segunda-feira, 6 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editorais / Opiniões

Não faz sentido renovar subsídio ao carvão mineral

Por O Globo

Transição energética exige plano para desativar geração elétrica dessa fonte poluente e superada

É um paradoxo que o Brasil, país onde 88% da eletricidade é gerada por fontes renováveis — um dos percentuais mais altos do planeta —, ainda mantenha em sua matriz energética usinas térmicas a carvão mineral, que estão entre os maiores emissores de gases de efeito estufa. Embora respondam por algo como 1,4% da geração no país, elas custaram no ano passado R$ 1,22 bilhão em subsídios. Para piorar, um Projeto de Lei (PL) que tramita no Congresso, dos deputados Afonso Hamm (PP-RS) e Lucas Redecker (PSDB-RS), pretende estender tais subsídios até 2050, sob a alegação de que as usinas são um instrumento de segurança energética e econômica nas regiões carboníferas do Sul do país.

O debate do PL dá ao Brasil a oportunidade de fazer exatamente o contrário: tornar ainda mais limpa sua matriz energética e reduzir parte dos pesados subsídios pagos pela população na conta de luz. Se deseja ser referência na transição energética, o país tem de abandonar o uso de carvão. A capacidade de planejamento que caracteriza o setor elétrico deve ser usada para redução paulatina dele na geração elétrica, como têm feito regiões bem mais dependentes do mineral, em especial China ou União Europeia.

O último relatório do Global Energy Monitor informa que, apesar de a capacidade instalada global das térmicas a carvão ter subido 3,5% em 2025, a geração a partir dessa fonte caiu 0,6%. No Brasil, em contrapartida, cresceu 16,8% em 2024, ante crescimento de 11,4% das térmicas como um todo. Na China e na Índia, onde se concentra o crescimento na demanda por eletricidade no planeta, ela tem sido suprida por energia solar e eólica. Sem contar os Estados Unidos de Donald Trump, em todos os demais países houve queda na geração por carvão mineral.

Apesar do desenvolvimento de tecnologias para capturar o carbono emitido por usinas térmicas, nada justifica perpetuar o uso desse mineral na geração de energia. Na melhor das hipóteses, ela custará mais caro do que já custa, exigindo subsídios maiores na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), já estimada em R$ 52,7 bilhões neste ano. “Quem paga a CDE é o consumidor, não importa se é uma dona de casa, um pequeno comerciante, um hospital, um agricultor ou uma indústria”, diz Juliano Bueno, presidente do Instituto Arayara, ONG dedicada à transição energética com atuação em países latino-americanos.

Mesmo que o país ainda engatinhe na construção de parques de baterias para armazenar a energia necessária nos momentos em que cai a geração intermitente (eólica ou solar), é perfeitamente possível suprir a falta por meio de hidrelétricas ou térmicas a gás, já responsáveis por 75% da eletricidade vinda de combustíveis fósseis. Ainda que esteja longe de ser fonte limpa, o gás natural é bem menos poluente que o carvão mineral. E o carvão nem sequer é eficiente — as usinas dificilmente chegam a 40% de eficiência, ante 55% das térmicas a gás mais modernas.

É certo que desativar as térmicas a carvão exige planejamento em virtude do impacto social. Em Santa Catarina, a cadeia de mineração gera 21 mil empregos e representa 70% do PIB de alguns municípios. Mas um plano bem estruturado pode incentivar outras atividades na região e promover a transição necessária, tanto do ponto de vista ambiental quanto do econômico. O subsídio ao carvão é um equívoco com custo muito maior para o Brasil.

Seguro para produção rural paga o preço da incúria fiscal do governo

Por O Globo

Gastança leva a corte em subsídios a apólices contra imprevistos climáticos, mais necessárias em ano de El Niño

A gastança sem limite do governo já prejudica a agricultura, setor mais dinâmico da economia brasileira. O desregramento fiscal tem levado a bloqueios na execução do Orçamento da União, cujo impacto é sentido em vários segmentos. No setor agrícola, quase metade dos recursos previstos para subsidiar a contratação de seguro contra quebra de safra acaba de ser bloqueada. O Programa de Subvenção do Prêmio do Seguro Rural (PSR), gerenciado pelo Ministério da Agricultura, previa R$ 1 bilhão para ajudar os produtores rurais a pagar por suas apólices. Agora, R$ 474 milhões estão congelados.

Sem seguro, o produtor rural fica à mercê de variações climáticas cada vez mais extremas. No ano em que se prenuncia um aquecimento sem precedentes das águas do Pacífico Equatorial, agravando a intensidade do fenômeno El Niño, deverá haver mais chuvas no Sul, além de secas na Região Amazônica e no Nordeste. Sem a indenização por quebra de safra, o agricultor pode não conseguir se manter no mercado.

Os dados são preocupantes. A área cultivada protegida por seguradoras deverá cair para 2,7 milhões de hectares neste ano, ou 2,8% do total, menor proporção desde a instauração do PSR , em 2006, segundo o Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro). Isso representa queda de 81% ante os 14,2 milhões de hectares segurados em 2021, ano em que o PSR liberou mais recursos (R$ 1,2 bilhão). Executivos do agronegócio ouvidos pelo GLOBO consideram um equívoco o governo privilegiar o subsídio ao crédito rural, deixando em segundo plano o seguro de safras.

As incertezas criam um cenário nebuloso no horizonte de seguradoras e produtores rurais. “Fizemos um planejamento para vender as apólices considerando R$ 1 bilhão de subvenção. Agora, teremos menos de R$ 500 milhões. Como fica o planejamento das seguradoras?”, pergunta Daniel Nascimento, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais. Previsibilidade é uma palavra-chave em atividade com tantos fatores imponderáveis.

O aumento do subsídio ao seguro rural entre 2019 e 2021 acompanhou a mudança de patamar da área plantada do país, de 80 milhões para 90 milhões de hectares. Há relação direta entre subsídio e desenvolvimento do mercado segurador agrícola, segundo estudo recente do FGV Agro sobre o apoio estatal ao seguro rural no Brasil e em sete outros países. Os Estados Unidos destinam por ano o equivalente a R$ 60 bilhões à subvenção de seguros rurais.

Em 2025, o governo já havia cortado 47% desses recursos em relação a 2024. Agora o corte é superior a 50%. Tudo porque o Planalto resiste a fazer uma gestão fiscalmente responsável, deixando que os gastos sejam comprimidos pelo crescimento de despesas obrigatórias, como os benefícios previdenciários indexados pelo salário mínimo ou as parcelas orçamentárias vinculadas a percentuais da arrecadação. O preço a pagar pela incúria fiscal é alto — e o setor agrícola comprova isso.

Datafolha confirma favoritismo de Tarcísio em SP

Por Folha de S. Paulo

Com 46% das intenções de voto, governador tem uma largada confortável na busca pela reeleição

Segundo colocado com 30%, ex-ministro Fernando Haddad cumpre missão para ajudar Lula, mas tem caminho árduo para ir ao segundo turno

Com a depuração das pré-candidaturas ao governo de São Paulo e a chegada da temporada de convenções para confirmar os nomes da disputa, o cenário é amplamente favorável ao incumbente, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Na primeira pesquisa feita pelo Datafolha nesse contexto, o governador larga com uma expressiva vantagem sobre seu principal oponente, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT). No levantamento, Tarcísio marcou 46% das intenções de voto no estado, ante 30% do petista.

Em votos válidos, que excluem brancos e nulos e constituem a forma de contagem final no dia da eleição, o governador atinge 52%. Dado que a margem de erro é de dois pontos percentuais e que restam três meses até o pleito, não se pode afirmar que tal patamar indica vitória no primeiro turno —mas tal possibilidade está colocada.

O levantamento ainda aferiu a avaliação positiva de Tarcísio, cuja gestão é considerada ótima ou boa por 45% dos entrevistados, e uma aprovação de seu trabalho por 63%. São números que ajudam a sustentar bons prognósticos para sua campanha.

Deve-se observar, contudo, que os adversários ainda terão tempo de explorar as eventuais fragilidades do incumbente —um quase neófito na política, nascido no Rio de Janeiro e apadrinhado por Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.

Além das turbulências inerentes a corridas eleitorais, há insatisfações crônicas do eleitorado paulista: segurança pública e saúde são apontadas como os maiores problemas do estado, ambas por 27%, e 46% consideram que o mandatário fez menos do que poderia no cargo que assumiu após quase três décadas de hegemonia do PSDB.

A pesquisa traz um cenário complexo para Haddad. O ex-ministro foi novamente chamado a cumprir uma missão para seu líder, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) —no caso, a repetição de um desempenho que leve a disputa para o segundo turno.

Deu certo em 2022, quando o já conhecido Haddad ajudou Lula a amealhar votos importantes para a vitória no olho mecânico contra Bolsonaro. Na simulação de agora, o petista perde o tira-teima por 53% a 37%.

Veterano de três derrotas eleitorais consecutivas, ele tem a maior rejeição entre os postulantes deste ano, de 47%, enquanto o governador tem 29%.

Haddad foi bem-sucedido em aglutinar a oposição na sua faixa política, retirando da disputa, por exemplo, Márcio França (PSB), que será seu vice. Mas enfrenta um revés inesperado com os 13% registrados por três candidatos de esquerda radical.

A maior dificuldade do petista está no interior, que abriga 53% do eleitorado do estado e dá vantagem folgada de 49% a 26% a Tarcísio. Nesse estrato, é forte a influência do conservadorismo e do antipetismo que a legenda de Lula ainda não logrou superar.

Ataques da Ucrânia elevam pressão sobre Putin

Por Folha de S. Paulo

Com desabastecimento de combustível devido à ação de drones, russo lida com crise inédita em seu território desde que invadiu o vizinho há quatro anos e meio

Escalada na violência já começou, e especulação sobre nova mobilização militar ou acerca do emprego de armas nucleares táticas domina debate público em Moscou

Pensada para durar poucos dias, a invasão da Ucrânia já ultrapassou em duração a Grande Guerra Patriótica, como o segundo conflito mundial é chamado na Rússia. Após quase quatro anos e meio, a aventura militar de Vladimir Putin vive um ponto crítico.

Desde a desastrosa tentativa de ocupar a região meridional russa de Kursk, as forças de Kiev parecem ter logrado um sucesso estratégico em seu combate assimétrico contra Moscou com uma campanha de ataques ao sistema energético do vizinho.

Após semanas de ação, os efeitos são visíveis. A produção de refinarias russas caiu 25% de maio a junho, enquanto bombardeios a terminais derrubaram as exportações de petróleo cru em 15% no período.

O próprio Putin, que costuma descrever o desenrolar da guerra com lentes róseas, admitiu que o país enfrenta desabastecimento. Em regiões como a Crimeia anexada, o preço da gasolina subiu 30% na última semana, e o governo local decretou estado de emergência.

Filas em postos de combustíveis são vistas da distante Khabarovsk, no Extremo Oriente, até o ponto mais ocidental da Rússia, o exclave europeu de Kaliningrado. O governo admite tanto comprar derivados de petróleo quanto suspender sua exportação. Isso afetaria o Brasil, que tem nos russos a maior fonte do diesel que importa.

A pressão sobre Putin é inédita e já afeta, ainda que marginalmente, sua popularidade. Com isso, o caminho para uma saída negociada para o conflito parece ainda mais distante, dado que ele não pode conversar numa posição percebida de fraqueza sem arriscar a própria cadeira.

Sobra a escalada da violência, como se viu no brutal bombardeio de Kiev na quinta-feira (2), e no anúncio de conquista de uma cidade-chave no leste ucraniano no dia seguinte. O cenário tem levado a especulações, entre membros da elite russa, acerca do próximo passo.

A linha dura advoga por uma mobilização geral por uma mobilização geral ou até o emprego de armas nucleares táticas, restritas a campos de batalha, para subjugar Kiev. Ambas as ideias podem soar tentadoras a Putin, mas encerram riscos severos.

Quando mobilizou 300 mil soldados no fim de 2022, o russo viu uma queda forte de popularidade e protestos generalizados. Dali em diante, passou primeiro a contar com mercenários e, depois, com militares sob contrato.

Repetir a dose seria impopular e de eficácia incerta, dado que não basta ter a mão de obra, é preciso treiná-la e equipá-la.

Já a hipótese nuclear soa delirante, pois poderia resultar numa resposta dura dos Estados Unidos, até aqui bastante lenientes com Putin sob Donald Trump. Seja como for, as opções russas são escassas, o que eleva o perigo de ações mais radicais.

O melhor cabo eleitoral de Lula

Por O Estado de S. Paulo

Ao pedir ao governo dos EUA que espere passar as eleições para impor um novo tarifaço ao Brasil, Flávio Bolsonaro dá de bandeja ao petista o discurso de defesa da pátria

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem do que se queixar. Seu principal adversário na disputa eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro, não para de dar tiros no próprio pé. O mais recente foi um documento de 86 páginas que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro enviou ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) para implorar ao governo americano que suspenda um novo tarifaço contra o Brasil até a definição das eleições, em outubro.

O senador argumentou que a imposição de tarifas fortaleceria as chances eleitorais de Lula, como aconteceu há um ano, quando os Estados Unidos impuseram um tarifaço. O raciocínio é simples: como a família Bolsonaro trabalhou incessantemente para persuadir o governo americano a punir o Brasil em razão da prisão do ex-presidente, qualquer medida tomada por Washington contra o País é automaticamente vista como resultado dessa influência.

Está claro, portanto, que o único objetivo de Flávio com sua carta não é tentar dissuadir o governo americano a desistir das tarifas, e sim evitar que Lula fature politicamente com esse novo ataque ao Brasil.

Trata-se de algo assombroso mesmo para alguém como Flávio, tão subserviente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Poucos dias antes, o senador já havia oferecido a Trump a possibilidade de palpitar abertamente no processo de transição de governo no Brasil caso seja eleito, um evidente absurdo.

Agora, no momento em que o governo brasileiro envia sua defesa contra a ameaça de outro tarifaço dos Estados Unidos, Flávio dobra a aposta e trabalha com afinco para atrapalhar o Brasil em nome de seus projetos políticos.

Flávio Bolsonaro parece muito mal assessorado. Compreende-se a apreensão do senador com os danos eleitorais causados pela imposição de tarifas americanas contra o Brasil, porque não é possível dissociá-las de seu sobrenome. Mas a iniciativa de pedir ao governo americano que espere as eleições para castigar o Brasil mostra que o senador não tem a menor consideração pelo país que pretende governar e que a única razão de sua candidatura é derrotar Lula.

Por tabela, Flávio convidou Trump explicitamente a interferir na eleição brasileira ao vincular a imposição de tarifas ao calendário eleitoral, o que é um verdadeiro atentado à democracia do País. Em troca, o senador ofereceu aos americanos uma “busca agressiva” de acordos comerciais, o que passaria pelo abandono do Mercosul. Prometeu também rever a carga tributária sobre cartões de crédito, dominados por empresas americanas, e zerar as tarifas sobre o etanol americano. É o pacote completo da subserviência.

De bate-pronto, Lula fez bom uso do presentão recebido. “É inaceitável que a família Bolsonaro, com o seu entreguismo, queira submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos”, publicou o perfil do presidente no X. Para Lula, trata-se de “mais uma atitude de traidores da Pátria”.

Já ficou claro, a esta altura, que Flávio Bolsonaro e a coordenação de sua campanha não sabem o que fazer para reduzir o desgaste causado pela decisão dos Estados Unidos de punir o Brasil com tarifas. Ainda que a atitude americana provavelmente nada tenha a ver com os pleitos dos lobistas bolsonaristas nos Estados Unidos – e é mesmo difícil acreditar que Trump tenha resolvido fazer algo dessa magnitude só porque um Bolsonaro lhe pediu –, será praticamente impossível dissociar o tarifaço dos Bolsonaros. Afinal, é inesquecível o efusivo agradecimento do ex-deputado Eduardo Bolsonaro a Trump depois que os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50% aos produtos brasileiros, há um ano.

O efeito disso tudo não é apenas o desgaste de Flávio, de resto um candidato fraquíssimo, que não tem a apresentar nada além de seu sobrenome. É a injeção de oxigênio na campanha de Lula a poucos meses da eleição. Se a ideia dos Bolsonaros é ajudar a reeleger Lula para manter vivo o inimigo que justifica sua existência política, está funcionando.

As ruínas do ‘socialismo do século 21’

Por O Estado de S. Paulo

A rigor, o experimento bolivariano não precisava de um terremoto para se provar falido. Mas a tragédia expôs a destruição do Estado venezuelano promovida pelo regime chavista

As ruínas de La Guaira, região mais afetada pelos terremotos de 24 de junho passado na Venezuela, são também as ruínas do chamado “socialismo do século 21” – experimento chavista destinado a transformar o país, um dos mais ricos da América do Sul, em uma grande Cuba.

La Guaira concentra moradias populares erguidas com o dinheiro da bonança do petróleo nos tempos do caudilho Hugo Chávez – época na qual o governo venezuelano transformou a PDVSA, estatal petrolífera, na cornucópia que alimentou o projeto revolucionário chavista. Essas moradias foram construídas a toque de caixa pela ditadura bolivariana, sem qualquer preocupação com padrões técnicos – e quem quer que questionasse o governo a esse respeito era logo tratado como “inimigo do povo”. Hoje, sob os escombros desses prédios, estão milhares de pessoas pobres para as quais o “socialismo do século 21” havia prometido a redenção.

A rigor, o tal “socialismo do século 21” não precisava de um terremoto devastador para ser desmoralizado. A Venezuela, dona das maiores reservas provadas de petróleo no mundo, transformou-se ao longo de quase três décadas de chavismo num país falido, cuja economia encolheu brutalmente desde que o modelo de assalto ao Estado inaugurado por Chávez e aperfeiçoado pelo seu sucessor, Nicolás Maduro, mostrou todo o seu potencial. De 2012, um ano antes do início do governo Maduro, até 2020, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita da Venezuela desabou de US$ 12.607 para US$ 1.506. O fundo do poço foi atingido em 2020, com uma retração do PIB estimada em 30%, fenômeno raro em tempos de paz.

A erosão do Estado venezuelano, entregue à rapina bolivariana, cobrou seu preço na forma de um profundo despreparo para enfrentar tragédias como os terremotos de junho. Ficarão para sempre na memória as terríveis imagens de civis venezuelanos cavando os escombros com as próprias mãos em busca de sobreviventes e enterrando seus mortos, já que o governo foi incapaz de fornecer a ajuda necessária.

A corrupção desenfreada e a falta de planejamento adequado mostraram seus resultados: bombeiros sem os equipamentos necessários, hospitais em colapso e prédios que ruíram porque suas estruturas não foram corretamente fiscalizadas. O dinheiro que deveria financiar toda a arquitetura estatal requerida para essas múltiplas necessidades foi desviado para alimentar a máquina do poder chavista.

E parece ser apenas com isso que a presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, está preocupada. Ela está mais empenhada em sufocar a perturbação social como consequência da tragédia do que em mobilizar o aparato estatal para socorrer as milhares de vítimas dos terremotos. Consta que militares, indissociáveis do regime, reprimiram voluntários em vez de auxiliá-los. Não à toa, em recente visita a um dos locais atingidos, Delcy foi vaiada.

A Venezuela passa por uma transição política relevante, desde que os Estados Unidos capturaram o ditador Nicolás Maduro, em janeiro passado, a pretexto de julgá-lo por tráfico de drogas. Em seu lugar, o governo americano instalou Delcy, então vice-presidente, no poder – e sobre ela exerce tutela de forma explícita. Não se trata de mudança de regime, porque para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não interessa que a Venezuela seja reconvertida à democracia. A única coisa que importa a Trump é a transformação da Venezuela em vassalo dos Estados Unidos e a captura de suas riquezas naturais, sobretudo o petróleo.

Nesse processo, Delcy não tem o menor interesse em desmontar a máquina de repressão e controle do chavismo. Pelo contrário: a presidente aceita alegremente o papel de fantoche dos Estados Unidos porque tem projetos próprios para imprimir sua marca na história do chavismo. Tudo ia bem, com a retomada de investimentos no setor de petróleo a mando dos Estados Unidos, até que veio o terremoto – que pôs abaixo, sem piedade, a fantasia do bolivarianismo.

Veto a celular dá resultado

Por O Estado de S. Paulo

Restrição nas escolas completa um ano com consequências positivas para a educação

Uma pesquisa com mais de 3,5 mil gestores escolares das redes pública e privada de todo o Brasil apresentou resultados animadores sobre o primeiro ano de vigência da lei que restringe o uso dos celulares nas unidades de ensino. Segundo o levantamento coordenado pelo Ministério da Educação (MEC), 92% dos gestores ouvidos disseram que já implementaram a legislação em suas escolas.

Num país conhecido por ter leis que pegam e que não pegam, esse dado indica que a Lei 15.100, de 2025, está vigente e é eficaz. Como bem afirmou a secretária de Educação Básica, Kátia Schweickardt, ao anunciar os resultados da pesquisa, se a lei pegou, é porque havia um ambiente de preocupação na sociedade com o uso nocivo dos celulares por crianças e adolescentes.

Pais, professores, especialistas em educação e o poder público, o que inclui o Congresso, por discutir e aprovar a lei, e o presidente Lula da Silva, por sancioná-la, mostraram-se, a bem da verdade, atentos aos abusos. O tempo de tela, não raro viciante, desviava o foco dos alunos do conteúdo aplicado pelos professores, assim como lhes roubava o tempo de convívio social com os colegas nos espaços de interação, como o pátio da escola no intervalo.

E os gestores relataram uma nova realidade nas escolas. Nada menos do que 97% deles afirmaram que a restrição de celulares, com uso liberado apenas em atividades pedagógicas, contribuiu para aumentar a participação dos estudantes; 95% disseram que aumentou a socialização presencial; 88% afirmaram que a medida reduziu conflitos, agressões digitais e cyberbullying; e 86% apontaram a queda da ansiedade dos estudantes.

Tudo isso indica que a lei alcançou seus objetivos. De um lado, atendeu aos anseios da sociedade de frear o uso prejudicial dos celulares. E, de outro, incentivou as interações sociais e promoveu uma cultura de paz entre os estudantes no ambiente escolar.

Por ora, não foi possível aferir os efeitos acadêmicos da restrição. Novas pesquisas poderão dizer se os estudantes aprenderam mais ou menos. Mas já há estudos da Unesco que atestam os benefícios da medida, haja vista que o celular, ao tirar a atenção dos alunos da aprendizagem, afeta a memória e a compreensão.

Há desafios imediatos pendentes de solução. Segundo a pesquisa do MEC, 39% dos gestores escolares relataram ter dificuldade para convencer os alunos a aderir às regras e para garantir uma infraestrutura mínima para armazenar os aparelhos. É por isso que em 62% das escolas os celulares ficam na mochila dos próprios alunos.

Os gestores manifestaram algumas inquietações, como a necessidade de mais engajamento das famílias, para que as crianças não abusem das telas em casa e sintam vontade de usá-las na escola, e a demanda por mais políticas públicas para a formação docente em mediação tecnológica, saúde mental e bem-estar. Já houve mudanças significativas no dia a dia das escolas, mas apenas a letra da lei não basta: a eficácia plena ainda depende do comprometimento dos gestores, da participação dos pais e da ação do Estado.

Fragmentação geopolítica leva a número recorde de conflitos

Por Valor Econômico

Em paralelo, houve uma aceleração dos gastos militares, em especial na “pacífica” Europa em resposta à guerra na Ucrânia

Antes mesmo de Donald Trump ter lançado os EUA em uma guerra contra o Irã, o ambiente geopolítico global já era o mais instável desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A paz no mundo deteriorou-se pelo 12º ano seguido em 2025, refletindo a crescente interferência de Estados estrangeiros em conflitos internos, resultando em mais de 181 mil mortes, segundo dados do Institute for Economics & Peace (IEP). Em paralelo, houve uma aceleração do rearmamento global, com destaque para a presença cada vez maior da inteligência artificial na infraestrutura bélica e no uso de drones, que se tornaram a arma definidora da guerra moderna.

O impacto da violência dos conflitos internos e entre Estados na economia global foi de US$ 21,8 trilhões em termos de paridade do poder de compra (PPC) em 2025, o equivalente a 10,5% do PIB global - uma alta anual de 3,2%, segundo o Índice Global da Paz (GPI) do IEP. Mas esse impacto é bastante assimétrico, com o custo econômico nos 10 países mais afetados pela violência alcançando, em média, 23,4% do PIB na Rússia, Sudão, República Democrática do Congo, Ucrânia, Israel, Sudão do Sul, Afeganistão, Iêmen, Síria e Mali. Nos 10 países menos afetados esse impacto foi de apenas 2,2% do PIB - a maioria países ricos da Europa Ocidental.

Em um sinal da deterioração da percepção da paz global, foram justamente as nações “mais pacíficas” da Europa Ocidental e Central que mais aumentaram os gastos militares no último ano. No total global, os gastos militares somaram US$ 2,9 trilhões em 2025 - o equivalente a 2,5% do PIB global -, um aumento de 2,9% em termos reais. Os cinco países que registraram as maiores variações nos gastos militares são todos membros da Otan e com fronteiras próximas à guerra em curso na Ucrânia: Dinamarca, Noruega, Lituânia, Bélgica e Suécia. Coletivamente, os aliados europeus aumentaram os gastos com defesa em aproximadamente 20%.

A invasão da Ucrânia pela Rússia inverteu uma tendência de 15 anos de diminuição do nível médio de militarização dos países, segundo o GPI. Fora da Europa, observa-se também um crescimento contínuo dos orçamentos de defesa na China e na Índia e uma proliferação global de sistemas de armas avançados e pesados. Tudo isso sugere continuidade do impulso nos gastos militares globais.

A campanha militar dos EUA e de Israel contra o Irã introduziu uma nova camada de instabilidade no Oriente Médio. A guerra lançada por Trump é o mais recente exemplo de crescente internacionalização dos conflitos. Nos últimos cinco anos, 103 países estiveram envolvidos, em algum grau, em conflitos externos, ante 59 em 2008. Na avaliação do IEP isso reflete uma transformação estrutural do sistema internacional com a expansão em número e crescente influência das nações de potência média, cujo número quase dobrou desde o fim da Guerra Fria, de nove em 1991 para 16 em 2024, enquanto o número de potências emergentes triplicou no mesmo período. Essa expansão significa uma redistribuição da influência global, que se distancia das tradicionais grandes potências europeias e se desloca para um conjunto mais diversificado de atores no Oriente Médio, na região da Ásia-Pacífico e na América Latina. A participação das grandes potências europeias no PIB global também encolheu drasticamente desde 1991.

Essa mudança ocorre em um contexto de fragmentação geopolítica e esvaziamento das instituições multilaterais, do Conselho de Segurança da ONU à Organização Mundial do Comércio (OMC). Esse é um efeito colateral da teimosa resistência de longa data das potências tradicionais às demandas de reformas das instituições para dar mais peso às potências médias emergentes - uma pauta defendida pelo Brasil desde meados da década de 1990. A influência de potências médias em ascensão não se limita às considerações tradicionais de segurança. Países como Indonésia, Turquia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Brasil estão moldando cada vez mais os fluxos comerciais globais, o financiamento para o desenvolvimento, as narrativas culturais, o apoio militar e diplomático e as instituições internacionais.

É nesse cenário de fragmentação geopolítica e de conflitos globais em número recorde que o mundo observa um alarmante crescimento da infraestrutura bélica habilitada por IA, com os drones se consolidando como arma definidora nos conflitos armados atuais. Os riscos geopolíticos hoje superam os níveis da Guerra Fria, impulsionados pelo aumento dos gastos militares, redução do papel das instituições multilaterais, escalada das restrições comerciais e crescente competição entre grandes e médias potências.

O dinheiro das armas compete com o do combate ao aquecimento global, ameaça existencial ao planeta, que não cresce à altura das necessidades. O montante anual de US$ 1,3 trilhão que os países desenvolvidos se recusam a aportar para financiar ações de mitigação e adaptação climática nos países em desenvolvimento é bem menor do que os recursos que vão para armas de destruição.

A urgência de repensar os espaços urbanos

Por Correio Braziliense

Os números revelam uma distância entre o planejamento burocrático e o dia a dia pelo país: apenas 13% das cidades possuem planos publicados

A crise climática deixou de ser uma ameaça projetada para um horizonte distante e se tornou realidade cotidiana. Entre os episódios de calor extremo que colocam sob estresse vários sistemas pelo planeta — como a recente onda que atinge a Europa e matou ao menos 4,7 mil pessoas  — e as tempestades que paralisam comunidades e destroem infraestruturas, o mundo enfrenta um dilema urgente: adaptar os pilares das cidades, estabelecidos em concreto e, muitas vezes, sem expansão planejada. No Brasil, historicamente marcado por diversos problemas urbanos, essa demanda é complexa.

O Plano Clima, do governo federal, representa um passo institucional necessário, uma vez que estabelece a meta de que 35% dos municípios brasileiros possuam estratégias de adaptação até 2035. Mas os números revelam uma distância entre o planejamento burocrático e o dia a dia pelo país: apenas 13% das cidades têm planos publicados, de acordo com informações analisadas pela Transparência Internacional Brasil. Os dados apontam o tamanho do abismo do ponto de vista da gestão e também indicam a baixa participação social nesses processos, o que transforma decisões cruciais sobre o território em atos de gabinete, distantes da percepção de quem enfrenta a vulnerabilidade na pele.

O debate que o país precisa encarar ultrapassa as medidas institucionais e exige uma mudança de paradigma. Durante décadas, a resposta a eventos como enchentes foi baseada no cinza, investindo em canalização de rios, impermeabilização do solo e criação de obras de drenagem que, hoje, provam ser insuficientes diante da intensidade dos registros pluviométricos. A série de eventos que deixam rastros traumáticos mostram que é preciso transitar, com urgência, para soluções que não anulem a imposição da natureza. Um planejamento urbano que respeite as áreas verdes e as bacias hidrográficas, por exemplo, deve deixar de ser apenas experimentos isolados para se tornar diretrizes obrigatórias no modo de pensar a vida nos municípios brasileiros.

Além dos desafios da infraestrutura, a adaptação climática é, especialmente, uma questão de justiça social. As populações mais pobres são as que mais sofrem com o deficit de saneamento e a precariedade da moradia em áreas de risco. Pensar em cidades resilientes sem integrar a habitação digna e a inclusão na equação é ignorar a raiz do problema. A resiliência urbana não se constrói apenas com concreto e contenção, mas com o fortalecimento das comunidades e políticas públicas que garantam o direito à cidade segura.

Nesse cenário desafiador, conhecimento técnico, acadêmico e diretrizes estão presentes nas discussões nacionais. Porém, o que ainda falta é a tradução desses compromissos em orçamentos e, sobretudo, em vontade política. Os administradores públicos não podem mais postergar as ações voltadas para a emergência climática, mesmo que os "resultados" não sejam percebidos durante seus mandatos. Inação e soluções rasas custam vidas, sacrificam a população e comprometem o desenvolvimento econômico do país.

É imperativo que especialistas, pesquisadores, movimentos sociais e cidadãos se envolvam conjuntamente e assumam o protagonismo na cobrança e na fiscalização de alternativas duradouras. A adaptação climática é uma pauta de sobrevivência. A nação não pode mais permitir que o planejamento urbano continue a reproduzir erros do passado, que provocaram traumas e perdas irreversíveis. O futuro das cidades brasileiras depende de quão prioritário é esse tema para o país. O potencial único e a capacidade de adaptação são trunfos que o Brasil tem de aplicar urgentemente na busca por espaços urbanos que suportem a nova condição do clima.

Riqueza aumenta, mas desigualdade permanece

Por O Povo (CE)

Existe consenso fundamental entre economistas das mais diversas tendências de que o crescimento econômico, por si só, não garante a redução da desigualdade, pois o aumento da riqueza beneficia desproporcionalmente os detentores do capital

Pesquisa do Relatório Global de Riqueza, divulgado esta semana pelo Union Bank of Switzerland (UBS), mostra que o Brasil vive um impasse: enquanto aumenta o número de milionários, na outra ponta a desigualdade não cede.

No ano passado, em comparação com 2024, cresceu em 2,4% o número de pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão. O Brasil ganhou 9.215 novos milionários, ocupando a 19ª posição entre os 56 países analisados, liderando a lista de milionários na América Latina. No total, o Brasil soma 386 mil pessoas nessa condição economicamente privilegiada.

Em contrapartida, o País ocupa o quarto lugar entre os países mais desiguais do mundo, com o coeficiente Gini de 0,81, indicador que mede o nível de desigualdade de um país. Quanto mais próximo de zero, mais igualitária é a distribuição; quanto mais próximo de um, mais concentrada é a renda.

Segundo o relatório, o Brasil é o quarto mercado com maior desigualdade entre os países estudados, revelando que a riqueza continua distribuída de forma desigual entre a população.

De acordo com o relatório, o mundo está se tornando, de maneira geral, mais rico, em todos os segmentos do patrimônio. No entanto, a desigualdade permanece porque a distribuição da riqueza acontece de forma desigual, pois os ganhos são impulsionados pela valorização de ativos financeiros e imobiliários.

Um exemplo de como isso ocorre é a recente notícia mostrando que Elon Musk se tornou a primeira pessoa da história da humanidade a atingir a marca de US$ 1 trilhão de patrimônio, valor impulsionado pela entrada da empresa SpaceX na Nasdaq, a principal bolsa de tecnologia dos Estados Unidos.

O que fazer então para reduzir esse descompasso, no qual mais riqueza produz mais desigualdade, com os ganhos concentrados nos detentores de grandes patrimônios? Segundo estudiosos do assunto, é necessário buscar formas de fazer com que o crescimento seja acompanhado por instrumentos de redistribuição da riqueza.

É possível encontrar concordância entre estudiosos, com diferentes visões, socialistas ou liberais, em algumas propostas fundamentais que ajudariam, se implementadas, a reduzir a desigualdade. É o caso de programas de combate à pobreza e a criação de mecanismos para garantir uma renda mínima aos setores mais vulneráveis.

Além do mais, existe consenso fundamental entre economistas das mais diversas tendências de que o crescimento econômico, por si só não, garante a redução da desigualdade, pois o aumento da riqueza beneficia desproporcionalmente os detentores do capital.

Essa compreensão poderia funcionar como um patamar mínimo para um movimento com o objetivo de evitar que o aumento de riqueza de um país ou do mundo, tenha como consequência a exclusão da maioria da população do crescimento econômico. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário