segunda-feira, 6 de julho de 2026

Numerologia já definiu quem será eleito, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Escolha de números de urnas é muito mais do que um recurso mnemônico para o eleitor

Num evento político no mês passado, o pré-candidato a governador subiu no palanque improvisado de um restaurante para declarar seu apoio a um correligionário. E afirmou: “Você será o meu candidato a deputado federal, e a prova disso é que o seu número de urna será XYXY”, onde XY é o número do partido deles.

Numa eleição em que centenas ou milhares de políticos se engalfinham pelas poucas cadeiras em disputa, ter um número de urna fácil de ser lembrado pelo eleitor é um ativo importante - ainda mais num país em que candidatos e partidos em geral têm baixa conexão com os cidadãos.

Em 2022, 137 dos 513 deputados federais eleitos escolheram como número de urna a repetição do algarismo do seu partido. Foi a opção preferencial dos vencedores, o que justifica a escolha do pré-candidato a governador para seu preferido.

Essa opção é ainda mais forte nas agremiações que já têm como símbolo um dígito repetido. O PL é o campeão: elegeu vinte candidatos que tinham o número 2222. Na sequência vieram o Progressistas, com 16 eleitos com o número 1111, e o União Brasil, que fez 15 deputados 4444.

As demais siglas seguem o mesmo padrão. O 1010 é o número mais frequente entre os eleitos do Republicanos (13 deputados), assim como o 1313 é o mais comum entre os petistas (10 eleitos) e o 1515 no MDB (8 deputados). No PDT, o 1212 foi superior até ao tentador 1234 (com o placar de 5 a 4).

Grandes nomes do Congresso seguiram essa fórmula, de Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira (ambos 2222, um em São Paulo e outro em Minas) a Gleisi Hoffmann e Washington Quaquá (ela no Paraná e ele no Rio, mas os dois 1313), passando por Arthur Lira (1111) e Tábata Amaral (4040).

O segundo padrão de numeração mais comum em 2022 foi o final 00, com 46 parlamentares no total. Outra predileção é o final 10, utilizado por 31 deputados eleitos.

Em tempos de polarização extrema, políticos também usam a numeração para enviar um sinal claro para o eleitor. Assim, 28 congressistas se valeram de um combinado entre a indicação do seu partido e o numeral 22, associado a Jair Bolsonaro. Foi o quarto modelo mais utilizado, principalmente por integrantes do Centrão.

Para os adeptos da numerologia, a escolha de um bom número é receita de sucesso. De fato, os dados indicam que, no pleito de 2022, candidatos que foram às urnas com uma numeração que repetia os dígitos de seu partido tiveram quase 4 vezes mais chances de serem eleitos do que os seus adversários: 19,4% daqueles que usaram números repetidos foram eleitos, contra uma taxa geral de 4,9% do total de postulantes à Câmara dos Deputados.

 

Da mesma forma, quem usou números com final 10 teve o dobro de chances de conseguir uma vaga, enquanto os de final 00 apresentaram em média uma probabilidade 70% maior de chegar a Brasília.

Antes que alguém passe a atribuir efeitos mágicos aos números - como analistas esportivos que se fiam na tradição e no peso da camisa para cravar classificações - a prioridade na definição da numeração de urna é apenas um dos privilégios que os caciques partidários concedem aos seus correligionários preferidos.

O fator que realmente conta nas chances de ser ou não eleito no Brasil é a distribuição de recursos dos fundos partidário e eleitoral para os candidatos em cada diretório estadual.

Num sistema em que as eleições são disputadas em territórios muito grandes e com tantos partidos e candidatos, larga muito na frente quem dispõe de mais dinheiro para gastar com propaganda, cabos eleitorais e impulsionamento de campanha em redes sociais.

Em 2022, dos 6.269 candidatos que receberam menos de R$ 100 mil de seus partidos, apenas 24 conquistaram um lugar na Câmara, numa taxa de sucesso de 0,4%. Já entre os 38 agraciados com mais de R$ 3 milhões do fundão eleitoral, 18 se elegeram - ou seja, desfrutaram de uma probabilidade de vitória altíssima, de 47,4%.

Uma forma de visualizar como os caciques partidários definem previamente quem terá mais chance de vencer a eleição é cruzar os dados da numeração de urna com a repartição dos recursos do financiamento público de campanhas.

Na eleição passada, os concorrentes que usaram o número do partido duplicado (2222, 1313 e assim por diante) receberam em média R$ 722.575,91 de suas agremiações. Esse montante é mais de três vezes superior ao que ganharam os candidatos com números “normais” (média de R$ 215.456,35).

No Brasil existe uma discussão infrutífera entre os analistas e cientistas políticos sobre as vantagens do sistema de representação proporcional em lista aberta (adotado por nós) frente à alternativa da lista fechada.

Quando se analisa a distribuição dos ativos eleitorais dos partidos entre seus candidatos (fundos eleitoral e partidário, tempo na propaganda no rádio e na TV, presença em palanques e até mesmo o número de urna) constata-se que já vivemos um sistema de lista fechada - só que sem transparência.

Precisamos reconhecer que, no Brasil, eleição é uma disputa entre algumas centenas de candidatos previamente escolhidos pelos partidos e milhares de figurantes.

 

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