O Estado de S. Paulo
Menos afetado pela crise global, o País segue atolado no baixo dinamismo
Trapalhadas de Flávio Bolsonaro e brigas da
direita favorecem, por enquanto, a busca de mais uma eleição pelo presidente
Luiz Inácio Lula da Silva. A bagunça internacional pode atrapalhar, mas a
Petrobras tem conseguido manter as vendas externas, enquanto outros
exportadores tentam compensar, em mercados diversos, as dificuldades criadas
nos Estados Unidos pelo presidente Trump. Amizades problemáticas e suspeitas de
corrupção, tema persistente no dia a dia da política brasileira, podem afetar a
imagem do governo, mas sem danos importantes até agora.
A economia nacional permaneceu razoavelmente positiva no primeiro semestre. Até a primeira semana de julho, a balança comercial acumulou superávit de US$ 44,63 bilhões, 39,2% maior do que o alcançado em 2025 no mesmo período. O resultado foi obtido com exportações de US$ 190,66 bilhões, 11,8% superiores às de um ano antes, e importações de US$ 146,03 bilhões, com aumento anual de 5,4%.
Enquanto o comércio externo se expande, a
atividade econômica mostra algum dinamismo, apesar dos juros muito altos e,
portanto, do alto custo do capital. No primeiro trimestre, o Produto Interno
Bruto (PIB), valor adicionado da produção de todos os setores, cresceu 1,1% em
relação aos três meses finais de 2025. Além disso, foi 1,8% maior do que o de
um ano antes e acumulou expansão de 2% em 12 meses.
Para este ano, a mediana das projeções do
mercado aponta expansão próxima de 2%, segundo tem mostrado, semanalmente, o
boletim Focus. O Fundo Monetário Internacional (FMI) elevou de 1,9% para 2,4% o
crescimento estimado para 2026 e de 2% para 2,2% o avanço esperado para 2027. O
crescimento brasileiro continuará, pelo menos por alguns anos, menor do que o
de vários outros emergentes, mas o resultado positivo deverá persistir.
Se os fatos confirmarem essa expectativa, as
oportunidades de ocupação poderão ser suficientes para absorver a mão de obra
adicional. Mas o quadro geral dependerá, obviamente, da modernização
tecnológica, do preparo dos trabalhadores para as novas condições e, portanto,
também do investimento na expansão e na modernização do sistema educacional.
O governo federal tem dado alguma atenção aos
desafios da educação, superando nesse aspecto várias administrações estaduais.
Mas o esforço continua dependente – e assim deverá permanecer – principalmente
dos governos subnacionais, nem sempre voltados tanto quanto deveriam à educação
básica e à formação dos jovens. O novo governo fracassará num ponto essencial,
se negligenciar essa tarefa ou se for incapaz de enfrentá-la.
Apesar de fundamental para o desenvolvimento
econômico, social e, talvez, político, a educação permanece um tema pouco
importante – e, mais do que isso, quase imperceptível – no debate público do
dia a dia. Não só o problema educacional, no entanto, tem sido quase esquecido
na rotina da maior parte dos políticos. No período pré-eleitoral, debates sobre
grandes problemas nacionais têm sido escassos. Referências a temas essenciais
têm sido, além de raras, quase sempre irrelevantes. Fala-se em nomes e começam
a articular-se campanhas, mas programas e projetos são pouco mencionados. Será
cedo demais para iniciar pregações e debates ou haverá, mesmo, pouco interesse
em abrir discussões sobre grandes problemas e grandes objetivos?
Crescimento econômico, emprego, tecnologia,
inserção internacional, diplomacia, educação, investimento, inflação, contas
públicas, programas setoriais, segurança, gestão ambiental e cultura são
assuntos da imprensa escrita, dos meios de comunicação eletrônicos e de alguns
servidores públicos e autoridades, mas permanecem com pouco peso e com
tratamento precário no dia a dia da maior parte dos políticos. Nem a
perspectiva de eleições próximas parece estimular discursos e debates de algum
relevo.
Estarão os brasileiros dispostos a continuar
atolados num crescimento anual raramente superior – e até inferior, muitas
vezes – a 2%? Nem a celebrada abundância de recursos naturais parece estimular
discussões políticas sobre maior expansão e grandes mudanças na vida nacional.
O assunto foi lembrado, há dias, quando se mencionou o grande estoque de terras
raras, mas com pouca repercussão.
Vale a pena deixar a grupos estrangeiros a
exploração eficiente desse tipo de riqueza? Tem havido avanços em algumas áreas
da economia tradicional. Mas a transformação da indústria tem sido bem menos
visível do que a da agricultura, onde empresários e técnicos têm exibido maior
disposição de promover grandes mudanças tecnológicas e administrativas. O
governo chegou a exibir algum empenho na modernização da indústria e no seu
ganho de competitividade, mas esse esforço parece agora menos vigoroso.
Talvez a competição eleitoral tenha alterado
as prioridades e imposto novas tarefas às pessoas mais ligadas à política
industrial. Pode ser, mas é arriscado afirmar se essas pessoas, mesmo em caso
de vitória do atual presidente, reativarão seus melhores projetos. Em caso
negativo, o País perderá mais uma chance de escapar do rame-rame dos 2% de
expansão.

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