir de controvérsias envolvendo a Operação Lava Jato. A partir
desse momento, a avaliação deixou de depender do conteúdo da proposta e passou
a refletir a identidade política dos entrevistados. Eleitores à direita
tornaram-se ainda mais favoráveis à coordenação institucional. Eleitores à
esquerda passaram a rejeitá-la com maior intensidade. A mesma proposta. Os
mesmos argumentos. Apenas um contexto político diferente.
O resultado revela um mecanismo preocupante.
A pergunta deixa de ser “esta regra melhora o combate à corrupção?” e passa a
ser “quem será beneficiado ou prejudicado por ela?”.
A legitimidade das instituições deixa de
depender da qualidade de seu funcionamento e passa a oscilar conforme o grupo
político atingido por suas decisões. O mesmo mecanismo que antes dividia
opiniões sobre a Lava Jato hoje se reproduz em torno do STF, apenas com os
sinais políticos invertidos. Enquanto a corrupção continuar sendo apenas a
corrupção do outro, a impunidade continuará sendo um problema de todos.

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