Revista Veja
Eleição não será decidida por méritos, mas
pelos erros de cada um
A campanha segue entre trancos e barrancos.
Tudo indica que será decidida menos pelos méritos dos candidatos e mais pelo
volume de erros que cada um cometer. Quem errar menos, ganha. Não há abundância
programática. Ao contrário: o debate é paupérrimo.
Lula se
apoia no que foi e no que diz ter feito. Flávio Bolsonaro se ampara no que o
pai representa. Um disputa a memória de governos anteriores. O outro disputa a
herança política do sobrenome. Um pede ao eleitor que se lembre. O outro pede
que transfira.
Após governar o país por três vezes, Lula flerta com a velha explicação segundo a qual obstáculos externos impedem o desenvolvimento nacional. O argumento lembra Brizola e sua insistência nas perdas internacionais como explicação para os males brasileiros. Ataca ricos, o mercado financeiro e o agronegócio. Enquanto isso, bate recordes o número de brasileiros que mudam de residência fiscal.
O ambiente internacional importa. Nenhum país
vive isolado. Mas grande parte dos problemas brasileiros é fabricada aqui. São
problemas made in Brazil:
endividamento público, insegurança jurídica, baixa produtividade, carga
tributária complexa, serviços públicos ruins, criminalidade, judicialização,
infraestrutura precária e burocracia.
“Lula carrega o peso do cansaço, e Flávio
suporta o peso da tutela. Nenhum oferece uma agenda nova”
Na lógica da terceirização da culpa, o
fracasso nunca é nosso. Como diria Homer Simpson, “a culpa é minha e eu coloco
em quem eu quiser”. Lula parece adaptar a frase ao palanque. É mais conveniente
culpar forças externas, mercado, ricos, estrangeiros ou circunstâncias do que
enfrentar a responsabilidade de quem governou por tanto tempo.
Flávio não fica atrás. Sua candidatura sofre
de três males: o peso do golpismo, a dependência excessiva do pai e o fogo
amigo. O bolsonarismo tenta transformar Jair Bolsonaro em plataforma,
biografia, bandeira e programa. Mas política por procuração tem limites.
Campanha presidencial exige mais que sobrenome. Exige comando, projeto,
disciplina, capacidade de ampliar e controle sobre o fogo amigo.
O fogo amigo no bolsonarismo não é detalhe. É
autossabotagem. Há vaidades, disputas familiares, desequilíbrios,
ressentimentos e dificuldade de coordenação. O grupo que sempre produziu antagonismo
contra adversários mostra dificuldade para administrar os próprios conflitos.
A campanha começa com dois problemas
simétricos. Lula carrega o peso do cansaço. Flávio suporta o peso da tutela.
Lula tenta convencer o país de que ainda representa uma solução. Flávio tenta
convencer o país de que representa uma continuidade possível. Um olha para trás
para reconstruir o próprio prestígio. O outro olha para trás para capturar o
prestígio alheio.
Nenhum dos dois, até aqui, oferece agenda
nova. Lula retorna ao repertório conhecido: Estado forte, gasto público e
responsabilização de terceiros. Flávio recorre ao manual bolsonarista: família,
conservadorismo, antipetismo, perseguição política e legado paterno.
Por isso, a eleição pode virar uma disputa de
resistência a erros. É um sinal ruim. Eleições deveriam premiar projetos, não
só punir desastres. Se os candidatos seguirem presos ao passado, o futuro será
decidido por quem errar menos e não por quem deseja enfrentar o cardápio de
problemas que temos.
Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002

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