CartaCapital
Com o bloqueio do Estreito de Bab al-Mandab,
o grupo iemenita ganhou ainda mais relevância no tabuleiro geopolítico do
Oriente Médio
Antes do genocídio em Gaza, pouco se falava
sobre os houthis na imprensa ocidental, de modo geral, e na brasileira, em
particular. À época, eles dispararam mísseis e drones contra Israel e
realizaram bloqueios no Mar Vermelho. Com a guerra no Irã, a mídia voltou a
lembrar dos houthis, pois o grupo é aliado estratégico do país atacado por
Washington e Tel Aviv.
Nos últimos dias, sua importância aumentou ainda mais, já que os houthis anunciaram o bloqueio do Estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden. Trata-se de uma importante rota de escoamento de petróleo, principalmente para a Arábia Saudita. Com a guerra instaurada no Estreito de Ormuz, Bab al-Mandab assumiu uma relevância ainda maior.
Mas quem são os houthis? Conhecidos como
Ansar Allah (“Apoiadores de Deus”), eles são rebeldes xiitas do movimento
zaidita do Iêmen, que dominam a capital, Sana, e as províncias do norte do
país. O nome do grupo é uma referência ao seu líder fundador e à sua família.
Hussein Badreddin al-Houthi (1956–2004) foi um líder religioso, político e
militar. Ele influenciou a insurgência contra o governo iemenita, aliado à
Arábia Saudita, e contra os muçulmanos sunitas. Hussein integrava o partido Al-Haqq
(“A Verdade”), atuou como parlamentar e exerceu grande influência sobre as
tribos montanhosas do norte.
No contexto da Primavera Árabe, os houthis
não aceitaram um acordo político com o governo e iniciaram uma luta armada em
2011. Três anos mais tarde, a guerra civil se intensificou, e o grupo tomou a
capital e parte do território iemenita. A Arábia Saudita articulou uma
coalizão de 15 países e promoveu uma intervenção em apoio ao governo sunita,
que se deslocou para o interior e se estabeleceu na cidade de Áden, no sul do
país.
Os xiitas zaiditas têm uma origem muito
antiga. Seu nome deriva de Zaide ibne Ali, filho do quarto imã xiita, Zaide Alabidim,
que se rebelou em Cufa, em 740, contra o poder dos Omíadas. O Califado Omíada
foi o segundo dos quatro califados estabelecidos após a morte de Maomé.
Zaide considerava esse califado usurpador,
mas sua rebelião tinha motivações sociais e religiosas. Para ele, era
necessário se opor ao imã caso este não cumprisse os preceitos de um governo
justo. Os zaiditas passaram a defender a legitimidade de pegar em armas
contra gestões corruptas, o que os tornou um movimento perigoso aos olhos do
poder constituído.
Apesar disso, os zaiditas são considerados
moderados na jurisprudência e na política, sendo o grupo xiita mais próximo dos
sunitas. Com a guerra civil no Iêmen, os conflitos geopolíticos do Oriente
Médio e os interesses estratégicos em jogo, os houthis passaram a receber apoio
do Irã. A aliança não tem fundamento teológico, mas político e militar: ambos
têm como inimigos comuns os EUA, Israel e a Arábia Saudita.
Com a aliança, os houthis passaram a integrar
o Eixo da Resistência, liderado pelo Irã, a reunir diversos grupos, partidos e
movimentos, a exemplo do Hamas, do Hezbollah, da Jihad Islâmica Palestina e das
milícias xiitas do Iraque. Além de combater Israel, seu objetivo é enfrentar a
influência militar, política e cultural de Washington na região.
Caso o conflito entre Irã e EUA escale,
poderá se transformar em uma guerra regional de larga escala. O Eixo da
Resistência expressa a capacidade de Teerã de levar o confronto a diferentes
países. De fato, as tensões no Líbano, no Iêmen e em Gaza fazem parte de uma
mesma guerra regional ampliada. Países produtores de petróleo que abrigam bases
americanas também estão sendo atacados pelo Irã.
Vários analistas e estrategistas temem uma
escalada para uma guerra regional abrangente, com consequências
incomensuráveis. Além de afetar os fluxos de petróleo, a oferta global de
energia, o comércio, a aviação, a produção agrícola e industrial, as bolsas e o
capital financeiro, o maior temor é que os EUA ou Israel recorram a armas
nucleares.
Tanto Donald Trump quanto Benjamin Netanyahu
já sinalizaram a possibilidade de uso dessas armas nos conflitos da região.
Essa hipótese se torna cada vez mais assustadora à medida que Washington não
encontra uma saída razoável para a guerra que criou, junto com Israel, sem
justificativa.
Se os EUA desescalarem a guerra, sairão como
perdedores. Se a escalarem, além de não terem perspectiva de uma vitória
plausível, restará a loucura da destruição. É essa atitude de um presidente
arbitrário, emocionalmente desequilibrado, e de um governo igualmente
desequilibrado e desqualificado que assusta o mundo diante de uma terrível
tragédia. •
Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.

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