Valor Econômico
Perfil do TSE mostra eleitorado mais velho, mais escolarizado e mais numeroso em regiões ignoradas pelo noticiário nacional
Há mais brasileiros conectados à internet
(168,7 milhões) do que aptos a votar - 158.745.463 segundo os dados do perfil
do eleitorado divulgado nesta segunda pelo Tribunal Superior Eleitoral. Não se
tire daí a conclusão de que esta eleição será determinada pelas redes sociais.
O jovem que as movimenta estará mais ausente. Dados compilados pela Justiça Eleitoral em São Paulo mostram que, depois de crescer 51% em 2022, quando a cantora Anitta fez uma campanha para que se alistassem, o número de eleitores com menos de 18 anos caiu 23%. Já os idosos, mais distantes das redes, cresceram 13%.
Pesquisas de intenção de voto, como a da
Genial/Quaest na última semana, já mostravam que 54% do eleitorado estava
indeciso, o que significa, mantido o comparecimento de 2022, que quase 70
milhões ainda não sabem em quem votar.
A percepção de que os prognósticos eleitorais
se movem no escuro é reforçada pelo fato de que as regiões em que o eleitorado
mais cresce são também as mais relegadas pelo noticiário nacional. O Norte e o
Centro-Oeste, que entram em pauta quando o eleitor engole uma onça, tiveram
taxas de crescimento muito superiores à média do país.
Essas regiões cresceram, em média, 4% e hoje
somam uma fatia do eleitorado (15,8%) superior àquele do Sul (14,4%), que
cresceu abaixo da média nacional. O Nordeste cresceu acima e manteve-se com
mais de um quarto do eleitorado (27,4%). O Sudeste, que reina nas manchetes e
estratégias eleitorais, a ponto de PT, PL e PSD terem escolhido São Paulo para
suas convenções nacionais, registrou queda de 0,5% de eleitores.
As mulheres, que são maioria desde sempre,
desta vez aumentaram ainda mais sua fatia no eleitorado. Em 2022, a vantagem do
eleitorado feminino sobre o masculino superou os 8 milhões de votos. Este ano,
a diferença já se aproxima dos 9 milhões.
É quase o eleitorado da cidade de São Paulo a
mais de mulheres sem que nenhuma delas encabece chapa presidencial de partido
com representação no Congresso. As mulheres também são maioria entre os
indecisos, o que não significa que vão deixar de comparecer. Elas votam mais.
O eleitor, este desconhecido que vai às urnas
no domingo, não poderá ser decifrado nas redes sociais. Não apenas porque os
jovens estão menos interessados em participar do processo eleitoral. Se o país
da vida real está desconectado das eleições, aquele que navega nas redes também
não está nem aí.
Nas contas de Renato Dolci, especialista em
comportamento digital (Timelens), dos 168,7 milhões de conectados, apenas 27
milhões se manifestam sobre política. Desses, aqueles cujo número de seguidores
e taxa de engajamento tornam relevantes, não passam de 8,7 milhões.
A direita predomina entre os perfis
relevantes, mas são os extremos que geram o grosso das menções. Este ativista
digital, que faz quatro publicações por dia, gera uma média de 60% de todas as
menções políticas da internet no Brasil. Publica 23 vezes mais do que o usuário
ocasional.
Vem daí a conta com a qual Dolci contesta a
tese de que o Brasil esteja polarizado. Os extremistas digitais da política
representam apenas 1 milhão, entre 157,8 milhões de eleitores, 168,7 milhões de
internautas e 212 milhões de brasileiros.
Como, por um lado, esses ativistas digitais
fazem muitas publicações e as amplificam por robôs e, por outro, mais de 80% da
população conectada passa desapercebida nas redes, é o barulho que produzem que
acaba por pautar o noticiário e o discurso político.
É este barulho que faz com que Renan Santos
pareça maior do que é. Escolhido oficialmente nesta segunda em convenção
digital do seu partido, o candidato do Missão pontua nas pesquisas porque, na
cabeça do eleitor, é um influenciador com quem se identifica. E só.
A percepção de que a polarização ideológica
está restrita a uma bolha e que o eleitor está mais desapegado de suas escolhas
eleitorais também tem sido apontada por outros pesquisadores. O jargão dessa
turma é “polarização afetiva”.
É o que acomete o eleitor que adere a um
candidato e rejeita o outro e não arreda nem para o trem. Nas contas de Jairo
Pimentel Jr, professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da
Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, 69% dos eleitores não se
enquadram nesta prateleira.
Não aparecem apegados nem ao papel das
instâncias cujo preenchimento é tarefa sua. Na pesquisa feita há mais de dez
anos pelo Datafolha sobre a matriz ideológica do brasileiro, o indicador que
mais mudou é o papel do governo.
Em 2013, 47% diziam concordar que “quanto
menos eu depender do governo, melhor estará minha vida” e o mesmo percentual
dizia que “quanto mais benefícios eu tiver, melhor estará minha vida”. Hoje 65%
concordam com a primeira frase e 31% com a segunda.
Outro Jairo, o Nicolau (FGV-RJ), deu ao seu
último livro, o nome da coisa, “O país dividido” (Zahar, 2026) e deixou, sem
resposta, a pergunta se a divisão, que hoje deriva da força dos nomes Lula e
Bolsonaro, a eles sobreviverá.
Os dados compilados pela justiça eleitoral
mostraram que fatia formada por analfabetos, “lê e escreve” e ensino
fundamental completo e incompleto caiu. A partir daí, os números só cresceram.
A maior faixa do eleitorado e também a que mais cresceu foi a do ensino médio
completo. São 44 milhões. E há 18 milhões que concluíram faculdade. O eleitor
que se desapegou ficou mais sabido.

Ótima coluna.
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