Valor Econômico
Neutralidade do Centrão na disputa presidencial tem também motivação financeira
A semana passada foi marcada pela negativa do
Centrão em apoiar a empreitada de Flávio Bolsonaro rumo ao Palácio do Planalto.
No lançamento de sua candidatura no sábado, nenhum presidente dos partidos
cortejados pelo filho Zero Um compareceu: nem Republicanos, União Brasil ou
Progressistas.
Essas legendas justificam a opção pela
neutralidade com o desejo de liberdade para negociar individualmente os
palanques em cada Estado. Sem celebrar um casamento formal com Flávio
Bolsonaro, elas ficam livres para até mesmo dar e receber apoio lulista em
algumas circunscrições.
Do outro lado do espectro ideológico, pela primeira vez desde a redemocratização teremos provavelmente um único candidato à Presidência no campo da esquerda - o que abre até a possibilidade matemática de uma vitória de Lula no primeiro turno.
Declarar oficialmente apoio a um candidato à
Presidência, integrando sua chapa, é uma aposta que, caso vencedora, garante
espaço privilegiado na composição do ministério. Da mesma forma, lançar uma
candidatura própria a presidente da República costuma impulsionar a eleição de
correligionários para governos estaduais e também cargos legislativos (Senado,
Câmara e Assembleias).
Nesta eleição, tanto a neutralidade dos
partidos do Centrão quanto a negativa de Psol, Rede, PDT e PSB de terem
candidatos próprios fazem parte também de uma estratégia comum à direita e à
esquerda: privilegiar a disputa para a Câmara dos Deputados.
Não se trata de fenômeno novo. Ao longo dos
anos, as siglas passaram a aplicar cada vez mais recursos na disputa para
deputado federal. A parcela de valores destinados a esse cargo saiu de 28,1% em
2002 para 52,5% nas eleições passadas.
A estratégia de priorizar a Câmara dos
Deputados também se manifesta no número de postulantes a esse posto. De 2002 a
2022, a quantidade de candidatos a deputado federal subiu de 4.207 para 9.970 -
um crescimento de 137%. Esse resultado é muito superior à expansão dos
concorrentes a deputado estadual e distrital, que saltou 39,9% (de 11.783 em
2002 para 16.490 vinte anos depois).
Um detalhe importante é que esse impulso dado
às candidaturas para a Câmara ocorreu mesmo com a mudança na legislação
eleitoral, que em 2021 restringiu o máximo de pleiteantes que cada legenda pode
lançar, de 150% para 100% do total de cadeiras em disputa em cada Estado.
A proliferação de candidaturas reflete a
minirreforma política de 2017, que proibiu as coligações nas eleições
legislativas. Mas o fato de os partidos estarem investindo a maior parte de
suas fichas na disputa para a Câmara dos Deputados revela motivos que são,
sobretudo, financeiros.
Para as agremiações menores, eleger deputados
federais é condição vital para superar a cláusula de desempenho, outra medida
adotada em 2017. Para continuar a ter acesso ao fundo partidário e ao horário
gratuito de rádio e TV pelos próximos quatro anos, a legislação exige que as
legendas elejam uma bancada de 13 deputados federais ou obtenham pelo menos
2,5% dos votos válidos para a Câmara, em pelo menos 9 Estados (com o mínimo de
1,5% dos votos válidos em cada um deles).
Siglas pequenas e grandes também buscam
atrair votos para deputado federal porque esse é o critério que mais pesa na
repartição dos recursos dos fundos partidário e eleitoral. Pelos valores
atuais, estima-se que serão distribuídos mais de R$ 15 bilhões em recursos
públicos para os partidos no próximo ciclo eleitoral (2027-2030). Sendo assim,
investir em campanhas para a Câmara é a melhor forma de aumentar as chances de
receber ainda mais dinheiro nos quatro anos seguintes.
Por fim, uma grande bancada em Brasília
significa também o controle sobre uma fatia polpuda do orçamento público. Só
neste ano, cada um dos 513 deputados federais deve ter a ingerência sobre a
aplicação de R$ 40 milhões em emendas individuais - enquanto os 81 senadores
ficarão com quase R$ 73 milhões cada. Além disso, há também os R$ 11,2 bilhões
de emendas de bancadas estaduais e mais R$ 12,1 bilhões de emendas de comissão.
Como se vê, nas eleições legislativas
brasileiras, dinheiro chama dinheiro. Assim, partidos jogam pesado para
alimentar o ciclo de patrimonialismo e coronelismo que contamina nossa
política.
Se você está insatisfeito com a qualidade da
democracia brasileira, saiba que nada mudará enquanto a sociedade não
pressionar por uma alteração da legislação eleitoral que reduza drasticamente o
acesso privilegiado dos partidos aos bilhões do orçamento público.
*Bruno Carazza é professor associado da Fundação Dom Cabral e autor de “O País dos Privilégios (volume 1) e “Dinheiro, Eleições e Poder”, ambos pela Companhia das Letras.

Perfeito.
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