O Globo
Há uma lição que mulheres negras aprendemos e
reaprendemos. Recitamos, repetimos e insistimos. Não esquecemos. No discurso
tido como marco do feminismo negro, durante uma convenção sobre direitos da
mulher nos Estados Unidos,
em 1851, Sojourner Truth, negra, ex-escravizada e ativista, provocou:
— E eu não sou uma mulher?
Lélia Gonzalez, mais de um século depois, em
“Racismo e sexismo na sociedade brasileira” (1984), avisou:
— O lixo vai falar, e numa boa.
Uma década atrás, foi a vez de Conceição
Evaristo desenhar:
— Não escrevemos para adormecer os da casa grande, mas para acordá-los dos seus sonos injustos.
É nosso dever — nossa salvação — questionar,
reivindicar e, sim, aplacar o descanso dos que se imaginam acomodados em berço
esplêndido.
Os questionamentos sobre desigualdades e
violências recorrentes não cessarão porque uns acham que torcer (ou não) por
uma equipe é decisão unicamente esportiva. Ou porque outros preferem atacar
quem indaga sobre a violência de gênero descrita na letra de uma canção. Dá
para vibrar com o talento de Lionel Messi, reconhecer a garra argentina,
festejar a seleção espanhola e, ao mesmo tempo, repudiar a omissão do time
quanto a ofensas racistas de torcedores e compreender a importância de, em
plena Copa do Mundo, revisitar a brutalidade das nações colonizadoras e
destacar seus jogadores negros.
Tudo é política. E nem tudo é futebol. Vai
longe o tempo em que as reflexões propostas seriamente por supostas minorias —
afinal, negros e mulheres representam mais da metade da população brasileira —
podiam ser ignoradas, desqualificadas, descartadas com silêncio ou deboche.
Pode-se, claro, debater e discordar. É legítimo, inclusive, achar que um jogo é
um jogo, e uma música uma música. A trama se complica quando o discurso
pretende solapar do outro o direito de pensar diferente e expressar o próprio
pensamento.
Quatro meses atrás, a Assembleia Geral
da ONU reconheceu
o tráfico transatlântico de escravizados como “o crime mais grave contra a
humanidade”. O racismo dele decorrente é chaga que alcança os dias de hoje. Não
há equívoco em se lembrar dos massacres passados de africanos, indígenas,
judeus, ciganos, por Inglaterra, Espanha, Portugal, Bélgica, Alemanha e
companhia. E destacar, durante a Copa, quanto o protagonismo desses países no
esporte mais popular do planeta passa pelo desempenho estelar de descendentes
de escravizados, migrantes, refugiados.
É História. É bem-vindo pensamento crítico.
Passa longe de exigir selo de reputação imaculada de quem quer que seja ou
tentar interditar a torcida alheia. Cada um torce para quem quiser; cada um
problematiza o que convier.
Estou em Paraty, município do Litoral Sul
fluminense que abriga, desde 2003, uma tão bem-sucedida quanto inspiradora
festa literária internacional. Em 2016, um grupo de intelectuais negras — à
frente a historiadora Giovana Xavier e a escritora Conceição Evaristo, estrela
do evento desde então — denunciou a ausência de autores pretos no encontro.
Bingo. No ano seguinte, a Flip homenageou Lima Barreto e anunciou quase um terço
de negros nas mesas. O ativismo enriqueceu a Flip, hoje na 24ª edição, tal como
a política de cotas fez com as universidades. Ao exigir direito ao voto e
igualdade de gênero, o feminismo ampliou o horizonte das mulheres e tornou
melhor o Brasil.
Por isso, dói ouvir João Bosco, um mestre da
música brasileira, país em festa por seus 80 anos, atacar o ativismo de
mulheres numa resposta sobre a canção “Gol anulado”, em entrevista ao
“Estadão”. No ano passado, o Brasil registrou 1.571 feminicídios. Para cada uma
dessas mortes, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, houve mais de
500 ameaças, 182 agressões físicas, 39 casos de violência psicológica, três
tentativas de assassinato.
A violência contra mulheres é uma mazela
histórica do Brasil. A revista Gênero e Número destacou recentemente o estudo
que analisou 2.105 partidas do Campeonato Brasileiro. Derrotas inesperadas
elevaram em 6% os registros de violência doméstica nas seis horas seguintes aos
jogos; nas rodadas finais, 17%. Cinquenta anos atrás, Aldir Blanc escreveu e
Bosco musicou os versos Quando
você gritou Mengo no segundo gol do Zico/tirei sem pensar o cinto e bati até
cansar.
A letra pode ser descrição, denúncia, apologia,
gatilho. Obras públicas permitem livre interpretação em sociedades democráticas
e tolerantes. Bosco poderia ter dito — e seria absolutamente verdadeiro — que,
em 1976, ele e seu parceiro igualmente genial puseram num disco a tragédia,
somente hoje, medida em estatísticas, tipificada no Código Penal e alvo de
políticas públicas de prevenção. Preferiu atacar o chamado identitarismo,
classificar genericamente ativistas como loucas, exageradas, recomendar
medicação. Cobrou a tolerância e o diálogo que não ofereceu.
O sono da ignorância, do cinismo e da má-fé
será perturbado. O ronco do racismo e da misoginia não ecoará sozinho. Acordem.

O filho dele,Francisco Bosco,também já entrou em atrito com as feministas.Vida que segue,ninguém é perfeito.
ResponderExcluirUm adendo,Elis Regina gravou essa música,hoje,provavelmente não cantaria em shows.