Não faz sentido renovar subsídio ao carvão mineral
Por O Globo
Transição energética exige plano para
desativar geração elétrica dessa fonte poluente e superada
É um paradoxo que o Brasil, país onde 88% da eletricidade é gerada por fontes renováveis — um dos percentuais mais altos do planeta —, ainda mantenha em sua matriz energética usinas térmicas a carvão mineral, que estão entre os maiores emissores de gases de efeito estufa. Embora respondam por algo como 1,4% da geração no país, elas custaram no ano passado R$ 1,22 bilhão em subsídios. Para piorar, um Projeto de Lei (PL) que tramita no Congresso, dos deputados Afonso Hamm (PP-RS) e Lucas Redecker (PSDB-RS), pretende estender tais subsídios até 2050, sob a alegação de que as usinas são um instrumento de segurança energética e econômica nas regiões carboníferas do Sul do país.
O debate do PL dá ao Brasil a oportunidade de
fazer exatamente o contrário: tornar ainda mais limpa sua matriz energética e
reduzir parte dos pesados subsídios pagos pela população na conta de luz. Se
deseja ser referência na transição energética, o país tem de abandonar o uso de
carvão. A capacidade de planejamento que caracteriza o setor elétrico deve ser
usada para redução paulatina dele na geração elétrica, como têm feito regiões
bem mais dependentes do mineral, em especial China ou União Europeia.
O último relatório do Global Energy Monitor
informa que, apesar de a capacidade instalada global das térmicas a carvão ter
subido 3,5% em 2025, a geração a partir dessa fonte caiu 0,6%. No Brasil, em
contrapartida, cresceu 16,8% em 2024, ante crescimento de 11,4% das térmicas
como um todo. Na China e na Índia, onde se concentra o crescimento na demanda
por eletricidade no planeta, ela tem sido suprida por energia solar
e eólica. Sem contar os Estados Unidos de Donald Trump, em todos os demais
países houve queda na geração por carvão mineral.
Apesar do desenvolvimento de tecnologias para
capturar o carbono emitido por usinas térmicas, nada justifica perpetuar o uso
desse mineral na geração de energia. Na melhor das hipóteses, ela custará mais
caro do que já custa, exigindo subsídios maiores na Conta de Desenvolvimento
Energético (CDE), já estimada em R$ 52,7 bilhões neste ano. “Quem paga a CDE é
o consumidor, não importa se é uma dona de casa, um pequeno comerciante, um
hospital, um agricultor ou uma indústria”, diz Juliano Bueno, presidente do
Instituto Arayara, ONG dedicada à transição energética com atuação em países
latino-americanos.
Mesmo que o país ainda engatinhe na
construção de parques de baterias para armazenar a energia necessária nos
momentos em que cai a geração intermitente (eólica ou solar), é perfeitamente
possível suprir a falta por meio de hidrelétricas ou térmicas a gás, já
responsáveis por 75% da eletricidade vinda de combustíveis fósseis. Ainda que
esteja longe de ser fonte limpa, o gás natural é bem menos poluente que o
carvão mineral. E o carvão nem sequer é eficiente — as usinas dificilmente
chegam a 40% de eficiência, ante 55% das térmicas a gás mais modernas.
É certo que desativar as térmicas a carvão exige
planejamento em virtude do impacto social. Em Santa Catarina, a cadeia de
mineração gera 21 mil empregos e representa 70% do PIB de alguns municípios.
Mas um plano bem estruturado pode incentivar outras atividades na região e
promover a transição necessária, tanto do ponto de vista ambiental quanto do
econômico. O subsídio ao carvão é um equívoco com custo muito maior para o
Brasil.
Seguro para produção rural paga o preço da
incúria fiscal do governo
Por O Globo
Gastança leva a corte em subsídios a apólices
contra imprevistos climáticos, mais necessárias em ano de El Niño
A gastança sem limite do governo já prejudica
a agricultura, setor mais dinâmico da economia brasileira. O desregramento
fiscal tem levado a bloqueios na execução do Orçamento da União, cujo impacto é
sentido em vários segmentos. No setor agrícola, quase metade dos recursos
previstos para subsidiar a contratação de seguro contra quebra de safra acaba
de ser bloqueada. O Programa de Subvenção do Prêmio do Seguro Rural (PSR),
gerenciado pelo Ministério da Agricultura, previa R$ 1 bilhão para ajudar os
produtores rurais a pagar por suas apólices. Agora, R$ 474 milhões estão
congelados.
Sem seguro, o produtor rural fica à mercê de
variações climáticas cada vez mais extremas. No ano em que se prenuncia um
aquecimento sem precedentes das águas do Pacífico Equatorial, agravando a
intensidade do fenômeno El Niño, deverá haver mais chuvas no Sul, além de secas
na Região Amazônica e no Nordeste. Sem a indenização por quebra de safra, o
agricultor pode não conseguir se manter no mercado.
Os dados são preocupantes. A área cultivada
protegida por seguradoras deverá cair para 2,7 milhões de hectares neste ano,
ou 2,8% do total, menor proporção desde a instauração do PSR , em 2006, segundo
o Centro de Estudos do Agronegócio da
Fundação Getulio Vargas (FGV Agro). Isso representa queda de 81% ante os 14,2
milhões de hectares segurados em 2021, ano em que o PSR liberou mais recursos
(R$ 1,2 bilhão). Executivos do agronegócio ouvidos pelo GLOBO consideram um
equívoco o governo privilegiar o subsídio ao crédito rural, deixando em segundo
plano o seguro de safras.
As incertezas criam um cenário nebuloso no
horizonte de seguradoras e produtores rurais. “Fizemos um planejamento para
vender as apólices considerando R$ 1 bilhão de subvenção. Agora, teremos menos
de R$ 500 milhões. Como fica o planejamento das seguradoras?”, pergunta Daniel
Nascimento, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de
Seguros Gerais. Previsibilidade é uma palavra-chave em atividade com tantos
fatores imponderáveis.
O aumento do subsídio ao seguro rural entre
2019 e 2021 acompanhou a mudança de patamar da área plantada do país, de 80
milhões para 90 milhões de hectares. Há relação direta entre subsídio e
desenvolvimento do mercado segurador agrícola, segundo estudo recente do FGV
Agro sobre o apoio estatal ao seguro rural no Brasil e em sete outros países.
Os Estados Unidos destinam por ano o equivalente a R$ 60 bilhões à subvenção de
seguros rurais.
Em 2025, o governo já havia cortado 47% desses recursos em relação a 2024. Agora o corte é superior a 50%. Tudo porque o Planalto resiste a fazer uma gestão fiscalmente responsável, deixando que os gastos sejam comprimidos pelo crescimento de despesas obrigatórias, como os benefícios previdenciários indexados pelo salário mínimo ou as parcelas orçamentárias vinculadas a percentuais da arrecadação. O preço a pagar pela incúria fiscal é alto — e o setor agrícola comprova isso.
Datafolha confirma favoritismo de Tarcísio em
SP
Por Folha de S. Paulo
Com 46% das intenções de voto, governador tem
uma largada confortável na busca pela reeleição
Segundo colocado com 30%, ex-ministro
Fernando Haddad cumpre missão para ajudar Lula, mas tem caminho árduo para ir
ao segundo turno
Com a depuração das pré-candidaturas ao
governo de São Paulo e
a chegada da temporada de convenções para confirmar os nomes da disputa, o
cenário é amplamente favorável ao incumbente, Tarcísio de
Freitas (Republicanos).
Na primeira pesquisa feita pelo Datafolha nesse
contexto, o governador larga com uma expressiva vantagem sobre seu principal
oponente, o ex-ministro da Fazenda Fernando
Haddad (PT). No levantamento,
Tarcísio marcou 46%
das intenções de voto no estado, ante 30% do petista.
Em votos válidos, que excluem brancos e nulos
e constituem a forma de contagem final no dia da eleição, o governador atinge
52%. Dado que a margem de erro é de dois pontos percentuais e que restam três
meses até o pleito, não se pode afirmar que tal patamar indica vitória no
primeiro turno —mas tal possibilidade está colocada.
O levantamento ainda aferiu a avaliação
positiva de Tarcísio, cuja gestão é
considerada ótima ou boa por 45% dos entrevistados, e uma aprovação
de seu trabalho por 63%. São números que ajudam a sustentar bons prognósticos para
sua campanha.
Deve-se observar, contudo, que os adversários
ainda terão tempo de explorar as eventuais fragilidades do incumbente —um quase
neófito na política, nascido no Rio de Janeiro e apadrinhado por Jair
Bolsonaro (PL), que cumpre pena por tentativa de golpe de
Estado.
Além das turbulências inerentes a corridas
eleitorais, há insatisfações crônicas do eleitorado paulista: segurança pública
e saúde são apontadas como os maiores problemas do estado, ambas por 27%, e 46%
consideram que o mandatário fez menos do que poderia no cargo que assumiu após
quase três décadas de hegemonia do PSDB.
A pesquisa traz um cenário complexo para
Haddad. O ex-ministro foi novamente chamado a cumprir uma missão para seu
líder, Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) —no caso, a repetição de um desempenho que leve a disputa para o
segundo turno.
Deu certo em 2022, quando o já conhecido
Haddad ajudou Lula a amealhar votos importantes para a vitória no olho mecânico
contra Bolsonaro. Na simulação de agora, o petista perde o tira-teima por 53% a
37%.
Veterano de três derrotas eleitorais
consecutivas, ele tem a maior rejeição entre os postulantes deste ano, de 47%,
enquanto o governador tem 29%.
Haddad foi bem-sucedido em aglutinar a
oposição na sua faixa política, retirando da disputa, por exemplo, Márcio
França (PSB), que será seu vice. Mas enfrenta um revés inesperado com os 13% registrados
por três candidatos de esquerda radical.
A maior dificuldade do petista está no interior, que abriga 53% do eleitorado do estado e dá vantagem folgada de 49% a 26% a Tarcísio. Nesse estrato, é forte a influência do conservadorismo e do antipetismo que a legenda de Lula ainda não logrou superar.
Ataques da Ucrânia elevam pressão sobre Putin
Por Folha de S. Paulo
Com desabastecimento de combustível devido à
ação de drones, russo lida com crise inédita em seu território desde que
invadiu o vizinho há quatro anos e meio
Escalada na violência já começou, e
especulação sobre nova mobilização militar ou acerca do emprego de armas
nucleares táticas domina debate público em Moscou
Pensada para durar poucos dias, a invasão da
Ucrânia já ultrapassou em duração a Grande Guerra Patriótica,
como o segundo conflito mundial é chamado na Rússia.
Após quase quatro anos e meio, a aventura militar de Vladimir
Putin vive um ponto crítico.
Desde a desastrosa tentativa de ocupar a
região meridional russa de Kursk, as forças de Kiev parecem ter logrado um
sucesso estratégico em seu combate assimétrico contra Moscou com uma campanha
de ataques ao sistema energético do vizinho.
Após semanas de ação, os efeitos são
visíveis. A produção de refinarias russas caiu 25% de maio a junho, enquanto
bombardeios a terminais derrubaram as exportações de petróleo cru
em 15% no período.
O próprio
Putin, que costuma descrever o desenrolar da guerra com lentes
róseas, admitiu que o país enfrenta desabastecimento. Em regiões como a Crimeia
anexada, o preço da gasolina subiu 30% na última semana, e o governo local
decretou estado de emergência.
Filas em postos de combustíveis são vistas da
distante Khabarovsk, no Extremo Oriente, até o ponto mais ocidental da Rússia,
o exclave europeu de Kaliningrado. O governo admite tanto comprar derivados de
petróleo quanto suspender sua exportação. Isso afetaria
o Brasil, que tem nos russos a maior fonte do diesel que
importa.
A pressão sobre Putin é inédita e já afeta,
ainda que marginalmente, sua popularidade. Com isso, o caminho para uma saída
negociada para o conflito parece ainda mais distante, dado que
ele não pode conversar numa posição percebida de fraqueza sem arriscar a
própria cadeira.
Sobra a escalada da violência, como se viu no brutal
bombardeio de Kiev na quinta-feira (2), e no anúncio de
conquista de uma cidade-chave no leste ucraniano no dia seguinte. O cenário tem
levado a especulações, entre membros da elite russa, acerca do próximo passo.
A linha dura advoga por uma mobilização geral
por uma mobilização geral ou até o emprego de armas nucleares táticas,
restritas a campos de batalha, para subjugar Kiev. Ambas as ideias podem soar
tentadoras a Putin, mas encerram riscos severos.
Quando mobilizou
300 mil soldados no fim de 2022, o russo viu uma queda forte de
popularidade e protestos generalizados. Dali em diante, passou primeiro a
contar com mercenários e, depois, com militares sob contrato.
Repetir a dose seria impopular e de eficácia
incerta, dado que não basta ter a mão de obra, é preciso treiná-la e equipá-la.
Já a hipótese nuclear soa delirante, pois poderia resultar numa resposta dura dos Estados Unidos, até aqui bastante lenientes com Putin sob Donald Trump. Seja como for, as opções russas são escassas, o que eleva o perigo de ações mais radicais.
O melhor cabo eleitoral de Lula
Por O Estado de S. Paulo
Ao pedir ao governo dos EUA que espere passar
as eleições para impor um novo tarifaço ao Brasil, Flávio Bolsonaro dá de
bandeja ao petista o discurso de defesa da pátria
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não
tem do que se queixar. Seu principal adversário na disputa eleitoral, o senador
Flávio Bolsonaro, não para de dar tiros no próprio pé. O mais recente foi um
documento de 86 páginas que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro enviou ao
Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em
inglês) para implorar ao governo americano que suspenda um novo tarifaço contra
o Brasil até a definição das eleições, em outubro.
O senador argumentou que a imposição de
tarifas fortaleceria as chances eleitorais de Lula, como aconteceu há um ano,
quando os Estados Unidos impuseram um tarifaço. O raciocínio é simples: como a
família Bolsonaro trabalhou incessantemente para persuadir o governo americano
a punir o Brasil em razão da prisão do ex-presidente, qualquer medida tomada
por Washington contra o País é automaticamente vista como resultado dessa
influência.
Está claro, portanto, que o único objetivo de
Flávio com sua carta não é tentar dissuadir o governo americano a desistir das
tarifas, e sim evitar que Lula fature politicamente com esse novo ataque ao
Brasil.
Trata-se de algo assombroso mesmo para alguém
como Flávio, tão subserviente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Poucos dias antes, o senador já havia oferecido a Trump a possibilidade de
palpitar abertamente no processo de transição de governo no Brasil caso seja
eleito, um evidente absurdo.
Agora, no momento em que o governo brasileiro
envia sua defesa contra a ameaça de outro tarifaço dos Estados Unidos, Flávio
dobra a aposta e trabalha com afinco para atrapalhar o Brasil em nome de seus
projetos políticos.
Flávio Bolsonaro parece muito mal
assessorado. Compreende-se a apreensão do senador com os danos eleitorais
causados pela imposição de tarifas americanas contra o Brasil, porque não é
possível dissociá-las de seu sobrenome. Mas a iniciativa de pedir ao governo
americano que espere as eleições para castigar o Brasil mostra que o senador
não tem a menor consideração pelo país que pretende governar e que a única
razão de sua candidatura é derrotar Lula.
Por tabela, Flávio convidou Trump explicitamente
a interferir na eleição brasileira ao vincular a imposição de tarifas ao
calendário eleitoral, o que é um verdadeiro atentado à democracia do País. Em
troca, o senador ofereceu aos americanos uma “busca agressiva” de acordos
comerciais, o que passaria pelo abandono do Mercosul. Prometeu também rever a
carga tributária sobre cartões de crédito, dominados por empresas americanas, e
zerar as tarifas sobre o etanol americano. É o pacote completo da
subserviência.
De bate-pronto, Lula fez bom uso do presentão
recebido. “É inaceitável que a família Bolsonaro, com o seu entreguismo, queira
submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos”, publicou o perfil do
presidente no X. Para Lula, trata-se de “mais uma atitude de traidores da
Pátria”.
Já ficou claro, a esta altura, que Flávio
Bolsonaro e a coordenação de sua campanha não sabem o que fazer para reduzir o
desgaste causado pela decisão dos Estados Unidos de punir o Brasil com tarifas.
Ainda que a atitude americana provavelmente nada tenha a ver com os pleitos dos
lobistas bolsonaristas nos Estados Unidos – e é mesmo difícil acreditar que
Trump tenha resolvido fazer algo dessa magnitude só porque um Bolsonaro lhe
pediu –, será praticamente impossível dissociar o tarifaço dos Bolsonaros.
Afinal, é inesquecível o efusivo agradecimento do ex-deputado Eduardo Bolsonaro
a Trump depois que os Estados Unidos impuseram uma tarifa de 50% aos produtos
brasileiros, há um ano.
O efeito disso tudo não é apenas o desgaste
de Flávio, de resto um candidato fraquíssimo, que não tem a apresentar nada
além de seu sobrenome. É a injeção de oxigênio na campanha de Lula a poucos
meses da eleição. Se a ideia dos Bolsonaros é ajudar a reeleger Lula para
manter vivo o inimigo que justifica sua existência política, está funcionando.
As ruínas do ‘socialismo do século 21’
Por O Estado de S. Paulo
A rigor, o experimento bolivariano não
precisava de um terremoto para se provar falido. Mas a tragédia expôs a
destruição do Estado venezuelano promovida pelo regime chavista
As ruínas de La Guaira, região mais afetada
pelos terremotos de 24 de junho passado na Venezuela, são também as ruínas do
chamado “socialismo do século 21” – experimento chavista destinado a
transformar o país, um dos mais ricos da América do Sul, em uma grande Cuba.
La Guaira concentra moradias populares
erguidas com o dinheiro da bonança do petróleo nos tempos do caudilho Hugo
Chávez – época na qual o governo venezuelano transformou a PDVSA, estatal
petrolífera, na cornucópia que alimentou o projeto revolucionário chavista.
Essas moradias foram construídas a toque de caixa pela ditadura bolivariana,
sem qualquer preocupação com padrões técnicos – e quem quer que questionasse o
governo a esse respeito era logo tratado como “inimigo do povo”. Hoje, sob os
escombros desses prédios, estão milhares de pessoas pobres para as quais o
“socialismo do século 21” havia prometido a redenção.
A rigor, o tal “socialismo do século 21” não
precisava de um terremoto devastador para ser desmoralizado. A Venezuela, dona
das maiores reservas provadas de petróleo no mundo, transformou-se ao longo de
quase três décadas de chavismo num país falido, cuja economia encolheu
brutalmente desde que o modelo de assalto ao Estado inaugurado por Chávez e
aperfeiçoado pelo seu sucessor, Nicolás Maduro, mostrou todo o seu potencial.
De 2012, um ano antes do início do governo Maduro, até 2020, o Produto Interno
Bruto (PIB) per capita da Venezuela desabou de US$ 12.607 para US$ 1.506. O
fundo do poço foi atingido em 2020, com uma retração do PIB estimada em 30%,
fenômeno raro em tempos de paz.
A erosão do Estado venezuelano, entregue à
rapina bolivariana, cobrou seu preço na forma de um profundo despreparo para
enfrentar tragédias como os terremotos de junho. Ficarão para sempre na memória
as terríveis imagens de civis venezuelanos cavando os escombros com as próprias
mãos em busca de sobreviventes e enterrando seus mortos, já que o governo foi
incapaz de fornecer a ajuda necessária.
A corrupção desenfreada e a falta de
planejamento adequado mostraram seus resultados: bombeiros sem os equipamentos
necessários, hospitais em colapso e prédios que ruíram porque suas estruturas
não foram corretamente fiscalizadas. O dinheiro que deveria financiar toda a
arquitetura estatal requerida para essas múltiplas necessidades foi desviado
para alimentar a máquina do poder chavista.
E parece ser apenas com isso que a presidente
venezuelana, Delcy Rodríguez, está preocupada. Ela está mais empenhada em
sufocar a perturbação social como consequência da tragédia do que em mobilizar
o aparato estatal para socorrer as milhares de vítimas dos terremotos. Consta
que militares, indissociáveis do regime, reprimiram voluntários em vez de
auxiliá-los. Não à toa, em recente visita a um dos locais atingidos, Delcy foi
vaiada.
A Venezuela passa por uma transição política
relevante, desde que os Estados Unidos capturaram o ditador Nicolás Maduro, em
janeiro passado, a pretexto de julgá-lo por tráfico de drogas. Em seu lugar, o
governo americano instalou Delcy, então vice-presidente, no poder – e sobre ela
exerce tutela de forma explícita. Não se trata de mudança de regime, porque
para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não interessa que a
Venezuela seja reconvertida à democracia. A única coisa que importa a Trump é a
transformação da Venezuela em vassalo dos Estados Unidos e a captura de suas
riquezas naturais, sobretudo o petróleo.
Nesse processo, Delcy não tem o menor
interesse em desmontar a máquina de repressão e controle do chavismo. Pelo
contrário: a presidente aceita alegremente o papel de fantoche dos Estados
Unidos porque tem projetos próprios para imprimir sua marca na história do
chavismo. Tudo ia bem, com a retomada de investimentos no setor de petróleo a
mando dos Estados Unidos, até que veio o terremoto – que pôs abaixo, sem
piedade, a fantasia do bolivarianismo.
Veto a celular dá resultado
Por O Estado de S. Paulo
Restrição nas escolas completa um ano com
consequências positivas para a educação
Uma pesquisa com mais de 3,5 mil gestores
escolares das redes pública e privada de todo o Brasil apresentou resultados
animadores sobre o primeiro ano de vigência da lei que restringe o uso dos
celulares nas unidades de ensino. Segundo o levantamento coordenado pelo
Ministério da Educação (MEC), 92% dos gestores ouvidos disseram que já
implementaram a legislação em suas escolas.
Num país conhecido por ter leis que pegam e
que não pegam, esse dado indica que a Lei 15.100, de 2025, está vigente e é
eficaz. Como bem afirmou a secretária de Educação Básica, Kátia Schweickardt,
ao anunciar os resultados da pesquisa, se a lei pegou, é porque havia um
ambiente de preocupação na sociedade com o uso nocivo dos celulares por
crianças e adolescentes.
Pais, professores, especialistas em educação
e o poder público, o que inclui o Congresso, por discutir e aprovar a lei, e o
presidente Lula da Silva, por sancioná-la, mostraram-se, a bem da verdade,
atentos aos abusos. O tempo de tela, não raro viciante, desviava o foco dos
alunos do conteúdo aplicado pelos professores, assim como lhes roubava o tempo
de convívio social com os colegas nos espaços de interação, como o pátio da
escola no intervalo.
E os gestores relataram uma nova realidade
nas escolas. Nada menos do que 97% deles afirmaram que a restrição de
celulares, com uso liberado apenas em atividades pedagógicas, contribuiu para
aumentar a participação dos estudantes; 95% disseram que aumentou a
socialização presencial; 88% afirmaram que a medida reduziu conflitos,
agressões digitais e cyberbullying; e 86% apontaram a queda da ansiedade dos
estudantes.
Tudo isso indica que a lei alcançou seus
objetivos. De um lado, atendeu aos anseios da sociedade de frear o uso
prejudicial dos celulares. E, de outro, incentivou as interações sociais e
promoveu uma cultura de paz entre os estudantes no ambiente escolar.
Por ora, não foi possível aferir os efeitos
acadêmicos da restrição. Novas pesquisas poderão dizer se os estudantes
aprenderam mais ou menos. Mas já há estudos da Unesco que atestam os benefícios
da medida, haja vista que o celular, ao tirar a atenção dos alunos da
aprendizagem, afeta a memória e a compreensão.
Há desafios imediatos pendentes de solução.
Segundo a pesquisa do MEC, 39% dos gestores escolares relataram ter dificuldade
para convencer os alunos a aderir às regras e para garantir uma infraestrutura
mínima para armazenar os aparelhos. É por isso que em 62% das escolas os celulares
ficam na mochila dos próprios alunos.
Os gestores manifestaram algumas inquietações, como a necessidade de mais engajamento das famílias, para que as crianças não abusem das telas em casa e sintam vontade de usá-las na escola, e a demanda por mais políticas públicas para a formação docente em mediação tecnológica, saúde mental e bem-estar. Já houve mudanças significativas no dia a dia das escolas, mas apenas a letra da lei não basta: a eficácia plena ainda depende do comprometimento dos gestores, da participação dos pais e da ação do Estado.
Fragmentação geopolítica leva a número
recorde de conflitos
Por Valor Econômico
Em paralelo, houve uma aceleração dos gastos militares, em especial na “pacífica” Europa em resposta à guerra na Ucrânia
Antes mesmo de Donald Trump ter lançado os
EUA em uma guerra contra o Irã, o ambiente geopolítico global já era o mais
instável desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A paz no mundo deteriorou-se
pelo 12º ano seguido em 2025, refletindo a crescente interferência de Estados
estrangeiros em conflitos internos, resultando em mais de 181 mil mortes,
segundo dados do Institute for Economics & Peace (IEP). Em paralelo, houve
uma aceleração do rearmamento global, com destaque para a presença cada vez
maior da inteligência artificial na infraestrutura bélica e no uso de drones,
que se tornaram a arma definidora da guerra moderna.
O impacto da violência dos conflitos internos
e entre Estados na economia global foi de US$ 21,8 trilhões em termos de
paridade do poder de compra (PPC) em 2025, o equivalente a 10,5% do PIB global
- uma alta anual de 3,2%, segundo o Índice Global da Paz (GPI) do IEP. Mas esse
impacto é bastante assimétrico, com o custo econômico nos 10 países mais
afetados pela violência alcançando, em média, 23,4% do PIB na Rússia, Sudão,
República Democrática do Congo, Ucrânia, Israel, Sudão do Sul, Afeganistão,
Iêmen, Síria e Mali. Nos 10 países menos afetados esse impacto foi de apenas
2,2% do PIB - a maioria países ricos da Europa Ocidental.
Em um sinal da deterioração da percepção da
paz global, foram justamente as nações “mais pacíficas” da Europa Ocidental e
Central que mais aumentaram os gastos militares no último ano. No total global,
os gastos militares somaram US$ 2,9 trilhões em 2025 - o equivalente a 2,5% do
PIB global -, um aumento de 2,9% em termos reais. Os cinco países que
registraram as maiores variações nos gastos militares são todos membros da Otan
e com fronteiras próximas à guerra em curso na Ucrânia: Dinamarca, Noruega,
Lituânia, Bélgica e Suécia. Coletivamente, os aliados europeus aumentaram os
gastos com defesa em aproximadamente 20%.
A invasão da Ucrânia pela Rússia inverteu uma
tendência de 15 anos de diminuição do nível médio de militarização dos países,
segundo o GPI. Fora da Europa, observa-se também um crescimento contínuo dos
orçamentos de defesa na China e na Índia e uma proliferação global de sistemas
de armas avançados e pesados. Tudo isso sugere continuidade do impulso nos
gastos militares globais.
A campanha militar dos EUA e de Israel contra
o Irã introduziu uma nova camada de instabilidade no Oriente Médio. A guerra
lançada por Trump é o mais recente exemplo de crescente internacionalização dos
conflitos. Nos últimos cinco anos, 103 países estiveram envolvidos, em algum
grau, em conflitos externos, ante 59 em 2008. Na avaliação do IEP isso reflete
uma transformação estrutural do sistema internacional com a expansão em número
e crescente influência das nações de potência média, cujo número quase dobrou
desde o fim da Guerra Fria, de nove em 1991 para 16 em 2024, enquanto o número
de potências emergentes triplicou no mesmo período. Essa expansão significa uma
redistribuição da influência global, que se distancia das tradicionais grandes
potências europeias e se desloca para um conjunto mais diversificado de atores
no Oriente Médio, na região da Ásia-Pacífico e na América Latina. A
participação das grandes potências europeias no PIB global também encolheu drasticamente
desde 1991.
Essa mudança ocorre em um contexto de
fragmentação geopolítica e esvaziamento das instituições multilaterais, do
Conselho de Segurança da ONU à Organização Mundial do Comércio (OMC). Esse é um
efeito colateral da teimosa resistência de longa data das potências
tradicionais às demandas de reformas das instituições para dar mais peso às
potências médias emergentes - uma pauta defendida pelo Brasil desde meados da
década de 1990. A influência de potências médias em ascensão não se limita às
considerações tradicionais de segurança. Países como Indonésia, Turquia, Arábia
Saudita, Emirados Árabes Unidos e Brasil estão moldando cada vez mais os fluxos
comerciais globais, o financiamento para o desenvolvimento, as narrativas
culturais, o apoio militar e diplomático e as instituições internacionais.
É nesse cenário de fragmentação geopolítica e
de conflitos globais em número recorde que o mundo observa um alarmante
crescimento da infraestrutura bélica habilitada por IA, com os drones se consolidando
como arma definidora nos conflitos armados atuais. Os riscos geopolíticos hoje
superam os níveis da Guerra Fria, impulsionados pelo aumento dos gastos
militares, redução do papel das instituições multilaterais, escalada das
restrições comerciais e crescente competição entre grandes e médias potências.
O dinheiro das armas compete com o do combate ao aquecimento global, ameaça existencial ao planeta, que não cresce à altura das necessidades. O montante anual de US$ 1,3 trilhão que os países desenvolvidos se recusam a aportar para financiar ações de mitigação e adaptação climática nos países em desenvolvimento é bem menor do que os recursos que vão para armas de destruição.
A urgência de repensar os espaços urbanos
Por Correio Braziliense
Os números revelam uma distância entre o
planejamento burocrático e o dia a dia pelo país: apenas 13% das cidades
possuem planos publicados
A crise climática deixou de ser uma ameaça
projetada para um horizonte distante e se tornou realidade cotidiana. Entre os
episódios de calor extremo que colocam sob estresse vários sistemas pelo
planeta — como a recente onda que atinge a Europa e matou ao menos 4,7 mil
pessoas — e as tempestades que paralisam comunidades e destroem
infraestruturas, o mundo enfrenta um dilema urgente: adaptar os pilares das
cidades, estabelecidos em concreto e, muitas vezes, sem expansão planejada. No
Brasil, historicamente marcado por diversos problemas urbanos, essa demanda é
complexa.
O Plano Clima, do governo federal, representa
um passo institucional necessário, uma vez que estabelece a meta de que 35% dos
municípios brasileiros possuam estratégias de adaptação até 2035. Mas os
números revelam uma distância entre o planejamento burocrático e o dia a dia
pelo país: apenas 13% das cidades têm planos publicados, de acordo com
informações analisadas pela Transparência Internacional Brasil. Os dados
apontam o tamanho do abismo do ponto de vista da gestão e também indicam a
baixa participação social nesses processos, o que transforma decisões cruciais
sobre o território em atos de gabinete, distantes da percepção de quem enfrenta
a vulnerabilidade na pele.
O debate que o país precisa encarar
ultrapassa as medidas institucionais e exige uma mudança de paradigma. Durante
décadas, a resposta a eventos como enchentes foi baseada no cinza, investindo
em canalização de rios, impermeabilização do solo e criação de obras de
drenagem que, hoje, provam ser insuficientes diante da intensidade dos
registros pluviométricos. A série de eventos que deixam rastros traumáticos
mostram que é preciso transitar, com urgência, para soluções que não anulem a
imposição da natureza. Um planejamento urbano que respeite as áreas verdes e as
bacias hidrográficas, por exemplo, deve deixar de ser apenas experimentos
isolados para se tornar diretrizes obrigatórias no modo de pensar a vida nos
municípios brasileiros.
Além dos desafios da infraestrutura, a
adaptação climática é, especialmente, uma questão de justiça social. As
populações mais pobres são as que mais sofrem com o deficit de saneamento e a
precariedade da moradia em áreas de risco. Pensar em cidades resilientes sem integrar
a habitação digna e a inclusão na equação é ignorar a raiz do problema. A
resiliência urbana não se constrói apenas com concreto e contenção, mas com o
fortalecimento das comunidades e políticas públicas que garantam o direito à
cidade segura.
Nesse cenário desafiador, conhecimento
técnico, acadêmico e diretrizes estão presentes nas discussões nacionais.
Porém, o que ainda falta é a tradução desses compromissos em orçamentos e,
sobretudo, em vontade política. Os administradores públicos não podem mais
postergar as ações voltadas para a emergência climática, mesmo que os
"resultados" não sejam percebidos durante seus mandatos. Inação e
soluções rasas custam vidas, sacrificam a população e comprometem o
desenvolvimento econômico do país.
É imperativo que especialistas, pesquisadores, movimentos sociais e cidadãos se envolvam conjuntamente e assumam o protagonismo na cobrança e na fiscalização de alternativas duradouras. A adaptação climática é uma pauta de sobrevivência. A nação não pode mais permitir que o planejamento urbano continue a reproduzir erros do passado, que provocaram traumas e perdas irreversíveis. O futuro das cidades brasileiras depende de quão prioritário é esse tema para o país. O potencial único e a capacidade de adaptação são trunfos que o Brasil tem de aplicar urgentemente na busca por espaços urbanos que suportem a nova condição do clima.
Riqueza aumenta, mas desigualdade permanece
Por O Povo (CE)
Existe consenso fundamental entre economistas
das mais diversas tendências de que o crescimento econômico, por si só, não
garante a redução da desigualdade, pois o aumento da riqueza beneficia
desproporcionalmente os detentores do capital
Pesquisa do Relatório Global de Riqueza,
divulgado esta semana pelo Union Bank of Switzerland (UBS), mostra que o Brasil
vive um impasse: enquanto aumenta o número de milionários, na outra ponta a
desigualdade não cede.
No ano passado, em comparação com 2024,
cresceu em 2,4% o número de pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão. O
Brasil ganhou 9.215 novos milionários, ocupando a 19ª posição entre os 56
países analisados, liderando a lista de milionários na América Latina. No
total, o Brasil soma 386 mil pessoas nessa condição economicamente
privilegiada.
Em contrapartida, o País ocupa o quarto lugar
entre os países mais desiguais do mundo, com o coeficiente Gini de 0,81,
indicador que mede o nível de desigualdade de um país. Quanto mais próximo de
zero, mais igualitária é a distribuição; quanto mais próximo de um, mais
concentrada é a renda.
Segundo o relatório, o Brasil é o quarto
mercado com maior desigualdade entre os países estudados, revelando que a
riqueza continua distribuída de forma desigual entre a população.
De acordo com o relatório, o mundo está se
tornando, de maneira geral, mais rico, em todos os segmentos do patrimônio. No
entanto, a desigualdade permanece porque a distribuição da riqueza acontece de
forma desigual, pois os ganhos são impulsionados pela valorização de ativos
financeiros e imobiliários.
Um exemplo de como isso ocorre é a recente
notícia mostrando que Elon Musk se tornou a primeira pessoa da história da
humanidade a atingir a marca de US$ 1 trilhão de patrimônio, valor impulsionado
pela entrada da empresa SpaceX na Nasdaq, a principal bolsa de tecnologia dos
Estados Unidos.
O que fazer então para reduzir esse
descompasso, no qual mais riqueza produz mais desigualdade, com os ganhos
concentrados nos detentores de grandes patrimônios? Segundo estudiosos do
assunto, é necessário buscar formas de fazer com que o crescimento seja
acompanhado por instrumentos de redistribuição da riqueza.
É possível encontrar concordância entre
estudiosos, com diferentes visões, socialistas ou liberais, em algumas
propostas fundamentais que ajudariam, se implementadas, a reduzir a
desigualdade. É o caso de programas de combate à pobreza e a criação de
mecanismos para garantir uma renda mínima aos setores mais vulneráveis.
Além do mais, existe consenso fundamental
entre economistas das mais diversas tendências de que o crescimento econômico,
por si só não, garante a redução da desigualdade, pois o aumento da riqueza
beneficia desproporcionalmente os detentores do capital.
Essa compreensão poderia funcionar como um patamar mínimo para um movimento com o objetivo de evitar que o aumento de riqueza de um país ou do mundo, tenha como consequência a exclusão da maioria da população do crescimento econômico.

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