domingo, 5 de julho de 2026

O colunismo social que ilustra o Brasil podre, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Crime financeiro, corruptos, facções ou celebridades se misturam na fofoca das redes

O país parece não se revoltar com a infiltração do crime 'comum' por toda parte

O ex-deputado estadual TH Joias, do Rio, está preso por ser acusado de prestar serviços ao Comando Vermelho etc. Também vendia joias caras a jogadores de futebol, influenciadores e pessoas da música, algumas acusadas de confraternizar com PCC e CV.

Celebridades propagandeiam "bets", essa desgraça. Famosos de internet se enrolaram com "bets", ilegais ou legais, ou foram presos por suspeita de lavar dinheiro para facções, como Deolane Bezerra, com mais de 20 milhões de seguidores no Instagram.

Jogadores lideram rankings da fama nas redes, seguidos por humoristas e cantores. Depois de Anitta, na lista de campeãs do Instagram aparece Virgínia, 56 milhões de seguidores. Na semana passada, apanhou por incentivar apostas na vitória de Cabo Verde contra a Argentina quando fazia propaganda da Blaze, "bet".

Viih Tube, 25, tem fama e empreende nas redes desde adolescente, é atriz e ex-BBB. Na semana passada, apanhou por promover um reality em que punha seus empregados domésticos para catar moedas no lixo, em disputa de prêmio em dinheiro.

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) fez turismo pago por Fernadin OIG, dono de bets. Nogueira era teúdo e manteúdo de Daniel Vorcaro. Vorcaro alugava graúdos da República e pagava festa de uísque e charuto para parte da cúpula da Justiça e da política, que aceitava com avidez arrivista e cafona esse favor em si impróprio.

Vorcaro e TH Joias são exemplos de nós em que se cruzam muitos fios da vida do país.TH Joias era protegido de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), também preso, quase candidato a governador com apoio do inelegível ex-governador do Rio, Cláudio Castro (PL), estado que colocou dinheiro de seus servidores no Master, de Vorcaro. Bicheiros, chefes de gangues homicidas, se infiltraram na Alerj e patrocinam a alegria carnavalesca. Gestoras de fundos faziam negócios para Vorcaro e gangues diversas.

Essa enumeração caótica é uma coluna social. Muitas das figuras citadas têm voto ou fama nas redes por decisão de massas da população. A vida pública mais e mais é marcada por jogatina, normalização social do crime e corrupção política extensa. A corrupção ajuda a entrincheirar a política da rapina, emendas e lobbies empresariais no Congresso, como o das "bets", um dos mais bem sucedidos.

Até os anos 1990, jornais publicavam "colunas sociais" à moda antiga, notas e fotos que retratavam ricos e agregados, que queriam aparecer e controlar o modo como apareciam. Era campanha de "soft power" de mandões e mandantes desta província. As colunas mais vetustas pareciam imagem editada de salões da elite mais velha, já fazia muito misturada a imigrantes enriquecidos. As mais "modernas" mostravam a vida festeira e mais informal em que se misturavam "artistas", gente de TV e outros admitidos à mesa de ricos, "socialites" e animadores de salão em geral, como doleiros ou vendedores de cocaína e bolinha. Fofocas de famosos de TV e música apareciam mais no que chamavam então de "revista de empregada".

As colunas retratavam a "boa sociedade". Lá apareciam varões que davam golpes na Bolsa, metiam-se nos escândalos financeiros da ditadura ou industriais que viviam de subsídio e protecionismo do "desenvolvimentismo" do "Brasil Grande". O colunismo criado pelo povo das redes pouco trata desses mandantes do poder. A lama muda de cor.

O colunista vai tirar férias do colunismo social do Brasil. Até a volta.

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