quarta-feira, 22 de julho de 2026

Entrevista |Nordeste tende ao centro, avalia pesquisador, por Marina Falcão

Valor Econômico

Para Murilo Medeiros, da UnB, esquerda e direita enfrentam dificuldades na região

Com a esquerda enfrentando fadiga de material e a direita limitada a um teto eleitoral, as disputas estaduais no Nordeste convergem para o centro. A avaliação é do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), para quem o eleitor nordestino hoje está mais sensível ao aumento da criminalidade  - e menos aos programas de transferência de renda.

As eleições na região, com 40 milhões de eleitores, podem antecipar o Brasil de 2030, sem o protagonismo da polarização Lula x Bolsonaro. “O Nordeste talvez esteja na vanguarda”, diz.

A seguir, trechos da entrevista:

Valor: Nos três principais colégios eleitorais do Nordeste (Bahia, Pernambuco e Ceará), os candidatos de Lula enfrentam desafios. Como você classificaria esse momento da esquerda na região?

Murilo Medeiros: Lula continua sendo um importante cabo eleitoral no Nordeste, mas a transferência de votos não é tão automática como em outras eleições. Há uma mudança no comportamento do nordestino, que está muito mais sensível a temas como segurança pública e custo de vida. Ao mesmo tempo, há menos aquele voto de gratidão em relação aos programas sociais. É um eleitor mais independente, menos previsível e menos refém de lideranças individuais, principalmente nas grandes cidades. Os eleitores de baixa renda desses locais são as que mais sofrem com violência para pegar transporte, abrir seu comércio, e tráfico de droga. Essa faixa do eleitorado que vai ser um campo de batalha e candidaturas com discursos mais duros na área penal, de enfrentamento as facções criminosas tendem a lograr sucesso na eleição.

Valor: Por que o aumento da criminalidade contamina os candidatos a governador mais do que a Lula, que ainda tem mais de 60% dos votos Nordeste?

Medeiros: O tema da segurança pública é muito ligado a agenda dos governadores, até constitucionalmente, por isso Lula consegue manter certa distância do desgaste. O PT governa a Bahia desde 2007 e, nesse período, os índices de criminalidade cresceram muito no Estado. Isso acaba impactando a preferência do eleitor na renovação do mandato do incumbente. Mesma situação do Ceará, que convive com grande avanço das facções criminosas, homicídios e furtos de celular.

Faltou uma agenda própria da direita no Nordeste, que concentrou agenda na polarização”

Valor: Os programas sociais não surtem tanto efeito mais na região?

Medeiros: A memória afetiva em relação aos programas sociais já não é a mesma. A nova classe C do Nordeste almeja avançar crescer para além da ajuda do Estado. Essa parcela do eleitorado já consegue perceber que programas sociais que deram certo como programas do Estado brasileiro, que não serão interrompidos independentemente de quem esteja no poder.

Valor: Esse momento desafiador da esquerda significa um bom momento para a direita no Nordeste?

Medeiros: Faltou uma agenda própria da direita no Nordeste. Esse campo político concentrou sua agenda programática em embates institucionais, na polarização, na discussão ideológica acalorada, e não nos problemas reais do Nordeste, como a questão do desenvolvimento regional, do semiárido, da irrigação, da agricultura familiar, da industrialização. Essa lacuna ajuda a explicar o teto eleitoral da direita no Nordeste.

Valor: Se os dois campos estão em dificuldade, o que esperar do resultado eleitoral na região?

Medeiros: Uma mudança de eixo para o centro, movimento que já percebemos na última eleição municipal. Nas grandes capitais e nas cidades importantes do interior, os vitoriosos foram de legendas de centro como PSD, União Brasil, MDB. As lideranças que venceram em Caruaru (PE), Petrolina (PE), Feira de Santana (BA), Vitória da Conquista (BA), Mossoró (RN), Imperatriz (MA) não pertenciam à base de Lula, nem ao campo bolsonarista.

Valor: O eleitor Nordestino é mais pragmático do que ideológico?

Medeiros: É um erro crasso de alguns analistas classificar o eleitor do Nordeste como de esquerda. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, os principais governos do Nordeste eram do PFL, que dava sustentação às reformas liberalizantes. Com a ascensão de Lula, houve essa mudança de comportamento, porque Lula de fato levou muitos investimentos para a região. Mas o nordestino é muito pragmático, vai naquele candidato que está mais atento aos problemas e aponta soluções concretas, pensando no maior potencial econômico da região. Nessas eleições, o eleitor nordestino tende a ser menos fiel a lideranças que se coloquem como salvadores da pátria.

"Nessas eleições, o eleitor nordestino tende a ser menos fiel a lideranças que se coloquem como salvadores da pátria”

Valor: No Ceará, Ciro se uniu com parte da direita para tentar derrotar o PT. O que esperar dessa disputa?

Medeiros: O Ceará promete ser um dos maiores laboratórios da eleição de 2026, capaz de refletir a polarização nacional e a disputa presidencial. Há uma fadiga de material em relação ao tempo que o PT dominou o Ceará. A disputa é uma das principais apostas do PL para tentar reverter o favoritismo do PT no Nordeste. Na última eleição, Fortaleza, capital nordestina mais populosa, o PT venceu a eleição por muito pouco. O eleitorado está muito polarizado e há uma onda antipetista.

Valor: A eleição vai ser polarizada, mas Ciro Gomes já disse que não dará palanque a Flávio Bolsonaro...

Medeiros: Há uma desnacionalização de muitas campanhas de oposição com objetivo de não perder musculatura. Ciro não necessariamente vai dar palanque a Flávio, assim como ACM Neto na Bahia também não. No Rio Grande do Norte, Cadu Xavier, também não, nem Raquel Lyra em Pernambuco. O eleitor de hoje consegue separar com mais facilidade o voto para presidente da República do voto para governador.

Valor: Em Pernambuco, João Campos tem dobrado a aposta na parceria com Lula. Seria um erro?

Medeiros: É um risco eleitoral grande achar que uma dobradinha com Lula vai ser suficiente. A chapa de Campos acabou ficando muito vermelha com Marília Arraes (Solidariedade) e Humberto Costa (PT) para o Senado, e ele se deslocou do centro, o que pode impactar a decisão dos eleitores independentes.  Tendo em vista o seu perfil pragmático, Raquel tende a manter o pé nas duas canoas para não desperdiçar votos. Ela tem uma força grande no interior e, caso Campos nacionalize muito a campanha, pode ficar restrito ao eleitor metropolitano.

Valor: O que esperar para a eleição ao Senado?

Medeiros: Em eleição de duas cadeiras, há tendência de abstenção maior do segundo voto, e nisso algumas surpresas podem sair. De modo geral, há uma tendência de retorno de lideranças mais experientes, e o Nordeste deve replicar esse modelo, com ex-governadores e ex-ministros tendo maior competitividade. E avanço de lideranças de perfil centrista.

Valor: Por que essa tendência de migração para o centro não se reflete na eleição presidencial?

Medeiros: O Nordeste talvez esteja na vanguarda, antecipando um Brasil que a gente pode vivenciar em 2030, quando as figuras de Lula e Bolsonaro não devem estar nas urnas. O nordestino mostra cansaço dessa disputa entre dois campos ideológicos ancorada em discussões abstratas. E esse movimento de centro que deve se refletir muito na composição do Congresso, com o centro conservador crescendo suas bancadas e se tornando indispensável para governabilidade do próximo presidente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário