quarta-feira, 8 de julho de 2026

Escolha de dois senadores muda a lógica do voto, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Pleitos que renovam 2/3 do Senado costumam eleger mais influencers e outsiders

Preferências ideológicas tendem a prevalecer apenas na definição do primeiro nome

"De cabeça de juiz e fralda de neném, ninguém sabe o que vem" é um ditado popular entre advogados para designar o elemento de incerteza inerente a decisões judiciais. Poderíamos acrescentar um terceiro item ao provérbio: urnas em eleições de duas vagas para o Senado.

Desde que a Constituição de 1946 reduziu os mandatos de senadores de nove para oito anos e manteve o número de três representantes por estado, alternamos pleitos em que o eleitor vota em dois candidatos e aqueles em que escolhe apenas um nome. Pode parecer um mero detalhe, uma caprichosa imposição da aritmética sobre o processo eleitoral, mas ele tem consequências importantes não apenas sobre a estratégia dos partidos para forjar alianças e definir candidaturas mas principalmente sobre a psicologia do eleitor.

Em pleitos que renovam 2/3 do Senado, como o deste ano, o eleitor tende a utilizar critérios diferentes para a escolha do primeiro e do segundo candidatos. A primeira opção costuma ser mais ideológica, em linha com o voto para presidente e/ou governador. Cumprido o dever para com a tribo, o sujeito se sente livre para fazer o que quiser do segundo escrutínio. O limite é a imaginação. Muita gente opta simplesmente por não votar. A proporção ajustada de votos brancos e nulos para o Senado sobe consideravelmente em pleitos de duas vagas.

Outros recorrem a atalhos cognitivos. Eleições plurinominais (em que se escolhe mais de um candidato) são as que costumam consagrar influencers, outsiders, porta-estandartes de bancadas temáticas e outros tipos exóticos. Alguns cidadãos tentam balancear o próprio voto. Assim, se escolheram um postulante muito radical para a primeira vaga, poderão tentar "compensar" optando por um moderado para a segunda. Outros vão pelo caminho de menor resistência, ficando com um candidato de baixa rejeição mesmo que nem o conheçam. Em suma, é tanta gente votando de acordo com estratégias tão diferentes que pode sair qualquer coisa, como ocorre com a cabeça do juiz ou a bunda do bebê.

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