terça-feira, 7 de julho de 2026

Michelle será culpada por eventual fracasso de Flávio nas urnas, por Juliano Spyer

Folha de S. Paulo

Evangélicos veem ex-primeira-dama como vilã, vítima ou força inquestionável

Sem o apoio de mulheres evangélicas, candidatura de Flávio fica vulnerável

Quem venceu a guerra entre Michelle Bolsonaro e os filhos de Jair? Por que ela se rebelou contra a campanha de Flávio Bolsonaro? Registrei algumas das narrativas —em que ela é vilã, vítima ou liderança vencedora.

Evangélicas mais à esquerda entendem que Michelle colhe o que plantou. Diante de tantos ataques, estaria sentindo na pele o que significa ser recatada e do lar. O tratamento seria educativo para quem desfruta das conquistas do feminismo enquanto defende a submissão da mulher no casamento.

Uma visão mais popular do que essa também a trata como vilã, mas por outro motivo. Michelle seria a mulher sem juízo que lava roupa suja em público e age por ser temperamental ou inapta. A atitude estaria condenando o Brasil a mais quatro anos de PT.

Outra posição, também popular, a vê como vítima. Segundo essa narrativa, analistas estariam atribuindo significados ocultos ao que é apenas uma briga familiar. Os filhos de Jair atacaram a madrasta, que revidou.

Michelle aparece como alguém de personalidade difícil, mas ainda exausta pelo que viveu desde a facada —pandemia, julgamento do marido, internações, batalha para transferi-lo para casa, responsabilidade pela filha adolescente.

Nessa condição de fragilidade, Michelle vem sendo atacada em sua honra, apontada como ingênua e ameaçada de violência física. Teria feito bem em se defender, mas não tem plano. Ao falar no evento com as mulheres conservadoras, Flávio sugeriu que ela estaria sendo induzida a prejudicá-lo.

Há a imagem de Michelle como vitoriosa —uma mulher que se parece com lideranças de igrejas pentecostais, como a pastora Helena Raquel, que viralizou ao criticar o machismo que encobre a violência contra mulheres nas igrejas.

Representam uma alternativa ao feminismo que, em vez de ver a Bíblia como um livro que promove o machismo, percebe nas escrituras um caminho para o igualitarismo. Homens e mulheres estão submetidos à mesma moralidade e o homem é mais defensor do que cabeça da casa.

Michelle é vista como essas mulheres que se entregam a projetos por suas igrejas mas são mantidas sob controle por lideranças masculinas. Defendem a submissão, mas, na prática, dão exemplo de empoderamento.

Na disputa com Flávio, seria uma liderança política que fez por merecer seu espaço. Viajou, mobilizou igrejas, abriu diretórios do PL Mulher, ampliou em quase 50% o número de mulheres eleitas pela legenda em 2024. Seria atacada pela esquerda porque disputa o monopólio desse campo sobre as necessidades de mulheres. E sai por cima.

Para alguns, ainda sonharia em ser a salvadora da direita caso escândalos tirem Flávio do jogo. Outros a veem se blindando: teria informação sobre novos materiais ligando Flávio ao caso Vorcaro, sai da linha de fogo e guarda capital político para 2030, sem Lula.

Duas ideias sobressaem: sem o apoio de mulheres evangélicas, a candidatura de Flávio fica vulnerável em uma eleição tão disputada. Se acontecer, Michelle será apontada como culpada.

 

 

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