sábado, 25 de julho de 2026

Nunca é só futebol, por Flávia Oliveira

O Globo

Há uma lição que mulheres negras aprendemos e reaprendemos. Recitamos, repetimos e insistimos. Não esquecemos. No discurso tido como marco do feminismo negro, durante uma convenção sobre direitos da mulher nos Estados Unidos, em 1851, Sojourner Truth, negra, ex-escravizada e ativista, provocou:

— E eu não sou uma mulher?

Lélia Gonzalez, mais de um século depois, em “Racismo e sexismo na sociedade brasileira” (1984), avisou:

— O lixo vai falar, e numa boa.

Uma década atrás, foi a vez de Conceição Evaristo desenhar:

— Não escrevemos para adormecer os da casa grande, mas para acordá-los dos seus sonos injustos.

É nosso dever — nossa salvação — questionar, reivindicar e, sim, aplacar o descanso dos que se imaginam acomodados em berço esplêndido.

Os questionamentos sobre desigualdades e violências recorrentes não cessarão porque uns acham que torcer (ou não) por uma equipe é decisão unicamente esportiva. Ou porque outros preferem atacar quem indaga sobre a violência de gênero descrita na letra de uma canção. Dá para vibrar com o talento de Lionel Messi, reconhecer a garra argentina, festejar a seleção espanhola e, ao mesmo tempo, repudiar a omissão do time quanto a ofensas racistas de torcedores e compreender a importância de, em plena Copa do Mundo, revisitar a brutalidade das nações colonizadoras e destacar seus jogadores negros.

Tudo é política. E nem tudo é futebol. Vai longe o tempo em que as reflexões propostas seriamente por supostas minorias — afinal, negros e mulheres representam mais da metade da população brasileira — podiam ser ignoradas, desqualificadas, descartadas com silêncio ou deboche. Pode-se, claro, debater e discordar. É legítimo, inclusive, achar que um jogo é um jogo, e uma música uma música. A trama se complica quando o discurso pretende solapar do outro o direito de pensar diferente e expressar o próprio pensamento.

Quatro meses atrás, a Assembleia Geral da ONU reconheceu o tráfico transatlântico de escravizados como “o crime mais grave contra a humanidade”. O racismo dele decorrente é chaga que alcança os dias de hoje. Não há equívoco em se lembrar dos massacres passados de africanos, indígenas, judeus, ciganos, por Inglaterra, EspanhaPortugalBélgicaAlemanha e companhia. E destacar, durante a Copa, quanto o protagonismo desses países no esporte mais popular do planeta passa pelo desempenho estelar de descendentes de escravizados, migrantes, refugiados.

É História. É bem-vindo pensamento crítico. Passa longe de exigir selo de reputação imaculada de quem quer que seja ou tentar interditar a torcida alheia. Cada um torce para quem quiser; cada um problematiza o que convier.

Estou em Paraty, município do Litoral Sul fluminense que abriga, desde 2003, uma tão bem-sucedida quanto inspiradora festa literária internacional. Em 2016, um grupo de intelectuais negras — à frente a historiadora Giovana Xavier e a escritora Conceição Evaristo, estrela do evento desde então — denunciou a ausência de autores pretos no encontro. Bingo. No ano seguinte, a Flip homenageou Lima Barreto e anunciou quase um terço de negros nas mesas. O ativismo enriqueceu a Flip, hoje na 24ª edição, tal como a política de cotas fez com as universidades. Ao exigir direito ao voto e igualdade de gênero, o feminismo ampliou o horizonte das mulheres e tornou melhor o Brasil.

Por isso, dói ouvir João Bosco, um mestre da música brasileira, país em festa por seus 80 anos, atacar o ativismo de mulheres numa resposta sobre a canção “Gol anulado”, em entrevista ao “Estadão”. No ano passado, o Brasil registrou 1.571 feminicídios. Para cada uma dessas mortes, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, houve mais de 500 ameaças, 182 agressões físicas, 39 casos de violência psicológica, três tentativas de assassinato.

A violência contra mulheres é uma mazela histórica do Brasil. A revista Gênero e Número destacou recentemente o estudo que analisou 2.105 partidas do Campeonato Brasileiro. Derrotas inesperadas elevaram em 6% os registros de violência doméstica nas seis horas seguintes aos jogos; nas rodadas finais, 17%. Cinquenta anos atrás, Aldir Blanc escreveu e Bosco musicou os versos Quando você gritou Mengo no segundo gol do Zico/tirei sem pensar o cinto e bati até cansar.

A letra pode ser descrição, denúncia, apologia, gatilho. Obras públicas permitem livre interpretação em sociedades democráticas e tolerantes. Bosco poderia ter dito — e seria absolutamente verdadeiro — que, em 1976, ele e seu parceiro igualmente genial puseram num disco a tragédia, somente hoje, medida em estatísticas, tipificada no Código Penal e alvo de políticas públicas de prevenção. Preferiu atacar o chamado identitarismo, classificar genericamente ativistas como loucas, exageradas, recomendar medicação. Cobrou a tolerância e o diálogo que não ofereceu.

O sono da ignorância, do cinismo e da má-fé será perturbado. O ronco do racismo e da misoginia não ecoará sozinho. Acordem.

 

Um comentário:

  1. O filho dele,Francisco Bosco,também já entrou em atrito com as feministas.Vida que segue,ninguém é perfeito.
    Um adendo,Elis Regina gravou essa música,hoje,provavelmente não cantaria em shows.

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