quarta-feira, 15 de julho de 2026

O antídoto de Flávio contra Michelle, por Vera Magalhães

O Globo

Presidente conseguiu, à base de uma sequência de medidas com viés eleitoral, interromper a trajetória de deterioração; impulso inicial de senador se dissipou após uma sequência de reveses

Lula conseguiu praticamente “zerar” o desgaste do primeiro semestre, período em chegou a ver a dianteira nas pesquisas eleitorais ameaçada por Flávio Bolsonaro e teve o favoritismo questionado por analistas graças à reprovação maior que a aprovação ao seu governo. Flávio, por sua vez, voltou praticamente ao patamar de intenções de votos que tinha em dezembro, quando foi apontado por seu pai, Jair, como candidato a substituí-lo na disputa presidencial.

Essas são as principais conclusões a partir da rodada de julho da pesquisa Genial/Quaesta última antes do início oficial da campanha.

Lula conseguiu, à base de uma sequência de medidas com viés eleitoral lançadas nos últimos meses, interromper a trajetória de deterioração justamente quando ela ameaçava se transformar numa mudança estrutural do cenário eleitoral.

Até abril, o governo acumulava más notícias. A desaprovação crescia, a avaliação negativa ultrapassava a positiva e Flávio chegava a aparecer numericamente à frente do petista no cenário de segundo turno.

A pesquisa Quaest de julho mostra outra fotografia. Lula volta a liderar todos os cenários de segundo turno, recupera terreno na aprovação do governo e vê a avaliação positiva empatar com a negativa. Mais importante do que a melhora em si é o fato de ela interromper uma tendência que parecia consolidada.

A curva de Flávio vai em sentido oposto. Quando foi ungido pelo pai como sucessor, em dezembro, aparecia sete pontos atrás de Lula no segundo turno. Nos meses seguintes, capitalizou a transferência do espólio bolsonarista, reduziu a diferença e chegou a abrir vantagem. Agora retorna exatamente ao mesmo patamar de dezembro. O impulso inicial se dissipou após uma sequência de reveses que começou com o caso Dark Horse e se agravou com os ruídos provocados pela relação com Donald Trump e, por fim, o vídeo-desabafo de Michelle Bolsonaro.

Talvez o dado mais relevante da pesquisa seja justamente aquilo que ela diz sobre os limites da oposição. Existe um eleitorado claramente disposto a votar contra Lula. Mas esse contingente continua sem produzir um candidato capaz de romper o teto da direita. Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos aparecem separados por poucos pontos nos cenários de segundo turno contra o presidente.

Evidentemente, eles têm graus muito diferentes de conhecimento público e densidade política. Ainda assim, o recado da pesquisa é que, hoje, nenhum deles consegue transformar o voto anti-Lula em uma vantagem competitiva diante do presidente.

Isso também tira, ao menos por ora, de Flávio e do PL o trunfo com que se apresentavam sobretudo ao mercado: a única possibilidade de vencer Lula. O retrato de julho é que, no segundo turno, ele não vai muito melhor que os demais postulantes —que, nas últimas semanas, mudaram a estratégia e passaram a tentar se descolar do senador no discurso, na esperança de crescer no primeiro turno, o que a pesquisa mostra que ainda está longe de acontecer.

O eleitor independente, tradicionalmente o segmento mais sensível às oscilações da conjuntura, descreveu nos últimos meses um retorno paulatino a Lula. Foi ele quem abandonou presidente no início do ano. É ele quem agora volta a se aproximar. A aprovação do governo entre os independentes sobe até empatar com a desaprovação, e, no segundo turno, Lula volta a abrir vantagem justamente nesse grupo. Em eleições polarizadas, é quase sempre aí que o resultado acontece.

Há uma coincidência temporal difícil de ignorar. O conhecimento do Desenrola 2.0 subiu de 57% para 66%, e a avaliação positiva, de 50% para 55%. Entre os beneficiários, os que sentiram aumento significativo da renda passaram de 15% para 24%. A recuperação de Lula ocorre justamente quando essas políticas começam a ser percebidas pelo eleitorado.

Isso não significa que a eleição esteja resolvida. Ao contrário. Os índices de rejeição continuam elevados e a polarização permanece sendo o principal motor da disputa. Mas a pesquisa sugere que, depois de um primeiro semestre em que o governo parecia jogar apenas na defesa, Lula conseguiu recuperar a iniciativa política.

Um dos dados que mais atestam essa melhora é o dos que acham que Lula merece ou não um novo mandato: há um mês, 55% achavam que Lula não merecia mais quatro anos, e 41% achavam que merecia. Agora essa diferença caiu para 6 pontos percentuais: 51% a 45%.

O levantamento mostra também que a oposição, apesar de preservar um sólido eleitorado, ainda não encontrou uma candidatura capaz de transformar o desgaste do presidente em maioria eleitoral.

Em outras palavras, a fotografia de julho se parece muito mais com a de dezembro do que com a de abril. Lula supera a fase mais adversa de seu mandato e volta a ocupar a posição de favorito. Flávio Bolsonaro continua sendo o nome preferido da direita, mas ainda não conseguiu provar que é capaz de ir além do bolsonarismo, como sugere sua queda entre a direita não-bolsonarista, de 82% para 75%.

O problema dos adversários de Lula é que em dezembro faltavam 10 meses para a eleição, e agora faltam três. Para quem precisa virar o jogo, quanto menos tempo, pior.

 

2 comentários: