O Estado de S. Paulo
Vídeo de Bolsonaro não deve causar cassação do registro de Flávio, mas pode gerar alerta
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está
diante do primeiro grande desafio sobre o uso de inteligência artificial nas
campanhas deste ano. A Corte está para decidir se configura ou não abuso o
vídeo exibido na convenção do PL com um avatar de Jair Bolsonaro pedindo voto
para o filho Flávio, candidato a presidente.
Três dos sete ministros do TSE falaram à coluna em caráter reservado. Para um deles, não houve abuso. Segundo esse ministro, a tecnologia pode ser usada em qualquer situação, desde que não seja para disseminar notícia falsa ou para prejudicar alguém.
Outro ministro diz que houve, sim, abuso na
exibição do vídeo. Ele alerta para o trecho da norma do tribunal que proíbe o
uso da IA “para prejudicar ou para favorecer candidatura”, ainda que haja
autorização da pessoa cuja imagem foi modificada – no caso, Jair Bolsonaro.
Um terceiro integrante da Corte concorda e
acrescenta que, além da irregularidade no uso da IA, houve pedido de voto antes
do período eleitoral, o que também pode resultar em condenação.
Os ministros que enxergam irregularidade na
exibição do vídeo ponderam que não há potencial para ensejar cassação do registro
da candidatura de Flávio. Se houver condenação, a pena deve ser o pagamento de
multa e a ordem de retirada do conteúdo do ar. A convenção do PL foi
reproduzida em postagens nas redes sociais e no YouTube.
Um dos ministros sugere que o caso do PL seja
um divisor de águas na tentativa de frear o uso disseminado de IA em campanhas.
Ele defende que, no julgamento, o TSE declare
que o uso sistemático e exagerado de IA configura abuso – e, portanto, pode ter
como consequência a cassação de candidaturas.
O caso será analisado pelo presidente do
tribunal, Kassio Nunes Marques, e, somente depois, deve ser submetido ao
plenário. Integrantes do TSE apostam que o presidente não verá problema na
exibição do vídeo com IA de Bolsonaro na convenção.
A discussão passa não apenas pela seara
eleitoral, mas respinga na criminal. Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal
Federal (STF), vai decidir se o episódio configura descumprimento de ordem
judicial por parte de Bolsonaro. Condenado por tentativa de golpe de Estado, o
ex-presidente está em prisão domiciliar e foi proibido de se manifestar sobre
política.
A expectativa é a de que, ainda que considere que houve ilícito no episódio, Moraes não mande Bolsonaro de volta para a prisão. Em outra frente, a decisão do TSE de punir ou não Flávio pode ser alvo de recurso ao Supremo. É esperado que o STF considere irregular a exibição do vídeo, gerando punição para a candidatura.

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